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Sustentação do movimento é ainda incerta e depende em grande parte dos desdobramentos da crise na Europa, dizem economistas

Indicadores econômicos divulgados nas últimas semanas sugerem que o Brasil poderá ter um segundo semestre melhor que o primeiro. Inflação e juros em queda, alta nas vendas de cimento e de embalagens compõem um quadro que favorece uma maior movimentação na indústria daqui para o final do ano, no embalo da expansão do crédito ao consumo.

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A grande incerteza é o cenário externo com a proximidade das eleições na Grécia, que poder comprometer as perspectivas de crescimento para o ano. “Hoje, dado o cenário mundial, o crescimento será menor que 3%. Mas ainda há esperança de que a situação se estabilize e possamos ir além”, afirma Rodrigo Zeidan, professor de economia e finanças da Fundação Dom Cabral (FDC). “Não é impossível”, diz o economista.

Por ora, a indústria de embalagens, tradicional termômetro da atividade da indústria, espera a compensação das vendas fracas no primeiro trimestre nos meses que estão por vir. No acumulado de janeiro a março, houve queda de 0,3%, em parte devido a efeitos sazonais, diz Luciana Pellegrino, diretora da Associação Brasileira de Embalagem (Abre). Mas para o segundo trimestre, a expectativa já era de alta de 0,8% sobre o mesmo período de 2011 e, para os dois últimos, de 2,1% e 3,8%.

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Na construção civil, o crescimento das vendas de cimento sugere que a atividade continua aquecida e deverá ajudar a manter o ritmo de expansão do PIB neste ano. O aumento do volume comercializado do insumo foi de 0,7%, de abril para maio. No ano, as vendas já acumulam alta superior a 10%, na comparação com os cinco meses do ano passado.

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A inflação, que chegou a apontar para uma média anualizada acima de 6%, arrefeceu – em maio, o índice oficial foi o mais baixo em cinco anos – e pode cair ainda mais, enquanto a taxa básica de juros, que quase ninguém dizia que fecharia abaixo de 8% em 2012, já encontra em algumas consultorias, como a LCA, apostas de 6,5% ou menos.

Na avaliação de Adriano Gomes, professor do curso de administração da ESPM, a queda nos juros tem efeito direto sobre o custo financeiro da indústria e reduz a pressão por reajuste de preços que gera inflação. “O governo tem empreendido esforços na queda dos juros que começam a chegar na ponta da cadeia, no consumidor”, afirma o acadêmico. Para Zeidan, em uma economia desacelerada, também deve haver menor pressão por aumento de salários, como nos últimos anos.

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“Quando saíram os dados do Banco Central relativos ao PIB, apontando para crescimento de 0,15% no primeiro trimestre, sobre o último tri de 2011, o mercado ficou inquieto”, diz Manuel Enriquez Garcia, professor de economia da FEA e presidente da Ordem dos Economistas do Brasil. O indicador, anualizado, diz, assustou: “mas não é o que deve acontecer”.

Segundo Zeidan, do ponto de vista da estrutura macroeconômico, o país vai bem. Só falta que o crescimento de alguns setores chave, como a construção civil, por exemplo, se alastre para outros. “O desempenho de um ou dois setores não será suficiente para sustentar o crescimento de uma economia que movimenta mais de trilhão”, afirma o economista.

Risco

É onde está o risco. “O que a gente não sabe é se isso (o aumento da venda de embalagens e cimento) é sinal de retomada mais pujante da economia ou se é meramente reposição de estoque”, afirma Gomes, da ESPM. “São bons sinais, mais não são sinais de recuperação evidente”.

Segundo ele, o desempenho no segundo semestre dependerá muito do cenário externo e do humor do mercado, que tem variado de forma “mercurial” nesta semana pré-eleições na Grécia. São movimentos que têm reflexos no crescimento de outros gigantes propulsores da economia mundial, China e Índia, que enfraquecidos afetarão o Brasil, argumenta.

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Por fim, há ainda o alto endividamento da população brasileira, que pode ao menos minimizar o impacto de medidas de incentivo ao consumo, como a redução dos juros e a ampliação do crédito. “A indústria de transformação está em sérias dificuldades e precisa ser alavancada com a ampliação do crédito. Mas o remédio já foi aplicado e restam dúvidas quanto ao espaço que existe ainda para isso”, afirma Garcia, da FEA.

O consenso é que, para o bem ou para o mal, o cenário deverá ficar mais claro após as eleições na Grécia, marcadas para este domingo.

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