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Repercussão negativa de decisões do governo brasileiro também levou maior gestora global de recursos a rever exposição à Petrobras

Peru, Chile e Colômbia vêm se beneficiando diretamente, nos últimos dois anos, da repercussão negativa provocada por decisões políticas do governo brasileiro que interferem na gestão de empresas privadas, como a recente pressão pela queda das taxas de juros praticadas pelos bancos. A avaliação é do diretor para a América Latina da BlackRock - maior gestora de recursos do mundo – Will Landers.

Em entrevista ao iG,o executivo revelou que a participação do Brasil em fundos da BlackRock direcionados à América Latina, cujo patrimônio gira em torno de US$ 7 bilhões, caiu de 71% para 65% nos últimos dois anos. Já a participação de Chile, Peru e Colômbia subiu de 7% para 10% no mesmo período.

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“Medidas isoladas do governo para ajudar uma indústria aqui e um setor ali geram temores entre os grandes investidores, que não têm tempo para entrar nos detalhes de uma MP ou para estudar o histórico do país. Na dúvida, eles retiram os recursos”.

Para Landers, movimentos como a pressão do governo pela redução dos spreads dos bancos em um momento em que a inadimplência está subindo, levam os investidores estrangeiros a buscarem maior estabilidade dentro da região, transferindo recursos para países onde as regras são aparentemente mais previsíveis, como o Chile.

“O Brasil perdeu share na América Latina nos últimos anos. Para reverter isso, é preciso criar um ambiente mais seguro, no qual não haja tantas interferências do governo. Apesar de todas as notícias positivas sobre os emergentes - incluindo o Brasil - eles continuam sendo tratados como mercados de risco alto, em que qualquer tipo de incerteza é suficiente para afastar os investidores estrangeiros”, diz Landers.

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A interferência do governo afeta ainda, segundo ele, empresas específicas, como a Petrobras, que perdeu a liderança nos fundos geridos pela BlackRock para a Vale. “Nossa exposição à Petrobras já chegou a 10% do patrimônio administrado na América Latina e hoje oscila entre 7 5,% e 8%. Por outro lado, a Vale saltou de 7% para 10% graças aos seus bons fundamentos e é hoje nossa maior posição na América Latina”, afirma.

Segundo Landers, chama a atenção o fato de a Ecopetrol, da Colômbia, ter hoje quase o mesmo valor de mercado da Petrobras. Para o investidor, isso acontece, entre outras razões, porque o marco regulatório colombiano parece ser mais claro, a empresa foca em todos os investidores e o custo de exploração é mais baixo que o da Petrobras. Por outro lado, diz ele, a administração acertada de Murilo Ferreira à frente da Vale contribuiu para o aumento da exposição da BlackRock à companhia nos dois primeiros trimestres do ano.

No que diz respeito às projeções de crescimento da economia brasileira, a BlackRock trabalha com uma projeção bem mais modesta que a do governo. “O governo fala em 4%, mas acredito que a luta será para garantir que o PIB não fique abaixo de 3% este ano”.