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Instituição comandada pela família Indio da Costa tem sua história recente marcada por balanços reprovados por auditores, acusação de desvio de recursos e investigações

Luis Octavio Indio da Costa, presidente do Cruzeiro do Sul, e sua família estão no comando do banco há 20 anos
Divulgação
Luis Octavio Indio da Costa, presidente do Cruzeiro do Sul, e sua família estão no comando do banco há 20 anos

Não é de hoje que o banco Cruzeiro do Sul atravessa problemas. Com quase 20 anos nas mãos da família Indio da Costa, a instituição coleciona um histórico recente marcado por balanços reprovados por auditores, acusação de desvio de recursos e investigações por parte das autoridades.

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A lista de tropeços do Cruzeiro do Sul começou a vir à tona em 2008, um ano depois de o banco estrear na bolsa de valores, vendendo cerca de R$ 645 milhões em ações. Desse valor, os Indio da Costa embolsaram R$ 150 milhões. A instituição, que tinha R$ 2,6 bilhões em operações de crédito consignado, estreou valendo R$ 2,15 bilhões.

Em setembro de 2008, a massa falida do banco Santos acusou, em um processo judicial, o Cruzeiro do Sul de ter desviado R$ 206,2 milhões dos credores da instituição que pertenceu a Edemar Cid Ferreira. O caso ainda está correndo na Justiça.

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Um ano depois, no fim de 2009, o banco anunciou a intenção de fazer uma nova oferta de ações, em uma operação que somaria R$ 400 milhões, entre novos recursos para o Cruzeiro do Sul e a venda de parte das ações dos Indio da Costa.

Logo, porém, o processo foi abortado, em meio a uma sucessão de episódios negativos. Em janeiro de 2010, o Banco Central começou a questionar as operações do Cruzeiro do Sul de venda de carteiras para fundos de direitos creditórios. Depois desse repasse, o próprio banco comprava as cotas do fundo, em operações que, para o Banco Central, poderiam ser irregulares.

No mês seguinte, foi a vez de a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fazer marcação cerrada em cima do banco. A autoridade mandou o Cruzeiro do Sul republicar seus balanços de 2008 e 2009 sob o argumento de que a instituição não estava consolidando em seu balanço os fundos de direitos creditórios que detinha.

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Em prática que alguns concorrentes apelidaram de "contabilidade criativa", o Cruzeiro tem por costume manter as operações de crédito que gera em fundos de direitos creditórios que são detidos pela instituição. Quase 100% dos R$ 8 bilhões de ativos de crédito que o banco possui hoje estão em fundos. É justamente sobre isso que as autoridades começaram a se debruçar para entender melhor as operações tão incomuns no mercado.

Dentro desse fundos, o Banco Central chegou a detectar que as provisões para créditos duvidosos não vinham sendo feitas de forma tão rigorosa quanto deveriam caso estivessem diretamente dentro do banco. Em meio a isso, o Banco Central começou a cobrar de diversos bancos no ano passado um provisionamento mais minucioso dos bancos, incluindo o Cruzeiro do Sul.

Somado a isso, o banco dos Indio da Costa ainda enfrentou no ano passado um cenário bastante difícil para as captações de recursos no exterior, que representam 25% do seu "funding", com R$ 2,89 bilhões.

Outra importante fonte de recursos, a emissão de Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE), teve suas regras alteradas pelo governo no ano passado, o que apertou essa opção de "funding". A emissão desse tipo de título tem de ser reduzida até ser extinta em 2016. O Cruzeiro vendeu a investidores R$ 2,28 bilhões dessa modalidade de papel.

Para agravar sua situação financeira, a partir deste ano, o Banco Central impediu que os bancos reconhecessem de uma só vez o resultado da venda de carteiras de créditos em que o banco desse a garantia das operações. Agora, o lucro dessas transações tem de ser reconhecido ao longo da vida da própria carteira, incorporando as perdas que o banco terá com inadimplência e pagamentos antecipados.

Numa tentativa de dar fôlego de "funding" ao banco, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) montou no fim do ano passado uma operação de liquidez ao banco de R$ 3,6 bilhões. O fundo se comprometeu a comprar carteiras de créditos do banco em troca do dinheiro. A operação, tornada pública em reportagem do jornal Valor Econômico, foi inicialmente negada pelo banco.

Neste ano, mesmo com a garantia de "funding" do FGC, o banco vem sofrendo novos revezes. Em março, a agência de classificação de risco Moody's rebaixou a classificação de risco do Cruzeiro do Sul, deixando o banco com a pior nota atribuída às instituições financeiras em termos de segurança e liquidez, "E+".

"A Moody's rebaixou o Cruzeiro do Sul levando em consideração a crescente dependência do banco de fontes de captação com garantia para financiar sua originação de crédito", afirmou a agência. No mês seguinte, a Moody's rebaixou um fundo de direitos creditórios do Cruzeiro depois de constatar que as perdas de crédito estavam superiores aos valores estimados pela agência.

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