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Negros têm espaço crescente na sociedade, mas a manutenção dos níveis de desemprego por volta de 25% é ameaça a estabilidade social do país

Mineiro escuta discursos de autoridades próximo à mina de platina da Lonmin, onde 34 mineiros em greve foram mortos pela polícia
AP
Mineiro escuta discursos de autoridades próximo à mina de platina da Lonmin, onde 34 mineiros em greve foram mortos pela polícia

A África do Sul é um país que padece em aparente tranquilidade. Do alto e em áreas restritas, cidades como Johanesburgo parecem tão ricas e seguras quanto algumas metrópoles europeias. Da janela do avião, na aproximação para aterrissagem no aeroporto de OR Tambo, é possível identificar um mosaico de condomínios que se estende até o horizonte, onde casas de várias águas, com quintais amplos e piscinas, se intercalam em ruas arborizadas. Shoppings centers oferecem grifes de todas as partes do mundo. E tudo é interligado por largas avenidas.

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É só eventualmente, em episódios como a morte de 34 mineiros pela polícia , na mina de platina da Lonmin, em Marikana, que a ponta mais visível da encruzilhada que vive a África do Sul atravessa essa redoma. Encaminhada a questão racial, o país precisa encontrar um modelo de desenvolvimento que reduza rapidamente o desemprego e o abismo que separa ricos de pobres. Dois anos após a Copa do Mundo e a conclusão de projetos bilionários, justificados pelos ganhos econômicos que deveriam gerar no longo prazo, os sul-africanos estão diante dos mesmos problemas de antes. Mas em clima político mais instável.

Cidade do Cabo, na África do Sul: ruas de áreas turísticas patrulhadas por seguranças privados.
Getty Images
Cidade do Cabo, na África do Sul: ruas de áreas turísticas patrulhadas por seguranças privados.

O modelo de desenvolvimento econômico atual tem funcionado pouco para reduzir a pressão social. Encravada no extremo sul do continente e afastada milhares de quilômetros de qualquer um dos grandes mercados mundiais, após o fim dos embargos econômicos impostos nos tempos do apartheid a África do Sul virou uma economia basicamente exportadora de commodities minerais e agrícolas, como ouro, platina e açúcar.

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Acordos de livre comércio com os Estados Unidos e a Europa também ajudaram o país a atrair grandes montadoras, que continuam a chegar e devem produzir este ano no país cerca de 600 mil automóveis. Tudo somado, foi suficiente para garantir crescimento médio de quase 4% ao ano do PIB – que quase triplicou no período, para US$ 363,9 bilhões – e passaporte para os Brics (sigla que originalmente identificava o grupo dos principais países emergentes, formado por Brasil, Rússia, Índia e China). Mas não para reduzir a pressão social deixada pelo regime segregacionista em um país onde convivem mais de uma dezena de etnias.

A África do Sul tem hoje um déficit de milhões de empregos e o desaquecimento da economia mundial traz más perspectivas para o futuro, como o governo admite. “O preço das commodities é muito volátil e não permite um crescimento sustentável”, diz Lionel October, diretor-geral do departamento de comércio e indústria do governo.

Johanesburgo: iniciativa estatal de revitalização do centro da cidade, ao fundo, ainda não transformou a área em ponto de referência turístico.
Dubes Sônego
Johanesburgo: iniciativa estatal de revitalização do centro da cidade, ao fundo, ainda não transformou a área em ponto de referência turístico.

O índice de desemprego se encontra na casa dos 25% da população. Em algumas áreas onde a concentração de pobres e negros é maior, como em Soweto, centro nevrálgico da resistência ao apartheid, o percentual chega a 48%. Pelo critério de desigualdade de renda (coeficiente Gini), o país só perde para a Namíbia, em um ranking com 136 países no qual o Brasil é o 16º.

Apesar de o desemprego ser mais evidente entre a população negra, a redução da desigualdade social se tornou uma questão que vai além da histórica divisão racial. Hoje, milhares vivem em casas confortáveis, frequentam as mesmas escolas que os brancos e desfilam sacolas em shoppings das grandes cidades. Em cargos governamentais são maioria em diversos escalões. Mas faltam empregos para milhares de outros.

Infraestrutura da Copa

Há poucos anos, o anúncio de grandes projetos de infraestrutura para a Copa e o evento em si geraram expectativa de mudanças. Além dos postos de trabalho imediatos, a nova infraestrutura deveria fortalecer a economia no longo prazo. Estradas foram de fato alargadas; há mais opções de transporte coletivo, como corredores de ônibus e trens urbanos, e os aeroportos agora são eficientes e têm capacidade de folga.

O bairro de Soweto, em Johanesburgo, abriga cerca de 1,8 milhões dos 4,8 milhões de habitantes da cidade e tem 50% de desempregados.
Dubes Sônego
O bairro de Soweto, em Johanesburgo, abriga cerca de 1,8 milhões dos 4,8 milhões de habitantes da cidade e tem 50% de desempregados.

Mas nem tudo deu tão certo. Os estádios, que custaram bilhões e têm alto custo de manutenção, estão subutilizados e o turismo não deslanchou como poderia, principalmente por motivos externos. Segundo dados do governo, depois de crescer 15,1% no ano da Copa, em 2011 a atividade desacelerou e teve alta de 3%, para 8,3 milhões de visitantes estrangeiros. “Neste ano, o movimento está voltando. Mas o ano passado foi muito ruim”, afirma Alexei Harris, há nove anos guia de turismo na Cidade do Cabo. “Em boa parte por causa da crise econômica na Europa”.

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A violência também atrapalha. De perto, os condomínios têm muros altos, reforçados por arames farpados, e muitas ruas precisam ser patrulhadas por seguranças privados. Na Long Street, centro da vida noturna na cidade do Cabo, é possível identificá-los pelos coletes fosforescentes, com a inscrição “Public Safety”. Alguns albergues e hotéis têm os próprios seguranças 24horas na porta. Em Johanesburgo, apesar dos esforços de revitalização da área central iniciados pelo governo local, poucos se sentem confortáveis de sugerir a um turista que visite a área sozinho.

Quem vive no país admite o problema, mas costuma minimizá-lo alegando que é uma questão de saber por onde andar, “como em qualquer lugar”. Mas as estatísticas sugerem precaução. A África do Sul tem o maior índice de mortes por habitantes do mundo. São 17,3 para cada mil.

Durban, na costa leste do país, banhada pelo Oceano Índico, é sede das principais indústrias automobilísticas no país e do segundo maior porto da África.
Dubes Sônego
Durban, na costa leste do país, banhada pelo Oceano Índico, é sede das principais indústrias automobilísticas no país e do segundo maior porto da África.

A fama faz com que turistas de primeira viagem, assim como acontece com o Brasil, se surpreendam quando não se sentem ameaçados. “Foi muito mais tranquilo do que imaginávamos”, afirma a espanhola Ane Goitia, que na terça-feira encerrou uma viagem de quase um mês por várias cidades do país, na companhia da amiga Eider Goiburce.

A Copa também não resolveu a precária infraestrutura de comunicação do país, deficiente mesmo se comparada à do Brasil. Acessar a internet em hotéis de luxo por uma hora pode custar na moeda local o equivalente a R$ 30. E o preço salgado não garante velocidade nem estabilidade. Abrir um vídeo no Youtube ou baixar arquivos são tarefas praticamente impossíveis. Mesmo o acesso a sites de e-mail exige paciência.

Clima instável

O governo sul-africano já desenhou um plano econômico para tentar solucionar a questão da desigualdade social. Seu objetivo geral é acabar com a pobreza até 2030. O projeto inclui incentivos fiscais a indústrias como a têxtil e de confecção, a automotiva, a de cinema e a de alimentos. E a ideia é atrair também investimento de fora para parcerias público privadas (PPPs) em infraestrutura no país. “Os planos estão prontos, é uma questão agora de incluir a iniciativa privada neles”, afirma Zamo Guala, CEO da agência de atração de investimentos de KwalaZulu-Natal, a província mais industrializada e rica do país, na costa do Oceano Índico.

Favelas na Cidade do Cabo.
Dubes Sônego
Favelas na Cidade do Cabo.

O clima político para a implantação do projeto, porém, é de crescente instabilidade, como sugere o episódio da Lonmin. O massacre teve como pano de fundo a disputa entre sindicatos do país por associados. De um lado, o maior sindicato mineiro do país, a tradicional União Nacional dos Mineiros (NUM, na sigla em inglês), alinhado ao governo. De outro, a combativa e ascendente Associação dos Mineiros e Trabalhadores da Construção (AMCU, na sigla em inglês), criado por dissidentes do NUM insatisfeitos com o que consideram o arrefecimento na defesa dos direitos dos trabalhadores, e que vem ganhando rapidamente espaço.

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Na edição de domingo, dia 18, dos jornais sul-africanos, a culpa sobre a situação em Lonmin ter saído do controle foi atribuída à falta de pulso do governo. Jacob Zuma, o presidente, só apareceu em cena após o massacre ter alcançado repercussão internacional. Quem chegou antes e ganhou voz foi justamente seu rival, o radical dissidente do partido governista ANC Julius Malena, que circulou entre mineiros exaltados sem seguranças e pediu a renúncia do presidente e do ministro de minas por omissão.

Analistas falaram na possibilidade de fuga de investimentos, de greves pipocarem em outros setores da economia e houve quem avaliasse que a África do Sul está a três anos de se tornar o próximo Zimbábue – um país esfacelado pelo radicalismo político de Robert Mugabe, que expulsou a minoria branca e mergulhou a economia local em uma hiperinflação.

É difícil imaginar que o país esteja tão próximo do abismo. Sob muitos aspectos, a África do Sul é muito mais rica, estável e tolerante que o vizinho. Mas é sem dúvida um sinal de que o tempo para que o governo reduza a pressão social gerada pela desigualdade está encurtando.