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Retomada econômica e juros baixos aquecem investimentos, mas cenário externo é limitador

Após suspenderem novos investimentos, mesmo com alto volume de recursos em caixa, os cerca de 470 fundos que investem em aproximadamente 341 empresas de capital fechado no país, conhecidos como private equity, devem captar 50% mais no ano que vem, o que pode significar um volume aproximado de R$ 6 bilhões.

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Essa é a perspectiva do presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), Clóvis Meurer. O crescimento deve ser sustentado pela retomada do ritmo da economia, o cenário de juros no menor patamar da história e, consequentemente, um maior apetite por risco dos fundos de pensão, family offices, investidores institucionais e até mesmo pessoas físicas, que passam a olhar para o investimento em busca de maior rentabilidade.

“Houve uma captação muito grande de recursos em 2011, e em 2012 observamos uma diminuição deste volume. Mas estamos otimistas com relação ao ano que vem”, diz Meurer.

A maior parte dos recursos levantados no ano passado ainda não foi aplicada. “Os gestores estão em busca de boas oportunidades para esse dinheiro”, diz o sócio administrador da consultoria Grant Thornton, Paulo Sérgio Dortas.

Além do cenário macroeconômico mais favorável, incentivos do governo na área de investimentos e aprovação rápida das operações no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mesmo após a entrada em vigor da nova lei de concorrência, também colaboram para o otimismo do mercado com o novo ano.

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Empresas dos setores de energia, agronegócio, consumo e de infraestrutura estarão no foco dos gestores, ainda sob o efeito do aumento de renda da população e com a proximidade dos grandes eventos esportivos que o país irá sediar em 2014 e 2016.

Apesar de ainda estar em estágio inicial no país, o investimento em empresas iniciantes, ou ‘capital semente’, também deve crescer no ano, diante de um cenário mais propício para o empreendedorismo. Grandes gestoras globais, como a Redpoint E. Ventures, chegaram no país para fomentar estes negócios.

Recentes aquisições, como a compra do controle da Tok&Stok pelo fundo Carlyle por R$ 700 milhões, que já havia adquirido a rede de brinquedos Ri Happy, apontam que, com a decepção de gestores nacionais e estrangeiros com o fraco crescimento do PIB brasileiro em 2012, há uma aposta em nichos onde o PIB setorial é maior.

“É uma análise matricial. Hoje, grandes vetores do país não estão relacionados de forma direta com o PIB”, analisa Dortas.

Na busca de novas oportunidades os gestores passam a ‘pensar fora da caixa’ com relação à localização geográfica e ‘desregionalizam’ investimentos, cujo fluxo também começa a atingir as regiões do Nordeste e Centro-Oeste de maneira mais intensa.

Mas o caminho para levantar recursos pode encontrar obstáculos. O principal é uma possível deterioração da crise econômica na Europa e nos Estados Unidos. “Apesar da boa história de crescimento apresentada pelo Brasil, quem tem dinheiro está atrelado à Europa ou ao Estados Unidos”, ressalta Dortas.

Mas, ao mesmo tempo em que a crise pode ser um limitador para novas captações e novos investimentos, ela deve continuar atraindo fluxos de capital estrangeiro para o país.

“Os BRICs continuam a ser polos atrativos de investimentos cuja principal fonte são mercados maduros como Europa e Estados Unidos, que, diante da crise em suas regiões, buscam mais rentabilidade fora do país”, diz Dortas. Um exemplo é que em 2012, grandes gestoras internacionais começaram a atuar no país.

O ano de 2012 foi ruim para aberturas de capital no país (a saída mais lucrativa dos investimentos para os fundos), e a falta de opções preocupa.

De acordo com dados compilados pela ABVCAP, foram realizados 345 investimentos este ano até novembro. Porém, foram registrados apenas 24 desinvestimentos no período. Foram 22 saídas em fundos diversificados, e apenas duas em fundos restritos, os veículos patrimoniais.

“Há uma turma nova aplicando dinheiro por aqui, que talvez se esqueça de que o desinvestimento é tão importante quando o investimento. Opções de investimento não faltam. Eu me preocuparia mais com os desinvestimentos nos próximos três a cinco anos.”

Há confiança nas medidas para ampliação do acesso ao mercado por parte das médias empresas, que estão sendo discutidas por um grupo de trabalho composto pela BM&FBovespa e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mas, enquanto o acesso ao mercado não ganha novos incentivos, fundos cujas empresas investidas tenham chegado a um estágio de valorização suficiente e que não conseguem realizar desinvestimentos via IPOs devem continuar optando por operações secundárias, vendendo empresas investidas para outros fundos.

Em 2013, as normas do segmento devem ser consolidadas, o que deve proporcionar maior segurança para operadores, administradores e gestores. O chamado ‘Projeto 600’, grupo formado por representantes do mercado e a CVM, será colocado em audiência pública e, posteriormente, deve ser publicada uma nova resolução ao longo do ano que vem.

Paralelamente, representantes do setor buscam fomentar melhores práticas, com a previsão de punições, e ter mais informações sobre os participantes do mercado, inclusive de fundos constituídos no exterior, os chamados offshore.

São dados como informações cadastrais, foco de investimentos, volume de captação, informações sobre empresas investidas e investimentos e desinvestimentos. Este fluxo financeiro também passará a ser monitorado periodicamente.

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