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Agentes econômicos avaliam que a faixa de R$ 2 a R$ 2,10 para a moeda favorece setor exportador sem prejudicar empresas dependentes de importações ou criar pressões inflacionárias

Reuters

A mão forte do governo Dilma continuará sobre o câmbio nos próximos dois anos, numa estratégia considerada correta --apesar de arriscada-- para garantir um patamar adequado ao crescimento da economia brasileira.

Agentes econômicos e fontes dentro do governo avaliam que a faixa de R$ 2 a R$ 2,10 para a moeda norte-americana está favorecendo o setor exportador brasileiro sem prejudicar as empresas dependentes de importações ou criar pressões inflacionárias. Além disso, a estabilidade do câmbio nesse nível tem o potencial de incentivar planos de investimento.

"O dólar não foi para uma patamar ideal, mas está bem melhor do que antes", avaliou o presidente da Associação dos Exportadores Brasileiros (AEB), José Augusto de Castro.

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De acordo com importante integrante da equipe econômica, o dólar acima de R$ 2 ajuda a impulsionar a economia, ampliando a competitividade da indústria e dos produtos exportados.

"Aos poucos, veremos o efeito disso na exportação, essa é nossa estratégia. Entendo que estamos em patamar mais favorável no câmbio", disse a fonte sob a condição de anonimato.

A balança comercial do país nos dois primeiros anos do governo Dilma reflete a desaceleração da demanda mundial, afetada pela crise internacional, e a dificuldade dos exportadores em manter a competitividade.

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Neste ano, os resultados serão modestos, com o governo projetando queda de 5% nas exportações --na comparação com os US$ 256 bilhões do ano passado--, o primeiro recuo desde 2009.

Nos primeiros 11 meses do ano, o superávit comercial acumulou US$ 17,185 bilhões em novembro, 34% a menos do que em igual período de 2011, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Em todo ano passado, o saldo positivo foi de US$ 29,795 bilhões.

Âncora e previsibilidade

Para o ex-diretor do Banco Central e economista da Confederação Nacional do Comércio Carlos Thadeu de Freitas, a tendência é que aumentos ou cortes de impostos sobre o capital externo funcionem como "âncora" da política cambial na segunda metade deste governo.

Na avaliação de Freitas, apesar de estar na mínima histórica de 7,25% ao ano, a Selic continua sendo uma das mais altas taxas de juros do mundo, capaz de seguir atraindo investimento de fora, tornando necessária essa âncora "para manter o dólar da faixa entre R$ 2,00 e R$ 2,10".

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No setor produtivo também não há dúvidas de que o mercado de câmbio continuará sob forte vigilância das autoridades.

"Esperamos bastante ativismo cambial", disse o gerente executivo de políticas econômicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, para quem é preciso manter o atual patamar do câmbio para criar "um ambiente de previsibilidade".

Essa previsibilidade, argumentou Castelo Branco, deve gerar um impacto positivo nos projetos de investimentos.

O dólar atingiu R$ 2 em meados de maio e permanece acima desse nível desde então. Mas ainda que haja consenso quanto aos R$ 2,00 como nível mínimo defendido pelo governo, as discussões sobre o teto são divergentes.

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"Nós imaginávamos que... (o dólar) poderia subir para R$ 2,20 ou até mesmo um pouco mais", afirmou Castro, da AEB, admitindo, porém, que um dólar mais alto preocupa o governo no que diz respeito à inflação.

Além da inflação, o governo também monitora o peso do endividamento em moeda estrangeira das empresas. Saltos maiores do dólar poderiam acertar em cheio a capacidade de investimento.

"Não queremos um mercado disfuncional, nem inflação", resumiu uma outra fonte da equipe econômica à Reuters.

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Segundo essa fonte, boa parte do governo enxerga o dólar nos patamares de R$ 2,03 a R$ 2,04 como satisfatório, uma vez que eleva a competitividade das exportações e melhora os investimentos sem pressionar a inflação.

Riscos

A equipe econômica terá, no entanto, muito trabalho à frente para manter o dólar em níveis que considere eficientes, e sua própria atuação pode atrapalhar.

"Todo esse excesso de intervencionismo do governo pode ser muito ruim a longo prazo, pois pode prejudicar a recuperação dos investimentos privados", afirmou o consultor de pesquisas econômicas do Banco de Tokyo-Mitsubishi Mauricio Nakahodo, devido ao ambiente de incerteza que ele cria.

Os riscos que a crise global coloca sobre essa estratégia também são muito grandes. Nos últimos anos, os bancos centrais dos países desenvolvidos fizeram massivas injeções de liquidez para tentar alavancar o crescimento de seus mercados.

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Em busca de maior rentabilidade, investidores direcionaram grande parte desse capital para mercados emergentes, o que o governo brasileiro cunhou de "tsunami monetário" para então se defender da "guerra cambial".

Ainda assim, o dólar avançou cerca de 25% ante o real desde que Dilma assumiu a Presidência, em 2011, graças, em boa parte à atuação do governo.

Mas todo esse esforço com o câmbio não é suficiente, na avaliação dos especialistas, para compensar outras deficiências que atrapalham o crescimento do país, como a questão tributária, os gargalos logísticos e os entraves burocráticos.

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