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Papéis da varejista têxtil encerraram o dia em queda de 7,1% com perspectivas nubladas em setor que enfrenta desaceleração de demanda

Relatório do Bank of América sobre queda nas vendas ajudaram a derrubar ações da Hering
AE
Relatório do Bank of América sobre queda nas vendas ajudaram a derrubar ações da Hering

A demanda em ritmo fraco e a possibilidade de perda de incentivos tributários derrubaram as ações da Hering no pregão desta terça-feira. Os papéis da varejista têxtil encerraram o dia em queda de 7,1%, para R$ 37,30, na maior baixa do Ibovespa, que fechou em leve alta de 0,1%, a 53.836 pontos.

Segundo operadores ouvidos pelo Valor, a queda foi acentuada por um relatório do Bank of America Merrill Lynch (BofA), divulgado ontem, que reforçou as perspectivas já nubladas para o setor, que, desde meados do ano passado, vem enfrentando uma desaceleração da demanda. Há ainda boatos no mercado de que a companhia teria decidido revisar sua projeção de vendas para mesmas lojas e também de margens para este ano.

A informação teria sido obtida por analistas na própria empresa e teria como base as expectativas menos otimistas de expansão no consumo deste ano. Em abril, a Hering havia confirmado expectativas positivas de crescimento, apesar dos obstáculos encontrados no primeiro trimestre.

Ao fim de abril, o presidente da Hering, Fabio Hering, disse que a empresa mantinha uma perspectiva otimista para o ano. "Olhando um pouco mais para frente, estamos confiantes de que vamos encontrar um ambiente melhor, sem desafios em questões climáticas. A queda do consumo também vai estar superada, tendo em vista que o Brasil está longe de uma crise, com crédito farto e juros mais baixos no mercado", disse o executivo.

No relatório divulgado ontem, o BofA iniciou a cobertura dos papéis da Hering, com recomendação "neutral", ou seja, de manutenção das ações, com preço-alvo de R$ 48 ao fim do ano, ou potencial de valorização de 17,6% em relação ao fechamento de ontem (R$ 40,80).

No relatório, Robert Ford, Melissa Byun e Marcelo Santos afirmam que a perspectiva para a Hering no longo prazo é positiva, refletindo seu modelo de negócios integrado e da grande capilaridade dos canais de distribuição.

Além disso, os analistas afirmam que a empresa deve capturar a tendência de crescimento dos gastos discricionários dos brasileiros e desempenhar um papel importante na consolidação do setor têxtil. O problema fica por conta do curto prazo.

Na avaliação do BofA, as receitas da Hering devem ser pressionadas pela continuidade da desaceleração do consumo e pelo real depreciado em relação ao dólar, que aumenta o custo de importações.

Outro fator de pressão sobre as ações é o risco de retirada de incentivos tributários, que, em 2011, representaram R$ 85 milhões, ou cerca de 25% de receita líquida da companhia, segundo cálculos do BofA.

No ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou inconstitucionais os benefícios fiscais concedidos por cinco Estados e pelo Distrito Federal, pois eles não tinham o aval do Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária).

Segundo o BofA, há um grande risco de que essa proibição seja estendida para outros Estados e possa afetar o balanço da companhia. A Hering conta com uma série de benefícios fiscais que visam estimular os investimentos nos Estados de Santa Catarina, Goiás e Rio Grande do Norte. O BofA destaca ainda que o aumento na tributação sobre produtos importados é outra ameaça para os resultados da Hering.

A partir de 2013, o imposto de valor adicionado que incide sobre a compra de produtos têxteis vindos do exterior aumentará de 9% para 15%. E, conforme assinala o banco, as restrições de capacidade de produção no Brasil não permitirão que a empresa transfira parte da produção estrangeira para o país.

Nesse sentido, a Hering precisaria aumentar entre 7% e 8% os preços dos produtos importados para compensar a maior taxação, um desafio, considerando-se o cenário adverso para a demanda. Renato Prado, analista de varejo da Fator Corretora, ressalta ainda que a queda das ações hoje reflete uma correção de preços.

"As ações da Hering tinham subido muito. A percepção que eu tenho é que caiu a ficha dos investidores que o crescimento da companhia daqui para frente será mais moderado", diz ele, que não descarta a possibilidade do movimento de queda ter sido puxado pela realização de lucro de algum fundo com posição na companhia.

Há algum tempo, a Fator tem recomendação de venda para os papéis da Hering, enquanto as outras varejistas de vestuário (Renner, Marisa e Guararapes) carregam "manutenção". O preço-alvo da Fator é de R$ 37,67. "Cotado abaixo disso, o papel começa a ficar interessante de novo", comenta Prado. 


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