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Falta de uma tendência definida para o câmbio não reduz volume de importações e traz incertezas ao exportador

Brasil Econômico

Nos últimos anos, convencionou-se acusar a cotação do dólar como uma das principais vilãs para a falta de competitividade da indústria brasileira. Desde que chegou a R$ 2,00, durante o ano de 2012, as reclamações de que o câmbio estava fora do lugar diminuíram. No entanto, a desvalorização do real não foi suficiente para alavancar as exportações e proteger o país das importações. Agora que o dólar ameaça a estabilizar-se próximo da faixa de R$ 2,30, especialistas dizem que os efeitos da nova desvalorização pode não ser favorável à indústria, e principalmente, ao consumidor brasileiro.

Saldo positivo é o maior desde 2006
Divulgação
Saldo positivo é o maior desde 2006

Um dos motivos está na falta de competitividade em outros aspectos, como burocracia, produtividade da mão de obra e custo da matéria-prima. Com isso, dizem especialistas, os importadores conseguem margens de até 100% sobre alguns produtos nacionais e assim podem absorver as variações no dólar. Além disso, as importações que chegam neste momento nos portos brasileiros tiveram o câmbio contratado no início do ano, “no máximo em fevereiro”, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Qualquer impacto da desvalorização do real só será sentido a partir de outubro, ele explica, quando a variação do câmbio completará seis meses. “A expectativa é que somente no final do ano algum efeito possa ser sentido. Apenas agora as empresas estão fechando as compras de artigos que serão vendidos para a época de festas”, explica Castro.

Se ao menos as exportações ganhassem fôlego com a alta recente, já seria uma vitória do comércio exterior. No entanto, as incertezas em torno da cotação da moeda norte-americana deixam dúvidas sobre alguma recuperação no volume de embarques. Em junho, foram exportados US$ 21,2 bilhões, com um recorde de embarques por dia úlil no ano: US$ 1,06 bilhão. No entanto, o montante de dólares contratado pelos exportadores somou US$ 16,5 bilhões. Os US$ 4,7 bilhões restantes ficaram em contas no exterior.

“Isso significa que o exportador está deixando o dinheiro lá fora para escapar das variações do câmbio. O empresário prefere exportar com o dólar a R$ 1,50 com uma tendência definida do que com R$ 2,50, sem saber o que acontecerá no dia seguinte”, avalia João Medeiros, diretor de câmbio da Pioneer corretora.

Para o indústrial que importa insumos para sua própria produção, a alta também é encarada como um tormento. O índice CRB (Commodity Research Bureau) cai desde maio 2,2% quando cotado em dólar. Mas em real, aponta para uma valorização da cesta de insumos de 11%.

O efeito sobre a produção 100% nacional também pode ser perverso. Com maior folga, os empresários podem aproveitar a oportunidade para elevar seus preços e reaver prejuízos acumulados. Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco West LB, diz que a inflação refletirá essa recomposição de margem. “A inflação no atacado é a primeira a subir, depois, há um movimento de alta dos preços ao consumidor”, avalia. 

No mercado cambial, afirma João Medeiros, poucas mudanças aconteceram após a desvalorização iniciada na segunda quinzena de maio. “Os volumes contratados de hedge por importadores continuam semelhantes ao do começo do ano”, avalia. Segundo ele, alguns importadores, principalmente de produtos populares, não costumam se proteger das variações do câmbio. Por isso, os primeiros efeitos podem ser sentidos neste setor. “A maioria dos comerciantes colocam uma margem grande e diluem a variação cambial no que era lucro. Se a volatilidade for grande, há prejuízo”.

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