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Movimento é resultado da diversificação diante da queda da taxa básica de juro e da necessidade de reforçar o caixa por conta de regras de solvência

A necessidade de reforçar o caixa, a queda na taxa de juro e o aumento do pagamento de indenizações fizeram com que as seguradoras retirassem R$ 9,1 bilhões dos fundos de investimento de janeiro a agosto deste ano, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) divulgados ontem. O resgate foi maior em fundos de renda fixa, em que a captação líquida foi R$ 8,4 bilhões negativos no ano.

“Dá para apostar que está havendo uma constante busca das seguradoras pela maximização da rentabilidade, diante do cenário de queda de juro”, diz Aloísio Lemos, analista do setor financeiro da Ágora Corretora. É por este motivo que quem sofre mais são os fundos de renda fixa, que têm em seu portfólio ativos que rendem só a taxa básica de juros.

Buscar resultados financeiros se torna mais importante quando poucas seguradoras têm conseguido manter um resultado operacional positivo, diante do aumento da concorrência. Dados da consultoria Siscorp mostram que, em julho deste ano, apenas 20 seguradoras entre as 50 maiores do Brasil tiveram lucro com a venda de apólices, enquanto as demais calcaram seu resultado pela aplicação de reservas técnicas. “As seguradoras estão redirecionando seus investimentos”, diz Flávio Faggion, sócio-diretor da Siscorp.

De acordo com Alex Agostini, sócio da Austin Rating, o aumento do pagamento de sinistros também fez com que as seguradoras saíssem de fundos de investimento. Dados da Siscorp revelam que o pagamento de indenizações de seguros aumentaram 16% entre janeiro e julho deste ano, para R$ 16,4 bilhões. “Algumas seguradoras estão preocupadas com isso e querem ser mais conservadoras”, aponta.

Neste caso, uma das apostas das seguradoras é direcionar os recursos dos fundos de investimento para títulos públicos. Na Marítima Seguros, a aplicação em fundos de investimento caiu de 18% em dezembro do ano passado para 13,9% em setembro deste ano, quando as reservas técnicas alcançaram R$ 700 milhões. Por outro lado, os títulos públicos cresceram de 60% para 72% no portfólio.

Segundo o consultor financeiro da Marítima Seguros, Rodrigo Santos de Oliveira, a opção por títulos públicos se dá porque neles não se paga taxa de administração como nos fundos. Além disso, Oliveira conta que a empresa optou por resgatar parte dos recursos para reforçar o caixa. “Temos outros investimentos e projetos que exigiram reforço de caixa”, aponta.

Há ainda a bbusca por liquidez para fazer frente às regras de solvência. “A mudança de regra faz com que as seguradoras tenham de melhorar o patrimônio”, pondera Agostini. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) estima que as empresas que atuam no setor precisarão de um capital total em torno de R$ 765 milhões a mais. O montante será exigido quando a Superintendência de Seguros Privados (Susep) regulamentar o novo requerimento, o que ainda não tem prazo para ser realizado.

Letras financeiras

A possibilidade de aplicar em outras modalidades de investimento também tem feito as seguradoras saírem dos fundos.

O Conselho Monetário Nacional (CMN) permitiu em outubro do ano passado a inclusão de letras financeiras — papéis de dívida de bancos, que possuem prazo superior a dois anos — como garantia das reservas técnicas. Isso significa que as empresas agora podem aplicar um limite de até 80% nestes títulos de renda fixa emitidos pelos bancos para garantir possíveis sinistros.

Quem seguiu por este caminho foi a Porto Seguro, que detinha 11% de seu portfólio em crédito privado no segundo trimestre de 2011 e passou a 19% no mesmo período deste ano.

Além de fatores de mercado, a Anbima afirma que a captação líquida negativa se dá pela reclassificação de algumas seguradoras para outros grupos de investidores, pois estavam enquadradas de forma errada. No entanto, não é possível medir isso, que acontece frequentemente.

Colaborou Natália Flach

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