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Bancos têm oferecido recursos fora do radar dos reguladores bancários do país

AP

Mensagens de texto começaram a chegar aos celulares das pessoas mais ricas da China no mês passado, prometendo acesso a lucrativos fundos de gestão financeira, com rendimentos muito acima da taxa de poupança de referência do governo.

Chineses têm sido assediados até pelos celulares com ofertas de crédito
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Chineses têm sido assediados até pelos celulares com ofertas de crédito

Uma das mensagens diz: “Banco de Comércio da China vai lançar produto financeiro com alto rendimento em 28 de junho. Investimento de 90 dias, com taxa de 5,5%. Ligue agora”. No dia seguinte, um reforço: “A taxa de rendimento do fundo foi elevada para 6%.”

As ofertas não estão vindo de operadores desconhecidos, mas de alguns dos maiores bancos chineses. Eles estão levantando enormes reservas para financiar um negócio relativamente novo e altamente lucrativo: empréstimos fora do radar dos reguladores bancários.

A complexa forma de se fazer empréstimos fora dos balancetes oficiais está no centro do chamado sistema bancário paralelo da China, que movimenta US$ 6 trilhões, e que o governo agora tenta domar. Os esforços para conter a práticas de empréstimos duvidosos sacudiu os mercados de ações em todo o mundo no final de junho.

Os reguladores chineses – e um bom número de economistas – se preocupam que bancos legítimos estejam usando fundos de investimentos com pouca regulamentação para repaginar empréstimos antigos que escoram empresas de risco e projetos que de outra forma não conseguiriam mais dinheiro emprestado.

Especialistas alertam para riscos

Analistas alertam que o sistema paralelo tem ajudado a aumentar rapidamente o crédito em uma economia que está se enfraquecendo, o que poderia levar, no pior dos cenários, a uma série de falências de bancos. “Este é o maior risco que já vi em meus 18 anos seguindo o mercado chinês. Você não sabe como os bancos estão usando o capital, nem sobre os riscos do crédito”, afirma o economista do Credit Suisse Dong Tao.

O que os bancos estão fazendo, dizem analistas, é pressionar os investidores a tirar o dinheiro de operações antigas e reguladas – os depósitos em poupança – e colocá-lo nos novos produtos de gestão financeira de alto rendimento, que conseguem burlar os controles de taxas do governo. Eles usam o capital para conceder empréstimos a altos juros para consumidores desesperados.

Os líderes chineses estão tão preocupados com crédito de risco que, no mês passado, o banco central do país restringiu o crédito no mercado interbancário, onde os bancos normalmente vão para pedir dinheiro emprestado uns aos outros. A medida elevou as taxas de juros de curto prazo e, ao menos por um dia, criou um aperto nos empréstimos de risco.

O mercado de ações da China se acalmou na semana retrasada. Mas as instituições financeiras dão indícios de que ainda está difícil de o dinheiro chegar a elas. Alguns bancos suspenderam temporariamente os empréstimos para preservar suas reservas, segundo a revista chinesa de negócios 'Caixin'.

Outros bancos estão levantando dinheiro ao oferecer os ditos produtos de gerenciamento de riqueza. Quase todos os grandes bancos chineses venderam fundos de investimento de curto prazo que tinham de ser adquiridos até o fim de junho. Muitos ofereceram taxas de 6% ao ano, bem maior do que o retorno da poupança permitido pelos regulares bancários, que é de 3,3%.

Apesar de os fundos serem populares, há pouca transparência sobre eles. Funcionários dos bancos garantem que o valor investido está garantido, mas os contratos são vagos, simplesmente dizendo que há riscos. A maioria oferece poucos detalhes sobre como o dinheiro vai ser investido.

De acordo com analistas, boa parte do dinheiro é emprestado para construção de imóveis e financiamento de veículos, áreas que preocupam o governo por causa da explosão dos preços. Como os empréstimos são de alto risco, bancos regulados não os fazem.

A oferta de crédito entre os chineses virou motivo de preocupação
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A oferta de crédito entre os chineses virou motivo de preocupação

Então, os empréstimos são feitos por fora dos balancetes e longe da supervisão dos reguladores – e é por isso que o esquema é chamado de sistema bancário paralelo. Eles são feitos com altas taxas, assim todo mundo ganha: quem pega emprestado, os bancos e os investidores individuais, contanto que a dívida seja mesmo paga.

“Os bancos agora têm essas fontes obscuras de dinheiro. Para financiar os acordos, eles geralmente usam uma trust company como intermediária”, diz Joe Zhang, autor do livro "Inside China’s Shadow Banking: The Next Subprime Crisis?" (Dentro do sistema paralelo bancário da China: a próxima crise subprime?, numa tradução livre).

O crescimento explosivo dos fundos começou há cerca de cinco ano, levando bancos chineses grandes e pequenos a entrar no sistema paralelo. No fim do ano passado, a atividade era avaliada em US$ 6 trilhões, duas vezes o valor de 2010, e agora igual a 69% do PIB (Produto Interno Bruto) chinês, segundo um relatório de maio do JPMorgan Chase. Atualmente, até bancos estatais fazem esse tipo de empréstimo, o que aumentou o financiamento a companhias em setores de risco.

Nem sempre fica claro quem é responsável pelos empréstimos, e é com isso que todo mundo começa a ficar nervoso. “Se um produtos desses der problema, a quem responsabilizar?”, questiona Michael Pettis, professor de finanças na Universidade Perking, em Pequim. “É tudo muito obscuro.”

Até agora o governo tem tolerado o sistema paralelo porque foi impossível acabar com ele, dizem analistas. Clientes ricos estão acostumados a receber retornos melhores e um grande segmento da economia que está desesperado por capital não o consegue com empréstimos regulares por causa das restrições do governo. E eles estão dispostos a pagar até 15% de juros.

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