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Papéis da GSV Capital Corp. que eram vendidos a um valor médio de US$ 15,35, agora são negociados a US$ 8,54

Poucas empresas se aproveitaram do recente e breve boom da internet como a GSV Capital Corp.

Após anunciar em junho de 2011 que compraria uma participação no Facebook, o fundo mútuo fechado cresceu 42% naquele dia. Tirando proveito da euforia, a GSV vendeu US$247 milhões em ações, empregando o dinheiro para aumentar sua carteira em startups promissoras como Groupon e Zynga.

Agora, a GSV está sentindo a melancolia do Facebook.

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Quando fracassou o lançamento de ações da rede social, a GSV sentiu um duro golpe e ainda não se recuperou. Os papéis da GSV, que eram vendidos a um valor médio de US$ 15,35, agora são negociados a US$ 8,54.

"Creio que, no momento do crescimento, provavelmente nos beneficiamos com nossa participação no Facebook além do que merecíamos", afirmou Michael T. Moe, o principal executivo da GSV. "E, certamente, recebemos uma punição maior do que a devida na queda."

Michael Moe, prinicpal executivo da GSV Capital Corp.:
Peter DaSilva/The New York Times
Michael Moe, prinicpal executivo da GSV Capital Corp.: "recebemos uma punição maior que a devida"

A GSV (abreviatura de Global Silicon Valley) é o maior fundo mútuo fechado que oferece aos investidores comuns a chance de possuir participações em empresas privadas, ainda que indiretamente. Fundos fechados como o GSV geralmente vendem um determinado número de ações, e seus gestores investem o dinheiro apurado. Em essência, tais portfólios operam como fundos de capital de risco em miniatura, comprando participações em startups e apostando que estas darão lucro se as empresas forem vendidas ou lançarem ações.

"Acho que a GSV foi realmente inovadora ao criar uma espécie de fundo de capital de risco negociado abertamente", disse Jason Jones, fundador da HighStep Capital, que também investe em companhias privadas.

Contudo, as ações dos fundos fechados são negociadas conforme a demanda do investidor – e elas podem subir ou descer de forma significativa em relação ao valor dos portfólios atrelados a elas. A categoria como um todo foi atingida pelos problemas do Facebook, com o GSV vendendo com 38% de desconto sobre o chamado valor patrimonial líquido.

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Moe, de 49 anos, já havia vivenciado o sobe e desce maluco das ações populares.

Jogador reserva do time de futebol americano da Universidade de Minnesota, ele começou como corretor de valores na Dain Bosworth, de Minneapolis, onde escrevia um boletim informativo sobre o mercado acionário chamado "Mike Moe's Market Minutes". Depois de conhecer o presidente executivo da Starbucks, Howard Schultz, durante visita a Seattle, em 1992, ele começou a cobrir a cadeia de cafés após sua oferta de ações.

"Saí com a impressão de haver conhecido o próximo Ray Kroc", Moe escreveu num livro, de 2006, "Finding the Next Starbucks" (encontrando a próxima Starbucks, em tradução literal), em referência ao executivo que construiu o império do McDonald's.

Depois de passar por outras duas corretoras, Moe se tornou diretor de pesquisa de crescimento global da Merrill Lynch, em São Francisco, em 1998. Nela, ele comandou um grupo de 12 analistas num momento em que meros modelos de negócios "lançavam ações com avaliações de bilhões de dólares".

Logo após a explosão da bolha da internet, ele fundou uma butique bancária agora chamada ThinkEquity. Na época, ele esperava que o mercado de lançamento de ações se livrasse de suas fraquezas, recuperando-se em alguns anos. Em vez disso, entrou numa recessão que durou uma década.

"Escolher a hora apropriada do mercado não é o meu forte", disse Moe. Em 2007, ele vendeu a ThinkEquity.

No ano seguinte, Moe abriu uma nova empresa para fornecer pesquisa sobre empresas privadas, a NeXt Up Research. Mais tarde, o executivo passou a atuar com gestão de ativos, vindo a trocar o nome para GSV. Dois meses após criar seu próprio fundo, ele comprou as ações no Facebook por meio do SecondMarket, um mercado para ações privadas.

Rapidamente, o GSV levantou fundos adicionais de investidores e colocou o dinheiro em startups de educação, computação na nuvem, comércio via internet, mídia social e tecnologia limpa. Em conjunto com Groupon e Zynga, ele comprou participações no Twitter, Gilt Groupe e Spotify Technology. Segundo Moe, o objetivo é encontrar "as empresas de crescimento mais rápido no mundo".

Porém, Moe pagou um preço alto, pegando várias startups por valores elevados no mercado privado. Ele comprou o Facebook a US$29,92 por ação; agora, as ações são negociadas a US$19,10. Ele comprou o Groupon em agosto de 2011 por US$26,61 a ação, bem acima do lançamento do papel, a US$20. Atualmente, elas são vendidas a US$ 4,31.

Max Wolff, que acompanha ações antes de seu lançamento na GreenCrest Capital Management, afirmou que, por vezes, a GSV comprou "nomes populares para agradar investidores".

"Trata-se de um espaço sensível ao sentimento, as ações não são negociadas com base nos fundamentos", disse Wolff. "Se existir uma perda de fé, elas caem sem contar com rede de proteção."

Empresas similares à GSV também enfrentaram problemas. A Firsthand Technology Value Fund, com participações no Facebook e empresas de energia solar como SolarCity e Intevac, caiu 65% em relação ao seu ponto mais alto, em abril.

"Nós pagamos demais" pelo Facebook, disse o CEO da Firsthand, Kevin Landis.

Dois outros fundos com estratégias similares evitaram o grosso da dor. A Harris & Harris Group detém cerca de 30 empresas de tecnologia em escala micro. A Keating Capital, com US$ 75 milhões em ativos, possui fatias de 20 empresas financiadas por fundos de risco. Porém, nem Harris nem Keating investem em Facebook, Groupon ou Zynga, assim as ações dessas empresas não caíram abruptamente.

A GSV agora está enfrentando as consequências.

Durante conferência telefônica, em agosto, Moe foi confrontado por um investidor segundo o qual "as últimas posições públicas foram um desastre", de acordo com a transcrição do Seeking Alpha, site noticioso do mercado acionário.

Embora Moe exprimisse desapontamento similar, ele enfatizou os fundamentos das empresas. Segundo Moe, em conjunto, sua receita estava crescendo acima dos 100%.

"Estamos neste meio há algum tempo e, de tempos em tempos, vamos errar", Moe declarou na teleconferência. "Porém, estamos concentrados na média de acertos."

Na mesma conferência, o executivo permaneceu entusiasmado, se não exagerado, em relação às perspectivas do grupo. Diversas das 40 participações da GSV são em "empresas revolucionárias com um potencial de crescimento gigantesco", afirmou aos investidores.

A maior delas, o Twitter, "continua sendo um foguete em termos de crescimento e, nós cremos, em criação de valor". A Palantir Technologies, de análise de dados, ajuda a CIA a "rastrear terroristas e bandidos no mundo inteiro". A Violin Memory, fabricante de memória flash, "está passando por um supercrescimento", ele afirmou por e-mail.

Entretanto, Moe se mostrou mais calado em entrevistas recentes. Embora ainda diga acreditar em dar acesso a investidores públicos a ações de empresas privadas, ele reconhece haver uma nuvem pairando sobre a GSV.

"Infelizmente, temos um segmento da mídia social que ficou maculado. Entendo muito bem por que nossa ação está neste valor. Durante uns tempos viveremos uma situação de avaliações."

Admitindo alguns arrependimentos, Moe disse estar mais revoltado por haver pago em demasia pelo Groupon. "Pois é, eu estraguei o Groupon."

Ele também afirmou não haver antecipado o que chamou de "desaceleração" no índice de crescimento do Facebook e que era um "pouco irritante" o fato de alguns dos primeiros investidores terem podido sair antes do que outros. Muitas vezes, a GSV precisa manter suas ações até seis meses depois do lançamento dos papéis.

Contudo, Moe afirmou haver um lado positivo na queda das ações antes do lançamento. Desde a oferta pública do Facebook, ele conseguiu colocar dinheiro para trabalhar "com preços melhores". Recentemente, ele comprou ações da Spotify, avaliado em cerca de US$ 3 bilhões, quase 25% abaixo da meta em sua última rodada de financiamento.

Para Moe, o mercado de lançamento de ações também está dando sinais de vida, com estreias fortes de Palo Alto Networks e Kayak Software. E ele mantém a fé no Facebook.

Na visão de Moe, independentemente do preço atual de seus papéis, ao menos é uma "empresa real" com receita e lucros.

"Ela não está sendo valorizada a partir de encaradas e pó de pirlimpimpim."

(Por Randall Smith)