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País integra lista de economias que irão avaliar proposta de criação de uma agência de risco sem fins lucrativos para fazer frente às americanas Moody´s, Fitch e Standard & Poors

Criticadas duramente desde a crise econômica de 2008 pelas falhas na avaliação de riscos de países e empresas, as três principais agências de rating do mundo - Moody´s, Fitch e Standard & Poors – correm agora o risco de ganhar um concorrente internacional de peso, cuja proposta é oferecer independência e transparência aos investidores.

A proposta de criação da primeira agência independente de rating, elaborada pela Fundação Bertelsmann, da Alemanha, será oficialmente apresentada no Brasil esta semana pela diretora-executiva da organização, Annette Heuser. Batizada de International Non-Profit Credit Rating Agency (Incra), a nova instituição deverá usar não apenas os tradicionais indicadores macroeconômicos, mas também indicadores qualitativos como os investimentos feitos por cada país em educação e inovação.

Para testar esses novos indicadores, a instituição alemã escolheu cinco países entre os quais está o Brasil. “Ao lado de países como Alemanha, Japão, França e Itália, o Brasil estará entre os responsáveis pela avaliação dos indicadores da Incra”, afirmou Annette, que participa esta semana do Global Economic Symposium, evento promovido pela Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro, nos dias 16 e 17.

Em entrevista ao iG , a diretora-executiva da Fundação Bertelsmann explicou os principais diferenciais da Incra e falou ainda sobre as fontes de recursos necessários à fundação da agência.

Diretora-executiva da Fundação Bertelsmann, Annette Heuser defende a criação de uma agência de risco independente
Divulgação
Diretora-executiva da Fundação Bertelsmann, Annette Heuser defende a criação de uma agência de risco independente

iG: Quais são os principais diferenciais de uma agência como a Incra?

Annette Heuser: O objetivo da Incra é estabelecer-se como uma agência sem fins lucrativos que seja capaz de evitar conflitos de interesse na avaliação de riscos soberanos.

Também existe a preocupação com a independência das análises. Para tanto, os fundadores e mantenedores da agência não deverão ter acesso ao trabalho operacional de definição dos ratings. Queremos também criar um conselho do qual façam parte não apenas os fundadaores da Incra, como também representantes da sociedade, como sindicatos e instituições de defesa dos consumidores.

Vale ressaltar ainda que a Incra deverá ser a primeira agência internacional independente focada exclusivamente na análise de risco soberano.

iG: Além dos indicadores macroeconômicos, que outros critérios deverão ser analisados pela Incra?

Annette: Além dos tradicionais indicadores macroeconômicos, a nova agência propõe-se ainda a utilizar indicadores de mercado futuro para as análises de risco soberano. Um exemplo é: "Como esse país lidou com a crise no passado e o que isso mostra ao mercado a respeito da capacidade de lidar com novas crises econômicas no futuro?" Ou "este país está investindo no desenvolvimento sustentável de seu sistema de educação"? "O quão sério é este país no compromisso de investir em pesquisa e desenvolvimento para a inovação"?

Nos últimos anos, temos visto que um número cada vez maior de investidores tem utilizado indicadores qualitativos como estes antes de tomar qualquer tipo de decisão. Sendo assim, nós acreditamos que é preciso integrar essas informações a uma proposta de criação de um sistema sério de avaliação de risco soberano.

iG: A Fundação Bertelsmann vem testando os critérios de análise com investidores há alguns meses. Como estão esses testes?

Annette: Após o lançamento da proposta da Incra no início do segundo trimestre desde ano, que gerou um interesse global pela ideia de criação de uma agência de risco independente, começamos a testar nossos indicadores. Para isso, escolhemos cinco países: Brasil, Japão, Itália, França e Alemanha. Neste momento, estamos simulando um processo de definição de rating, considerando tanto os indicadores quantitativos (macroeconômicos) quanto qualitativos (de mercado futuro) de cada país. Os resultados serão anunciados até o final do ano em uma coletiva de imprensa que acontecerá em Berlim.

iG: Como os governos e as empresas de grande porte têm reagido à proposta de criação da Incra? Os países estão e as companhias estão preparados para esta mudança de paradigma?

Annette: De forma geral, a proposta tem sido muito bem-recebida. Mas, como acontece com todas as novas ideias mais radicais, leva tempo até explicar o conceito da agência e os indicadores que servirão de base para o novo tipo de análise que a Incra se propõe a fazer.
Neste momento, acreditamos que o mais importante é envolver os países do G20 nas discussões para criação da Incra. Não temos dúvidas de que as empresas e o terceiro setor comprarão a ideia da agência independente a partir do momento em que as maiores economia do mundo se comprometerem com o projeto.

iG: Segundo a Fundação Bertelsmann, a criação da Incra deverá consumir investimentos da ordem de US$ 400 milhões. De onde virá esse dinheiro?

Annette: Com base na premissa de que ratings de dívida soberana são um bem público, esperamos que vários setores da sociedade estejam entre os possíveis doadores de recursos.: governos, empresas e ONGs. Nossa avaliação é de que quanto mais diversificada for a origem dos recursos, maior será a capacidade da agência de evitar conflitos de interesse.

iG: A Incra será capaz de reduzir a influência das tradicionais agências americanas no médio prazo?

Annette: Acreditamos que um player internacional como a Incra certamente vai aumentar a competição neste mercado, pressionando as três grandes agências a melhorarem seu desempenho na análise de risco. No médio prazo, essa nova instituição (Incra) certamente ganhará maior espaço.

iG: De que forma um projeto como a da Incra poder ajudar economias emergentes de países como o Brasil e a Índia?

Annette: A Incra não deverá ajudar nenhuma economia emergente em particular. Mas, uma análise de risco conduzida pela agência pode indicar claramente a um país como o Brasil quais são seus pontos fracos e o que pode ser feito para fortalecer sua competitividade. É importante ressaltar que queremos mudar a maneira como são encarados os ratings. A análise de risco não deve ser vista como uma punição, mas sim como o ponto de partida para discutir e implementar melhorias nos países avaliados.


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