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Saldos negativos das transações correntes, segundo números do BC, aumentaram 160% em cinco anos , passando de US$ 28,192 bilhões em 2008 para US$ 72,972 bilhões no acumulado dos doze meses até maio

Brasil Econômico

A evolução das linhas que mostram o crescente déficit de suas transações correntes do país, a estagnação do Investimento Estrangeiro Direto (IED) e a necessidade de financiamento externo para finaciamentos dos saldos negativos acendem um sinal amarelo nas contas externas brasileiras e podem comprometer o saldo do balanço de pagamentos brasileiro.

O saldo das transações correntes, que incluem a balança comercial do país e outros gastos, como viagens no exterior, é tradicionalmente negativo, mas nos últimos anos vem ampliando o tamanho do déficit. Segundo números divulgados pelo Banco Central na sexta-feira, o déficit em maio ficou em US$ 6,42 bilhões, acumulando em doze meses um saldo negativo de US$ 72,972 bilhões, 160% a mais que o déficit que o país registrou em 2008. A projeção do BC para o saldo em 2013, antes de US$ 67 bilhões, passou para um déficit US$ 75 bilhões.

Déficit em maio ficou em US$ 6,42 bilhões, acumulando em doze meses um saldo negativo de US$ 72,972 bilhões
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Déficit em maio ficou em US$ 6,42 bilhões, acumulando em doze meses um saldo negativo de US$ 72,972 bilhões

O cenário de preocupação é projetado pelos economistas Otto Nogami, professor de Economia do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), e Rafael Bistafa, da consultoria Rosenberg & Associados, que vêm como fator mais preocupante nesse cenário o enxugamento de liquidez previsto com a recuperação econômica dos Estados Unidos. Segundo eles, a persistência dos números negativos na conta corrente do país, que já alcançou a marca de 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB), resultará no déficit do balanço de pagamentos, o que implica na redução das reservas cambiais do País.

Segundo os números do BC, o balanço de pagamentos em maio registrou superávit de US$ 604 milhões, menor que o US$ 1,1 bilhão no mesmo período do ano passado, mas a trajetória segue em desaceleração. De janeiro a maio de 2012, o superávit acumulado foi de US$ 21,151 bilhões, encerrando o ano em US$ 18,900 bilhões. De janeiro a maior deste ano, o saldo positivo ainda está em US$ 7,599 bilhões.

Para Otto Nogami, o principal desafio do país para reverter essa situação é conseguir atrair investimentos para financiar seus déficits externos e seu crescimento. “Como a economia brasileira é altamente dependente do investimento estrangeiro, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) é fundamental para financiar o déficit de transações correntes”.

Os ingressos líquidos de IED somaram US$ 3,9 bilhões em maio, compreendendo US$ 2,7 bilhões de ingressos líquidos em participação no capital de empresas no país e US$ 1,2 bilhão referentes a desembolsos líquidos de empréstimos intercompanhias. Nos 12 meses encerrados em maio, os ingressos líquidos de IED somaram US$ 64,2 bilhões, equivalentes 2,82% do PIB.

Na opinião do professor do Insper, as perspectivas da balança comercial, que poderiam gerar superávits em moeda estrangeira, não são muito boas, apesar da valorização do dólar. “Por falta de investimentos no país, o aumento das exportações também impulsiona as importações. As vendas de commodities, por exemplo, exige adubos importados”.

Nogani observou que outra conta das transações correntes, a de serviços, que inclui aluguéis de equipamentos, como navios, e o pagamento de royalties de patentes estrangeiras, o Brasil é historicamente deficitário também pela falta de investimento, principalmente em tecnologia.

O economista Rafael Bistafa também considera que há uma piora palpável das transações correntes do país. Ele prevê que o déficit das transações correntes chegará ao fim do ano em US$ 80 bilhões (3,2% do PIB) e que a entrada de IED no ano seja de US$ 60 bilhões (2,38% do PIB)em 2013”, previu.

A diferença entre déficit em conta corrente e entrada de investimentos estrangeiros diretos, segundo ele, deve ser financiada pelas demais fontes de financiamento, como investimento estrangeiro em papéis domésticos e ações, retorno de investimentos brasileiros no exterior e empréstimos de médio e longo prazo. “Isso incorre em uma piora dos indicadores de endividamento externo brasileiro. O recrudescimento recente do cenário internacional, resultando em forte depreciação do real, deve deteriorar levemente os indicadores de solvência externa, porém ainda seguem bastante confortáveis”, afirmou.

Segundo o BC, o estoque de reservas internacionais do país totalizou US$ 374,4 bilhões em maio, redução de US$ 4,2 bilhões em relação ao apurado para o mês anterior. A receita de juros que remunera os ativos de reservas somou US$ 295 milhões. As variações por paridades e por preços reduziram o estoque em US$2,5 bilhões e US$ 2,4 bilhões, respectivamente.

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