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Se o índice levasse em consideração o peso dos setores no PIB, estaria subindo 33%, e não 5,06%, neste ano

O principal índice acionário do Brasil não é um retrato da atividade econômica do país. Até o dia 11 deste mês, o Ibovespa registrou alta de 5,06%; no entanto, se o cálculo levasse em consideração o peso dos setores no Produto Interno Bruto (PIB) — em vez da negociabilidade, participação no volume financeiro e presença das ações nos pregões —, o índice teria subido 33,09%, no mesmo período, segundo a Austin Rating.

O motivo da distorção é que papéis como Petrobras e Vale, que detém as maiores fatias do Ibovespa, são representantes de segmentos com pequeno destaque no PIB. O setor petroquímico representa 1,06%, enquanto a mineração contribui com apenas 0,52%.

No caso do comércio acontece exatamente o oposto. O setor possui o maior peso no PIB (de 12,49%), mas, no índice, as ações da B2W, Lojas Americanas e Lojas Renner representam apenas 3,01%. Se o Ibovespa levasse em conta a atividade econômica como métrica, os três papéis teriam sido responsáveis por 28,45 pontos percentuais dos 33,09% da carteira teórica. Essa projeção acontece independentemente do que se acostumou chamar de pibinho. Para este ano, as expectativas do mercado para o crescimento econômico são revisadas para baixo semanalmente. Na última pesquisa Focus, a projeção do PIB de 2012 era de 1,03%.

“A bolsa é regida pelas ‘large caps’. Energia, bancos, telecomunicações, siderúrgicas e commodities devem representar algo como 80% do índice, afinal, é onde se encontra maior liquidez. Mas é exatamente essas ações que têm caído, puxando o Ibovespa para baixo”, afirma Luis Stuhlberger, gestor do fundo Verde do Credit Suisse Hedging-Griffo, um dos maiores do mundo. “A conclusão é que o Ibovespa não representa o PIB. Isso cria um enorme problema para as corretoras, porque todo mundo tem que se movimentar atrás de rentabilidade, mas nem sempre são as mais líquidas que apresentam as maiores altas”, disse, em conversa recente com jornalistas.

O executivo diz ainda que as ações que compõem o Novo Mercado — que se encontram no nível de governança corporativa mais avançado — são mais representativas do PIB. “Seria mais saudável para o mercado se esses papéis tivessem mais liquidez, mas isso não acontece da noite para o dia.”

José Olympio Pereira, presidente do banco de investimento Credit Suisse no Brasil, acrescenta que as ações de shopping centers, educação e consumo apresentam altas consideráveis, mas isso não tem se refletido em uma valorização significativa do índice. “O Ibovespa não conta a história da bolsa. A Natura deve estar na máxima histórica, no entanto, isso não tem quase peso”, diz. Até o dia 11, os papéis da companhia subiram quase 67%. Já a B2W apresentou no período alta de 90% — a maior do Ibovespa. Segundo Pereira, essa distorção não acontece apenas no Brasil: o S&P também não é retrato da economia americana.

“Pela lógica, o preço da ação tinha que conter relação com o que o setor representa para economia real. Isso traria para algo mais perto da realidade. Hoje, a composição é quase exclusivamente pela importância financeira dos ativos, e não pelas questões macroeconômicas”, afirma Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

Segundo ranking elaborado pela agência de rating com os resultados financeiros do terceiro trimestre de 282 empresas de capital aberto, a rentabilidade registrada foi de 10% em termos anualizados. Mas isso não se traduziu no Ibovespa, que até o dia 28 de setembro, subiu 4,27%. “Acho que deveria haver uma parcela da participação do PIB na conta do preço da ação”, opina Agostini.

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