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Executivo admite que sair de companhias que lidam com bilhões para um órgão com restrições orçamentárias não será fácil, mas diz que vai "dividir experiências"

Agência Estado

Leonardo Pereira, novo presidente da CVM
AE/SERGIO NEVES
Leonardo Pereira, novo presidente da CVM

A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado sacramentou nesta quarta-feira em sabatina o economista Leonardo Pereira como o novo xerife do mercado de capitais brasileiro . Ao assumir o cargo de presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Pereira fará também sua estreia em um órgão público. O executivo, de 54 anos, tem uma carreira de décadas no setor privado, com um currículo que inclui passagens por Citibank, Globopar, Net Serviços e, até pouco tempo, a aérea Gol.

Em conversa com a jornalista Mariana Durão, da Agência Estado, antes de passar pela sabatina, ele admitiu que migrar de companhias conhecidas por lidar com bilhões - e remunerar seus administradores à altura - para um órgão com restrições orçamentárias não será fácil, mas diz que vai "aprender muito e dividir experiências".

Essas experiências incluem a vanguarda na adoção de políticas de governança - sob seu comando, a Net foi uma das primeiras empresas a aderir ao Nível 2 da Bolsa -, estruturação de operações financeiras e vivência internacional, já que viveu nove anos em países da Europa, EUA, Ásia e América Latina. Pereira mostra cautela ao falar de seus planos para a CVM, onde ainda não teve uma reunião formal com o colegiado.

Em linhas gerais, acredita que a curva descendente da taxa Selic trará oportunidades ao mercado de capitais no País, pela necessidade de desenvolver a renda fixa e aumentar o acesso de pequenos e médios investidores à Bolsa.

Pereira não esconde que levará a vivência "do outro lado do balcão" para a autarquia - o que inclui ter feito um termo de compromisso de R$ 200 mil para extinguir um processo. Mas é reticente quando indagado se pensa em simplificar exigências. Conhecido no mercado como Leo, o executivo não parece preocupado com a polêmica gerada por sua indicação, que surpreendeu analistas financeiros ao fugir do padrão da CVM nos últimos anos: advogados ou ex-profissionais da Bolsa.

"Gosto de desafios, sou calmo e perseverante. É o perfil de quem sobe montanha e corre maratona. Ter resiliência e andar sempre para frente", disse. O executivo destaca que imprimirá um estilo mais informal à CVM. Carioca de sotaque carregado, ele não disfarça a ansiedade em voltar para o Rio de Janeiro - como executivo da Gol sua base era São Paulo - onde mora a família. Durante a conversa informal citou o Leblon, a praia e falou da saudade de restaurantes tradicionais como o Bar Luiz e a centenária confeitaria Colombo.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Agência Estado: Como e quando surgiu o convite para a CVM?

Leonardo Pereira: Quando começou o movimento de criar o novo Mercado, em 2000, quem estava à frente era a Maria Helena (Santana, ex-presidente da CVM e ex-executiva da Bolsa que indicou Pereira ao cargo). Ela ia entrevistar as empresas e quando foi à Net, onde eu era CFO, me propus a ajudar. A Net foi uma das primeiras empresas a ir para o Nível II da Bovespa, porque acreditei. Passei a fazer parte de painéis e escrevi artigos sempre com o lado prático da governança. Fui conselheiro da MDias Branco porque acreditava que era importante como executivo também passar por um conselho. Há alguns meses Maria Helena me procurou. Me disse que talvez a CVM precisasse de alguém que conhecesse a realidade das empresas.

AE: Após um boom de IPOs em 2007 o mercado brasileiro esfriou. Por outro lado, o sr. assume em um cenário de juros baixos nunca visto. Como vê este momento?

Pereira: É um momento de ajuste. Todo mundo tem que aproveitar (essa parada no mercado) para se preparar, porque é cíclico. A queda dos juros vai criar oportunidades. Temos um cenário de juros menores, Brasil crescendo e com mais visibilidade. Se o órgão regulador não tiver pessoas preparadas para fazer esse acompanhamento tem um divórcio danado e você não consegue surfar na onda.

AE: Pensa em criar mecanismos para ajudar a deslanchar "lendas" do mercado de capitais, como o Bovespa Mais e o mercado secundário de debêntures?

Pereira: O mercado precisa disso. Acredito em mudanças, mas para elas acontecerem você tem que ser persistente. Não existe milagre. Eu acredito que o Brasil vai continuar crescendo e com juros mais baixos vai ficar mais atraente. Vai passar a ser mais normal ir ao mercado de capitais. Não só a regulação, mas todo mundo terá que mudar de forma coordenada. As instituições financeiras, por exemplo, não podem fazer apenas "big IPOs".

AE: O acesso de empresas de pequeno e médio porte ao mercado de capitais é uma preocupação? É preciso reduzir as exigências regulatórias para esse segmento?

Pereira: O JOBS Act (plano lançado pelos EUA após a crise para estimular startups) americano fala disso. Você tem que ajustar as exigências ao tamanho da empresa. A discussão a ser feita é: para as empresas crescerem do que elas realmente precisam? O que é imprescindível? Muitas vezes elas acham que é muito caro (o que a regulação exige), mas vão ter que gastar de qualquer maneira. É uma exigência do próprio mercado.

AE: O Brasil vai bem em termos de governança corporativa?

Pereira: Houve muitos avanços. Voltei para cá em 1995 depois de morar por nove anos fora. Me lembro das discussões que tínhamos na Globopar para começar a dar informação, das primeiras discussões na Net sobre conselheiro independente. Era uma coisa. Hoje as companhias lidam com isso de outra forma. Ninguém mais fala em ir para a Bolsa e não ir para o Novo Mercado. Mas o mercado de capitais brasileiro ainda tem muito para evoluir. Tem que se internacionalizar, o que já está ocorrendo. Há alguns anos atrás os grandes investidores nem vinham ao Brasil. Antes a CVM era um mistério. Me lembro dos primeiros IPOs, nos anos 80. Ninguém respeitava nada, não tinha período de silêncio. Insider information era rádio corredor.

AE: Sua trajetória foi traçada em grupos privados como Citibank, Globo e Gol. Deve ser difícil migrar para um órgão público, com restrições orçamentárias...

Pereira:  Concordo. Mas acho super importante aprender como o setor público funciona. Vou aprender muito e dividir também minhas experiências. Alguma coisa que eu fiz que deve ser interessante (risos). Já tinha passado pela minha cabeça ter uma experiência no setor público, mas nunca na CVM. No setor privado você tem sempre oportunidades, no público a chance pode aparecer uma vez só. Pensei nisso quando Maria Helena me chamou, há cerca de seis meses. Se você quer deixar um legado, contribuir, é a chance. É por isso que eu vou.

AE: O fato do sr. ter firmado um termo de compromisso para encerrar um processo na CVM rendeu críticas...

Pereira:  Tenho a experiência até de sofrer também (risos). Às vezes você tem que dar tanta informação que é impossível... Você escorrega. Estávamos em período de silêncio e, na Gol, por boa prática de governança, fala mesmo em período de silêncio desde que não discuta o resultado. Quando o preço do petróleo descolou no ano passado falei: "vamos rever o guidance agora". Um minoritário foi à CVM reclamar. A CVM reconheceu que a empresa deu toda a informação e todo mundo perdeu dinheiro junto. Mas aí viu que em vez de fato relevante a gente publicou comunicado ao mercado. Foi questão de forma...

AE: Com sua experiência "do outro lado do balcão", o sr. avalia que é preciso simplificar exigências?

Pereira:  Não sei se é simplificar. As empresas têm sempre que estudar para tirar nota dez na prova, mas vão tirar 9,5 às vezes. E a CVM tem o papel de chamar a atenção. A CVM fez o papel dela e eu fiz o meu de dizer: eu não fiz (o fato relevante) e estou propondo um termo de compromisso. Porque não lesei ninguém... Ninguém deixou de ter informação. Ao contrário, fui proativo.

AE: Como sr. vê as punições e o instrumento do termo de compromisso?

Pereira:  Acho que em geral é bem utilizado. Por que optei pelo termo? Porque lá atrás na Net, com outro executivo, vi uma experiência em assembleia de debenturista em que o processo ficou rolando quase três anos. O que se gasta de advogado, de energia, não se justifica. Em geral é um bom mecanismo, mas tanto do lado das empresas quanto da CVM tem que ter diálogo.

AE: E em casos de insider?

Pereira: Aí é diferente. É caso de substância. Tem que ser um termo diferente.

AE: Como definiria seu perfil de gestão?

Pereira:  Sou alpinista e a regra para subir montanha é ser cauteloso mas ir sempre para frente. Você não pode voltar. Sou maratonista. Gosto de desafios, sou calmo e perseverante. É o perfil de quem sobe montanha e corre maratona. Ter resiliência e andar sempre para frente, devagar. Quando começo a correr a meia maratona todo mundo passa na minha frente, mas é porque a minha maior preocupação é acabar a corrida.

AE: O ministro (da Fazenda) Guido Mantega fez alguma recomendação especial ao novo xerife do mercado?

Pereira:  Não. Fiquei muito bem impressionado porque ele tem uma visão muito clara da independência da CVM. Muitas vezes na história da CVM o colegiado não estava completo e agora está. Vi a preocupação do ministro de ter um colegiado balanceado e achei muito positivo. Qualquer colegiado por sua definição tem que ter ideias diferentes. Foi uma conversa geral e fiquei muito confortável sobre como ele enxerga a CVM, o mercado de capitais brasileiro e a necessidade dele continuar se desenvolvendo junto com o crescimento do País. (Mariana Durão)

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