Tamanho do texto

Contas correntes do banco aparecem com saldo de R$ 1 e restante investido em CDBs

Getty Images
"Agências são orientadas permanentemente a pegar autorização dos clientes", afirma o banco

Clientes do Bradesco têm reportado que, desde o final do ano passado, suas contas correntes passaram a exibir saldo de R$ 1 no extrato, enquanto o restante do dinheiro aparece como aplicação nos produtos Invest Fácil e Invest Plus. O investimento teria sido feito sem autorização desses correntistas.

O iG apurou que o fato ocorreu em pelo menos três agências de São Paulo. Numa delas, uma gerente afirmou que o problema teria se repetido em "muitas contas" daquela agência – uma das maiores da cidade – e de diversas outras. Sites de reclamação contra empresas registram queixas semelhantes em outras praças.

Para esses correntistas, qualquer saque ou gasto em cartão de débito consta como "resgate de papéis". E todo dinheiro que cai na conta é transferido automaticamente para o Invest Fácil ou Invest Plus e registrado como "aplicação em papéis".

Esses produtos do banco são investimentos em CDB (ou Certificado de Depósito Bancário) e funcionam em modo de resgate e aplicação automáticos, como se o estivessem "acoplados" à conta corrente. A aplicação paga, no início, 10% do CDI, taxa significativamente menor que nos CDBs mais comuns do mercado, normalmente entre 85% e 95% do CDI.

Clientes que reclamaram nas agências ou na internet tiveram o problema imediatamente resolvido pelo banco. Vale dizer que, embora a rentabilidade seja baixa, esses correntistas não perderam dinheiro na operação. O senão estaria no fato de que o dinheiro foi aplicado sem autorização dos donos.

O Banco Central (BC), que regulamenta a atividade dos bancos comerciais, proíbe o investimento de recursos de conta corrente sem ordem do consumidor. O artigo terceiro da resolução 3695 do BC determina que "é vedada às instituições financeiras a realização de débitos em contas de depósitos sem prévia autorização do cliente". O BC não quis se manifestar sobre o caso do Invest Fácil e Invest Plus e afirma que não recebeu reclamações sobre o assunto.

O Procon condena a prática. "É abusivo, é um serviço de investimento e tem de ter uma anuência específica do consumidor", afirma Marta Aur, assessora técnica do Procon-SP. "Ele precisa conhecer o que é o investimento, não pode ser feito de forma automática", diz. O órgão orienta que os clientes procurem primeiro a ouvidoria e o gerente da instituição, mas que entrem em contato com o Banco Central e os institutos de defesa do consumidor caso tenham se sentido prejudicados. 

Procurado pelo iG , o banco preferiu não dar entrevista e enviou um posicionamento por escrito. "O Bradesco esclarece que suas agências são orientadas permanentemente a pegar autorização dos clientes antes de realizarem qualquer tipo de operação. Caso o fato mencionado tenha realmente ocorrido, foi de forma pontual", diz a nota.

- Veja também: alta da taxa Selic foi antecipada para o consumidor, aponta Banco Central

"Por meio da baixa automática inteligente [ do Invest Fácil e do Invest Plus ], os clientes têm a conveniência da disponibilidade do saldo aplicado para cobertura de débitos em conta corrente, como saques, transferências e pagamentos", segue o comunicado.

Sobre a rentabilidade menor que a praticada, o banco informa que "as taxas são progressivas conforme o tempo de permanência e, dessa forma, a operação é remunerada pela taxa aplicável ao prazo correspondente ao período do investimento".

Perguntado sobre se o banco tem agido proativamente para desfazer o suposto ocorrido, ou atua somente se o cliente reclamar, o Bradesco não esclareceu o ponto.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.