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Substituição de Abilio Diniz alivia tensões societárias que se arrastam há um ano e não significa que o executivo brasileiro se afastará totalmente dos negócios, afirmam analistas. Ação sobe 2,03% na Bovespa nesta sexta-feira

Mudanças na empresa reduzem conflitos societários entre Abilio e Naouri, dizem analistas
AE
Mudanças na empresa reduzem conflitos societários entre Abilio e Naouri, dizem analistas

As mudanças que acontecem no Pão de Açúcar nesta sexta-feira, em que Abilio Diniz deixa de ser controlador do grupo , agradam o mercado ao eliminar uma tensão que se arrasta desde o ano passado. Analistas que acompanham a empresa acreditam que a substituição da liderança da maior rede varejo do Brasil será tranquila, e que o executivo brasileiro - com vasta experiência no varejo e admirado na condução dos negócios - não se afastará totalmente. 

Após subir 2,5% durante a manhã, as ações preferenciais do Pão de Açúcar fecharam com alta de 2,03%, a R$ 75. A Bovespa recuou apenas 0,12% com ajuda de Petrobras .

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Com as movimentações na estrutura societária da Wilkes, que é a empresa que comanda o Pão de Açúcar , o controle da rede de varejo brasileira passa para as mãos do francês Jean-Charles Naouri , do Casino

“Como aconteceu uma divergência entre os sócios no ano passado, a saída de Abilio acaba reduzindo um pouco este grande ponto de tensão,” diz Gabriel Ferreira, membro da equipe de análise da UM Investimentos. Naouri é desafeto de Abilio desde junho do ano passado, o executivo brasileiro incomodou o  francês quando tentou negociar com o Carrefour , sem a ciência do Casino.

Para Daniela Maia, analista de varejo da Ativa Corretora, esse alívio acaba favorecendo as ações uma vez que o conflito societário vinha tendo um peso relevante na percepção dos investidores sobre a empresa. "Todas as questões de governança corporativa ultimamente tem sido muito consideradas," diz.

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Além disso, o mercado considera que a saída de Abilio vem sendo conduzida de forma pacífica e que o executivo não se afastará da companhia rapidamente. “O mercado quer uma transição suave de poder, e eu acho que é o que vamos ver,” afirma Francisco Chevez, analista do HSBC baseado nos Estados Unidos. 

Apesar de o executivo brasileiro ter atitudes polêmicas em relação às questões societárias, ele tem um histórico bom, comenta Daniela Maia. "O Abilio tinha pontos positivos e negativos. Ele causava um temor porque nunca se sabia o que se podia esperar dele. Por outro lado, ele agrega valor para a companhia, tem muita sensibilidade e experiência. Eu acho que é possível que ele continue influenciando bastante os negócios," afirma.

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Chevez acrescenta que os três novos conselheiros apontados pelo Cassino para dividir espaço com Abilio no Conselho da empresa, Eleazar de Carvalho Filho, Luiz Augusto de Castro Neves e Roberto Oliveira Lima, não têm tanto conhecimento na área de varejo, apesar de serem muito experientes e conhecidos. Para o analista do HSBC, isso é sinal de que o Casino pode manter as rédeas da empresa nas mãos dos brasileiros, o que ele considera positivo.

“O Pão de Açúcar tem muito a cara dele, e ele é bem visto,” acrescenta Ferreira, que concorda que o executivo brasileiro deve continuar sendo respeitado em suas opiniões. Na última segunda-feira, em uma reunião com funcionários, Abilio reforçou que esta é a sua intenção. Ele teria dito que espera continuar trabalhar com o Casino para levar a companhia adiante.

Também otimista com as mudanças, a gestora de recursos norte-americana Black Rock elevou nesta semana sua participação no Pão de Açúcar, para 5,12% do capital. Leia mais: BlackRock atinge fatia de 5% nas ações do Pão de Açúcar

Perspectivas

As ações do Pão de Açúcar já vêm refletindo toda a novela entre Abilio e Naouri desde o ano passado, diz Ferreira. Quando o desentendimento entre Abilio e Naouri aconteceu, os papéis sofreram um pouco, comenta o analista.

Neste ano, as ações subiram acompanhando a alta generalizada da bolsa brasileira no primeiro bimestre e sustentados por bons resultados da companhia. Em seguida, tiveram uma baixa em função da piora do mercado de ações global, com a piora do cenário europeu. "A ação tinha uma performance muito boa e sofreu junto com a bolsa. Mas isso foi mais por uma questão de mercado do que por uma questão específica da companhia," afirma a analista da Ativa Corretora.

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Para os próximos períodos, os analistas esperam bons resultados vindos da varejista. "A equipe do Pão de Açúcar tem se mantido focada e conseguido mostrar resultados positivos. Ainda que o momento do varejo tenha piorado um pouco recentemente, com a piora da economia, ainda é comparativamente é um setor que traz boas perspectivas com relação aos demais," diz Daniela, da Ativa. A expectativa de Chevez, do HSBC, para o preço da ação em 12 meses é de R$ 120, cerca de 60% acima da cotação atual, R$ 75.

Na última quinta-feira, as ações do Pão de Açúcar (PCAR4) caíram cerca de 3,3% na Bovespa, a R$ 73,90, na Bovespa. Para Daniela Maia, a baixa aconteceu mais por conta da queda generalizada da bolsa brasileira - o Ibovespa perdeu 2,91% - do que por alguma incerteza dos investidores em relação às mudaças no Pão de Açúcar.

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Veja no infográfico abaixo como ficará a estrutura societária do Pão de Açúcar

(Com Pedro Carvalho, iG São Paulo)

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