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De acordo com Pérsio Arida, elevado patamar de juros no Brasil resulta de uma desconfiança tácita da sociedade em relação à inconsistência fiscal no País

O ex-presidente do Banco Central Pérsio Arida disse nesta terça-feira que o elevado patamar de juros no Brasil resulta de uma desconfiança tácita da sociedade em relação à inconsistência fiscal no País. Ele fez esta afirmação durante palestra que fez no seminário "Guardiões da Estabilidade" e que marca os 15 anos da Revista IstoÉ Dinheiro.

Participam do evento, além de Arida, os ex-presidentes do BC, Gustavo Franco, Armínio Fraga e Henrique Meirelles. O seminário contará ainda com a participação do presidente atual da autoridade monetária, Alexandre Tombini.

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De acordo com Arida, a eficácia fiscal está entre os principais desafios do Brasil porque a carga tributária aumentou de 25% quando da implantação do Plano Real para atuais 37% do Produto Interno Bruto (PIB) e os gastos públicos tiveram crescimento real ao longo do tempo. Ele lembrou que quando o governo Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano Real, o sistema financeiro era frágil, que cada Estado tinha seu banco, que sofriam ingerência política e que forçava o Banco Central a emitir moeda, o que gerava inflação.

"Hoje temos um sistema financeiro em melhor estado e não temos os perigos de 1995 que ameaçavam a estabilidade e o sistema financeiro", disse o ex-presidente do BC. No entanto, segundo Arida, a estabilidade não é uma tarefa encerrada. "Não que temos a ameaça da volta do dragão inflacionário. A inflação hoje é normal, mas resulta do resquício de indexação", disse o ex-presidente do BC, para quem a inflação e juros altos são consequências da falta de equilíbrio fiscal.

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Apesar de em 1995, pela ocasião da crise do México quando o Plano Real sofreu seu primeiro ataque especulativo, o BC sob seu comando ter recorrido a medidas macroprudenciais, Arida disse ser reticente às medidas macruprudenciais como um todo. Ele disse que à época ele recorreu às medidas para evitar elevar a taxa de juros para um patamar mais alto do que ela já era. O fato é que o BC recorreu às reservas internacionais, que eram de US$ 30 bilhões e que em três dias acabaram.

Já o também ex-presidente do BC Armínio Fraga, comentou que "em algum momento vamos ter que encarar a redução da meta de inflação de 4,5%" no Brasil. Segundo ele, tal diminuição desse objetivo será um complemento importante para solidificar a estabilidade econômica no País. "Mas eu sugiro que esta mudança ocorra de forma gradual, de acordo com a oportunidade do momento", ressaltou.

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Fraga disse que o sistema de metas de inflação permite algum grau de suavização da gestão do nível de atividade, mas não elimina o ciclo econômico. Ele ponderou que esse regime é simples e fácil de entender e foi adotado no Brasil em 1999, quando ele era o dirigente máximo do BC, quase por critérios de exclusão.

Fraga afirmou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve crescer 2% neste ano. "O mercado todo fala em crescimento de 2%. É razoável. Eu acredito que a economia vai se recuperar no segundo semestre. Mas na média do ano vai dar 2%, contra a média do ano passado", destacou. "Contudo, a sensação no final do ano pode ser melhor do que a de hoje", disse antes de participar do evento.

Na avaliação de Fraga, porém, esse cenário pode mudar, caso a crise internacional se agrave mais nos próximos meses. "Os riscos continuam elevados", ressaltou. Para o ex-presidente do BC, o câmbio pouco superior a R$ 2,00 não está causando efeitos negativos para a inflação no Brasil. "A projeção dos analistas para IPCA está em torno de 5%, tem gente falando menos. A inflação está caindo, não está subindo", afirmou.

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