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Bradesco prepara-se para lançar o terceiro de uma família de fundos com carência de até 90 dias; BNP aposta na modalidade “retorno absoluto”, mais arriscada; carteiras de recebíveis também atraem

A curva constante de queda dos juros tem colocado os gestores de fundos e investidores em uma situação poucas vezes vista no Brasil. Enquanto os primeiros buscam a equação perfeita para alocação dos recursos, os outros vêm cada vez menos alternativa a não ser aceitar riscos maiores e prazos maiores nas aplicações, se quiserem obter rentabilidade atraente.

Para William Eid, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (GVCef), o binômio mais risco e menos liquidez é a tendência no setor de fundos para os próximos anos. “Não é preciso que todos os fundos ofereçam liquidez diária, como hoje. Os investidores tendem a reservar apenas uma porção da carteira para emergências e vão buscar produtos mais inteligentes.”

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Levantamento do GVCef aponta algumas características que tendem a ser mais frequentes no mercado. Uma delas é o crescimento de produtos com carência para resgates cada vez maiores. O investidor informa com antecedência sobre sua saída do fundo e, dessa forma, o gestor tem como vender ativos menos líquidos. Essa carência pode variar de 20 a 365 dias.

“Principalmente butiques devem oferecer produtos com esta característica. Grandes bancos ainda não têm tanta necessidade, mas vão sentir”, diz Eid. Em 2002, alguns bancos chegaram oferecer a carência, mas tiveram que rever a estratégia. Agora, ela volta com mais força.

Um exemplo é o Bradesco. Entre as estratégias para inserir ativos com menor liquidez na carteira, criou, no ano passado, os fundos de crédito privado Rating 30 e 90, com, respectivamente, carência de 30 e 90 dias.

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“Os fundos estão respondendo bem e são compostos por ativos de empresas com grau de investimento. Hoje, o patrimônio dos dois fundos já soma quase R$ 2 bilhões”, diz. A gestora prepara um terceiro produto do tipo, com ativos de maior risco.

Fechados

Outro produto que permite investir em títulos com menor liquidez são os fundos fechados, onde, na hora da venda de cotas, o repasse para outros investidores evita resgates intermediários.

Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), que têm duas classes de cotas, também tendem a ser uma opção, pois uma parcela não pode ser negociada antes do encerramento dos fundos.

A estratégia, além de se adequar a uma demanda crescente, também vai de encontro à necessidade das gestoras de reduzirem o custo de suas operações para conseguirem oferecer uma taxa de administração mais competitiva.

“Permitir resgate a qualquer hora e se desfazer de algumas estratégias significa custos para o gestor”, diz Raphael Santoro, consultor da área de investimentos da Mercer. “Estratégias diferentes e especializadas pedem maior carência.”

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A desindexação do mercado ao DI também deve se tornar uma realidade, segundo o GVCef. Muitos fundos passam a ser indexados a índices de inflação ou de mercado, como os IMAs, da Anbima.

Nos próximos meses,a asset do Bradesco deve criar um fundo destinado ao setor de infraestrutura, com prazo mais longo, e amplia produtos indexados a índices de mercado, mirando carteiras com esta característica. Mesmo em fundos de curto prazo, a asset já ampliou a duração dos papéis.

“O prazo médio é de um ano. O produto tem renda fixa, mas não é DI. É uma combinação de papéis do governo”, diz Levy.

O BNP Paribas aposta em produtos com retorno absoluto, principalmente em carteiras com prazos mais longos. É o caso do fundo Action. Lançado há um ano, já captou R$ 80 milhões. A rentabilidade no período foi de 10%.

A liquidez não é, por enquanto, foco da gestora. “Mantemos a liquidez, acompanhando o desenvolvimento das negociações no mercado secundário”, diz Rafael Bardella, responsável pelo desenvolvimento de negócios com private banking e offshore do banco. O importante, diz Santoro, é não abrir mão da saída do investimento. Para ele, o peso da gestão vai ficar mais evidente a partir de agora.

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