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Argumento para justificar divergências é “excesso de intervenções do governo” na economia

Economia não é uma ciência exata. Mesmo assim, ano após ano economistas tentam, quase sempre em vão, antecipar a realidade. Nos últimos cinco anos, o único acerto “na mosca” dos economistas ligados a bancos — cujas expectativas são acompanhadas semanalmente pelo boletim Focus, do Banco Central — foi a taxa de juros em 2010.

Mas, neste ano, o quadro foi um pouco pior que a média, com percentual maior de erro. Os economistas ligados ao setor financeiro justificam as divergências entre o esperado no final do ano passado e o acontecido ao longo de 2012 pelo excesso de intervenções do governo e por fatores “inusitados”: PIB crescendo pouco apesar do juros básicos na mínima histórica, inadimplência em alta em um ambiente de geração de emprego e renda, real desvalorizado apesar da balança de pagamentos positiva. “Acho que 2012 foi um ano de quebra de paradigmas”, avalia o economista chefe do banco ABC Brasil, Luiz Otavio Leal.

O último relatório Focus de 2011 mostrava que, na média, os economistas ouvidos esperavam que o dólar chegasse ao final de dezembro deste ano cotado a R$ 1,75 - na última sexta-feira, a moeda norte-americana terminou o pregão a R$ 2,07. Já para a Selic, as projeções indicavam que a taxa básica terminaria o ano em 9,5%, mas a mudança nas regras da caderneta de poupança no decorrer de 2012 permitiram cortes mais robustos. O crescimento do PIB alcançaria 3,3%, e agora ninguém acredita em algo superior a 1% e, por fim, e mais perto da realidade, a previsão para a inflação medida pelo IPCA era de 5,32%.

“Fazer projeção em economias estáveis já é difícil. Imagina em economistas sujeitas à instabilidade, como a nossa”, diz Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). “Baseamos nossas projeções em premissas e basta uma delas não se confirmar para que todo cenário seja alterado.”

Mas o que mais intrigou os economistas em 2012 foram as posições adotadas pela equipe econômica em relação à política cambial. “Você fica refém de uma postura política e não mais do lado técnico”, afirma o economista chefe do BES Investimentos, Jankiel Santos. O BES previa que a moeda norte-americana encostaria em R$ 1,90 em dezembro, levando em conta uma balança de pagamentos positiva e liquidez nos mercados internacionais.

Os entrevistados também acham que a desvalorização do real é ainda majorada pelas recentes intervenções do governo em alguns setores espantarem investidores estrangeiros, reduzindo o fluxo de moeda estrangeira. Leal, do ABC Brasil, também vê essa dificuldade. “As intervenções do governo engessaram o mercado de dólar e tornaram efetivo o impacto sobre o câmbio, com a desvalorização do real”, avalia. Segundo ele, não houve uma medida específica, mas o conjunto delas fez com que o rumo das cotações fosse alterado.

Outro fator que surpreendeu foi o baixo crescimento do PIB, pelo baixo nível de investimentos. Com os estímulos dados pelo governo, a expectativa quase consensual entre economistas era de que em algum momento houvesse uma aceleração, o que não ocorreu e agora é esperada uma expansão da atividade econômica em torno de 1%. “Isso surpreendeu todo mundo. É quase inacreditável que o crescimento não tenha vindo.” Ao final de 2011, o ABC Brasil previa uma expansão do PIB de 3,7%.

Em tempos de quebra de paradigmas, o governo se vê agora obrigado a reverter parte das medidas já adotadas em relação ao câmbio e também há o temor do aumento da inflação, segundo avalia o economista chefe da Gradual Corretora, André Perfeito.

Ele acreditava ao final do ano passado que o PIB brasileiro iria crescer 2,5%, que a Selic chegaria 9% em dezembro e o dólar estaria cotado a R$ 1,90. “Mas o governo decidiu colocar como questão de honra uma cotação acima de R$ 2”, acredita o economista.


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