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Valorização da divisa americana ante o real e a fuga de capital estrangeiro do principal índice acionário da bolsa brasileira explicam a diferença; e movimento deve continuar

Brasil Econômico

A queda de pouco mais de 24% do Ibovespa no ano assusta qualquer investidor. Contudo, o estrago é ainda maior quando analisada a pontuação do Ibovespa em dólar, que afeta diretamente o investidor estrangeiro. Segundo levantamento da consultoria Economatica feito a pedido do Brasil Econômico , o principal índice acionário da bolsa brasileira recuou 31% na divisa americana desde o início de janeiro até agora.

Em junho, até a última quinta-feira, os investidores estrangeiros já haviam retirado quase R$ 5 bilhões da bolsa brasileira
Getty Images
Em junho, até a última quinta-feira, os investidores estrangeiros já haviam retirado quase R$ 5 bilhões da bolsa brasileira

E um movimento é consequência do outro. “O dólar tem elevado seu patamar em relação às demais moedas do mundo. Isso por si só faria a divisa americana ganhar força ante o real. Mas, com a melhora da economia americana, notamos uma fuga de capital em sentido aos Estados Unidos. Para tanto, os investidores vendem BM&FBovespa e compram dólar. Ou seja, quanto mais a bolsa cair, maior será a alta do dólar”, explica Caio Sasaki, gerente de análise da XP Investimentos.

Em junho, até a última quinta-feira, os investidores estrangeiros já haviam retirado quase R$ 5 bilhões da bolsa brasileira. Em contrapartida, o número de investidores que apostam na alta da divisa americana cresceu. “Ao todo, a BM&FBovespa contabiliza 50 mil contratos futuros de dólar na ponta compradora, que equivalem a US$ 2,5 bilhões. E essas posições já foram negativas e hoje são positivas”, diz o especialista, lembrando que essa movimentação não significa apenas que os investidores estão saindo de bolsa e migrando para dólar. “É possível que, ao se desfazerem das posições de ações tenham feito o mesmo em contratos de hedge. Nesse caso, não faz sentido manter a operação em uma ponta se a outra foi desfeita”, completa.

Pablo Spyer, diretor de mesa da Mirae Asset Securities também lembra que a valorização da divisa americana cria a oportunidade dos investidores arbitrarem com American Depositary Receipts (ADRs), recibos de ações de empresas brasileiras negociadas nas bolsas americanas. “O investidor estrangeiro tem facilidade de operar em outros mercados e, neste momento, tem optado por ADRs”, diz. Para ele, a saída de estrangeiros tende a continuar. Mas no médio prazo, a tendência é que retornem. “Esse é um movimento pontual. No momento em que perceberem que a BM&FBovespa está barata voltarão. E voltarão com força”, ressalta. 

A opinião é compartilhada por Felipe Rocha, analista da Omar Camargo. “Que os estrangeiros manterão o ritmo de saída da bolsa brasileira é certo. Só não sabemos até que patamar irão. Também dependemos de uma melhora econômica doméstica para que vejamos, novamente, os estrangeiros animados com a BM&FBovespa.”

Os principais receios giram em torno da política fiscal, disparada da inflação e elevação da taxa básica de juros (Selic). “Os investidores também estão atentos à onda de protestos que dominaram o país nas últimas semanas. O discurso da presidente Dilma Rousseff, na sexta-feira, deixou a desejar”, opina o executivo da Mirae. “Já a reunião de ontem entre ela, governadores e prefeitos não trouxe alento. O Ibovespa, que iniciou o pregão em queda, manteve o movimento até o fim do pregão. Na prática, não há muito que ser feito no curto prazo”, adiciona o gerente de análise da XP Investimentos.

A verdade é que poucos analistas se arriscam a dar um palpite quanto ao futuro do Ibovespa no curto prazo. E os que fazem são pessimistas. “As bolsas americanas nem começaram a recuar de forma consistente em função da redução dos estímulos econômicos por parte de Federal Reserve (Fed). Grande parte da valorização acumulada nos últimos meses deve-se à injeção de liquidez. Quando a recompra de título do tesouro americano for reduzida, é possível que índice acionário brasileiro volte aos 35 mil pontos”, diz uma fonte.

O índice chegou neste patamar durante a crise de 2008 até março de 2009,quando a bolsa começou a se recuperar. Agora os pontos estão no caminho inverso. Sasaki também acha que há espaço para novas quedas. “Quando as bolsas americanas sobem, o Ibovespa não acompanha. E quando cedem, o principal índice acionário da bolsa brasileira recua forte”, lembra, sem citar palpite.

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