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Dólar à vista iniciou o dia com valorização de 0,10%, a R$ 2,043, depois de sair da casa de R$ 2,030 na última sexta-feira para os R$ 2,041 ontem

Agência Estado

A menor disposição ao risco no exterior tende a manter a trajetória de alta do dólar ante o real, verificada nas duas últimas sessões, mas o fôlego pode ser limitado, abrindo espaço para ajustes ao longo do dia.

Além de certa resistência percebida pelo mercado cambial doméstico em ultrapassar a marca de R$ 2,05, a reabertura da temporada de captações externas pela Vale na terça-feira (4), desenha uma perspectiva de entrada de fluxo num horizonte próximo, trazendo certa pressão para baixo na moeda norte-americana.

Ao mesmo tempo, a vigilância do Banco Central e do governo brasileiro em manter a taxa de câmbio em um nível confortável inibe um movimento mais consistente nos negócios.

Por volta das 9h15, o contrato futuro para outubro do dólar estava estável, a R$ 2,051, após ensaiar ganhos na abertura e subir 0,10%, a R$ 2,053, na máxima. No mercado de balcão, o dólar à vista iniciou o dia com valorização de 0,10%, a R$ 2,043, depois de sair da casa de R$ 2,030 na última sexta-feira para os R$ 2,041 ontem. Pouco minutos depois, porém, o dólar à vista invertia a direção e caía 0,10%, a R$ 2,039, na mínima.

Na avaliação do gerente de operações do banco Indusval & Partner's, Alberto Félix de Oliveira Neto, o dólar pode até continuar no movimento ascendente dos últimos dias, porém com oscilações entre margens estreitas. "Há uma pressão forte para passar a marca de R$ 2,05 e, a qualquer sinalização, entra um pouco de compra", avalia.

Essa forte resistência entre os agentes financeiros foi criada na semana passada, após uma fonte próxima ao BC afirmar à Agência Estado que as cotações que rondavam os R$ 2,05 poderiam frustrar a expectativa do mercado com relação à não rolagem dos contratos de swap cambial, às vésperas do vencimento de cerca de US$ 4 bilhões.

E o "olho vivo" do governo ganhou um novo indício ontem, com o anúncio da elevação do Imposto de Importação (II) para 100 tipos de produtos. Na lista, estão incluídas mercadorias de setores como bens de capital, siderurgia, petroquímica e medicamentos.

As alíquotas de importação, que variavam de 12% a 18%, passaram para 25% e entram em vigor em 26 de setembro. Até outubro, a lista pode ser ampliada para 200 produtos. Com a medida, o governo quer proteger a indústria nacional da concorrência dos importados, com exceção dos sócios do Mercosul.

Apesar de a medida tender a ter efeitos nocivos à inflação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que o governo vai monitorar o mercado para evitar que as empresas reajustem os preços para aproveitar a alta da tarifa de produtos importados, diante da menor concorrência. Caso contrário, avisou Mantega, as alíquotas serão derrubadas imediatamente.

Nesta quarta-feira, o IBGE informou que a inflação medida pelo IPCA fechou o mês de agosto com alta de 0,41%, desacelerando-se levemente do avanço de 0,43% em julho. O resultado ficou levemente acima da mediana projetada, de 0,40%, após levantamento do AE Projeções.

Além disso, o incentivo do governo, criticado por protecionismo conforme avaliam fontes consultadas pela AE, pode exigir também um menor estímulo monetário do Banco Central. A intenção do Comitê de Política Monetária (Copom) de dar continuidade ao atual ciclo de cortes da taxa básica de juros (Selic), que completou um ano no mês passado, pode ser aferida na ata da reunião da semana passada, que será divulgada na quinta-feira (6).

Para Oliveira Neto, do banco Indusval, a elevação do imposto sobre produtos importados é mais uma sinalização de que o governo não quer o real nem muito apreciado nem muito depreciado. Por isso, avalia ele, o piso de R$ 2,00 deve continuar sendo respeitado, a despeito do fluxo financeiro mais favorável com a abertura da temporada de captações brasileiras no segundo semestre.

Na terça-feira (4), a Vale fez a colocação de US$ 1,5 bilhão em bônus. A mineradora aproveitou um momento inédito no mercado de dívidas, que vivencia custos historicamente baixos, e acabou sendo a primeira empresa nacional a captar sem pagar prêmio ao investidor sobre os preços dos papéis negociados no mercado secundário. Os títulos da Vale, que têm vencimento em setembro de 2042, terão cupom de 5,625% ao ano, pagos semestralmente, resultado em um rendimento de 5,681% ao ano. O spread ficou em 300 pontos-base sobre os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

De acordo com fontes consultadas pela AE, a emissão da Vale deve ser seguida por outras empresas que frequentam constantemente esse mercado, assim como os bancos. Também se espera que a União integre essa lista de potenciais emissores, com uma captação em dólares.

No exterior, o dólar norte-americano ganhava terreno ante os dólares australiano, canadense e neozelandês, além da rupia indiana. O euro, por sua vez, subia a US$ 1,2578, de US$ 1,2568 no fim da tarde de terça-feira, diante do maior apoio de líderes europeus à entrada da autoridade monetária da zona do euro no mercado secundário de bônus soberanos. A expectativa ainda gira em torno da reunião do Banco Central Europeu (BCE), na quinta-feira (6).