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Empresas suspendem projetos e anunciam venda de ativos para adequar operações às condições de caixa. Para mercado, Eike terá que aportar R$ 1 bilhão para manter sua petroleira ativa

Brasil Econômico

A revisão dos planos de negócios das duas principais petroleiras privadas nacionais confirma a situação delicada em que se encontram as empresas e sugerem novos desafios para seus controladores. Em comunicados divulgados ontem, OGX e HRT anunciaram redução de investimentos e vendas de ativos, com o objetivo de equacionar as finanças e cumprir compromissos. Para a empresa de Eike Batista, porém, a revisão do plano cria o desafio de conseguir R$ 1 bilhão para honrar um adiantamento para a construção de uma plataforma pela OSX, que também é parte do grupo de Batista.

Eike Batista
Getty Images
Eike Batista

O plano mais radical foi apresentado pela OGX, que anunciou a suspensão de três projetos (Tubarão Tigre, Tubarão Gato e Tubarão Areia) e o encerramento precoce, já em 2014, da produção do campo de Tubarão Azul, na Bacia de Campos, anunciado como o principal ativo da companhia, que não correspondeu às expectativas de produção. O único empreendimento que se mantém conforme o projeto original é Tubarão Martelo, que teve 40% transferidos a Petronas, de Cingapura, e deve começar a operar este ano.

Com a suspensão dos projetos, a empresa informou que suas projeções “não devem mais ser consideradas válidas”. A revisão das expectativas foi considerada pelo mercado como um “choque de realidade”, como escreveu o analista do BES Securities, Oswaldo Telles. “As estimativas das empresas eram muito otimistas”, concorda o analista da Um Investimentos, Gabriel Ribeiro. OGX e HRT protagonizaram um momento de ascensão do mercado petrolífero nacional, com o lançamento de ações em bolsa e grande expectativa quanto ao surgimento de novos empreendedores.

Hoje, as duas empresas vivem uma crise de credibilidade, por conta da frustração com os primeiros resultados exploratórios. Sem geração de caixa adequada e muito endividadas, as duas têm dificuldades para dar continuidade aos planos de investimentos. “É um cenário muito delicado. O grupo acumula dívidas desde o IPO (lançamento de ações) e o impacto da revisão de ativos é brutal na companhia, que já vinha perdendo valor e vai perder mais ainda”, analisa Claudio Gonçalves, professor do MBA Gestão de Riscos da Trevisan Escola de Negócios.

As ações da OGX caíram 27,8% no pregão de ontem, diante das preocupações com o futuro da empresa. Embora tenha anunciado o cancelamento da compra de quatro plataformas de produção, a companhia se comprometeu a adiantar US$ 449 milhões (ou cerca de R$ 1 bilhão, pela cotação de ontem) para a OSX comprar a plataforma de Tubarão Martelo. No final do primeiro trimestre, a empresa tinha R$ 1,1 bilhão em caixa.

O compromisso levou o mercado a ampliar as apostas no exercício, pelo menos parcial, de uma opção feita por Eike Batista, de comprar até US$ 1 bilhão em ações da empresa, operação chamada de ‘put’. “O que resta para a petroleira?”, questiona o analista da Empiricus, Roberto Altenhofen, citando como únicas saídas a ‘put’ do Eike e o dinheiro que entrará quando o campo de Tubarão Martelo entrar em operação. Parte do projeto foi vendido à Petronas, por US$ 850 milhões,com pagamento imediato de US$ 250 milhões e o restante no início das atividades. A OGX informou que a ‘put’ “continua sendo uma opção viável a ser considerada pela companhia”.

Embora com uma situação de caixa um pouco menos apertada, a HRT também precisa buscar recursos para bancar seus investimentos, sob o risco de não prosperar, dizem os analistas. Assim como no caso da OGX, o caixa do primeiro trimestre só resistiria a mais um ano, se mantido o fluxo de gastos registrado no início de 2013. Ontem, a empresa anunciou a redução do ritmo dos investimentos na Amazônia e a criação de um comitê para avaliar parcerias e vendas de ativos. “São bons ativos, mas estão contaminados pela crise de confiança na empresa”, disse uma fonte próxima às operações da companhia.

Além da Amazônia, a HRT tem projetos na Namíbia, na África, onde encontrou petróleo, mas em volumes não comerciais. Na Amazônia, a empresa chegou a encontrar reservas de gás natural, mas decidiu não prosseguir diante das dificuldades de levar o produto ao mercado consumidor. Segundo uma fonte, a redução no ritmo de investimentos tem o aval da Rússia Gazprom, sócia da companhia no projeto.

Em comum, a OGX e a HRT têm o fato de estarem enfrentado dificuldades com seus acionistas e também conselheiros. Há uma semana, os três conselheiros independentes da primeira anunciaram renúncia, por motivos ainda inexplicados. No caso da HRT, fundos de investimentos conseguiram colocar três representantes no conselho de administração, em um movimento que culminou com a renúncia do presidente e fundador da companhia, o geólogo Marcio Mello.

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