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Americano John Mauldin recomenda diversificação para tentar preservar o patrimônio

A volatilidade dos mercados atualmente não passa de uma marolinha perto do tsunami que está prestes a acontecer. A opinião é do renomado especialista americano John Mauldin, autor de diversos best sellers e da newsletter semanal Thoughts from the Frontline. “A questão crítica desta década é o déficit público americano. Até que se chegue a uma solução, os mercados vão subir e descer bastante. Aí, sim, viveremos uma crise econômica”, disse, em entrevista exclusiva ao BRASIL ECONÔMICO, após cumprir uma bateria de compromissos — que incluía dar palestra para os associados do Chartered Financial Analyst (CFA) em São Paulo.

Aos 63 anos, o presidente da Millennium Wave Advisors diz que, neste cenário, a palavra de ordem é diversificação. E, também, que a era dos ganhos gordos, líquidos e certos ficou para trás. “Não é hora de tentar ser melhor do que todo mundo no mercado e ter ganhos maravilhosos. Se o investidor conseguir rentabilidade acima de zero, já será mais do que bom.”

Mauldin acredita que Mitt Romney vai ganhar as eleições nos Estados Unidos. “Não achava isso até assistir ao primeiro debate. Mas isso não significa que ele seja a minha primeira escolha”, esclarece. Para ele, quem quer que seja o presidente vai ter de lidar com a questão do déficit americano, cujo grande vilão é a assistência médica. “Acho que a saída para esse problema é deixar os estados decidirem quanto do orçamento vão direcionar para isso. Uma decisão local”.

Mauldin prevê que os Estados Unidos vão ter de resolver essa questão nos próximos cinco anos. A Suíça e o Canadá já passaram pela mesma situação nos anos 1990. “Foram dois ou três anos muito difíceis para esses países. Eles passaram por uma depressão, mas resolveram. Por isso, nos próximos cinco anos, vamos ver os mercados mais voláteis e os índices de desemprego ainda maiores. Se você acha que estamos em crise, não viu nada ainda do que está por vir.”

O especialista acha que é grande a possibilidade de a Grécia sair da União Europeia. “É o único país que eu vejo fora da Zona do Euro. De qualquer forma, a Europa têm duas alternativas: o desastre de se desfazer a comunidade ou o desastre de manter todos os países juntos. Seja como for, vai ser um desastre e serão gastos múltiplos trilhões de dólares e não poucos trilhões, como tem se falado”, prevê. Para ele, como resultado:o euro vai ter paridade com dólar — preço a ser pago por terem feito a união monetária sem fazer, ao mesmo tempo, união fiscal.

“Acho que os países vão arranjar um jeito de dar calote, seja por meio da inflação, com o Banco Central Europeu comprando papéis da dívida... Isso mostra que os países não podem pegar dinheiro emprestado para sempre. Infelizmente, todos os países desenvolvidos estão passando por isso ao mesmo tempo e daí essa sensação de crise generalizada”.

Nesse cenário, diz, o Brasil, que é um grande exportador, vai ter de redirecionar os seus produtos para países fora da Europa, já que as pessoas vão ter ainda menos dinheiro para gastar. Mas, para realizar seu enorme potencial, será preciso que o país melhore as leis trabalhistas e a infraestrutura, acredita. “Os investidores virão se sentirem que o seu capital é bem-vindo. Não vão, por exemplo, para a Argentina. Eu não tenho dinheiro investido no Brasil, mas não vejo empecilhos para isso.”

Para Mauldin, a discussão se a China vai ter um pouso suave ou mais agressivo “é ridícula”. “O país vai enfrentar uma recessão, sim. Mas não podemos nos esquecer que a China vive um milagre econômico jamais visto. Não será o fim do mundo. Recessão significa que algo estava desbalanceado.”

Nos próximos cinco a sete anos, a palavra chave é diversificação geográfica e de instrumentos. “Meu conselho é investir em tudo: agricultura, fundos long e short, imóveis comerciais, títulos públicos e ouro. Acho que o preço vai cair, mas continuo investindo.”

Para ele, o dólar vai subir, principalmente quando os EUAresolverem o problema do déficit, que é a questão central desta década. “Vamos ter de desligar a economia da tomada, como fazíamos quando o computador travava, e reiniciar.”

Mauldin diz ainda que o banco central americano está perdendo a habilidade de controlar o sistema financeiro, apesar de achar que ainda consegue. “Para mim, só o primeiro quantitative easing (programa de afrouxamento monetário e estímulo ao consumo) foi positivo. O segundo e o terceiro foram uma política ruim.” Na sua opinião, só se pode usar esse instrumento quando o problema for realmente grande. “Mas o Fed (banco central americano) sente que precisa fazer algo, mas deveria ficar sem fazer nada.”

Mauldin não acredita que estejamos vivendo uma guerra cambial, como vem afirmando o ministro, Guido Mantega. “Entendo o que o ministro quer dizer, mas não concordo. Vamos ter essa guerra quando o Japão resolver o déficit dele, no fim desta década.”

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