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Novo programa de estímulos na economia americana e reestruturação da dívida da Europa podem dar novo fôlego aos países em dificuldades, defendem especialistas

A inflação, fantasma que assombrou durante décadas a economia brasileira e foi vencido com grandes sacrifícios e políticas econômicas ousadas e responsáveis pode ser o remédio para estimular as economias dos países ricos.

Uma combinação de novos estímulos monetários nos Estados Unidos com uma profunda renegociação das dívidas dos países da União Europeia aliada a uma maior tolerância com a inflação tem sido apontada como uma solução possível por respeitados economistas para estimular o crescimento das economias em crise.

O principal defensor dessa tese tem sido o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) e professor de Economia e Políticas Públicas na Universidade de Harvard, Kenneth Rogoff . Segundo ele, a prioridade nos Estados Unidos é aliviar a dívida, principalmente a das famílias. Na região do euro, de acordo com  Rogoff, é necessário reduzir os déficits dos países mais periféricos como Grécia, Portugal e Irlanda.

“Os bancos centrais devem adotar uma política expansionista de longo prazo e imprimir moeda para garantir liquidez, facilitar a redução do endividamento, mesmo que para isso seja necessário tolerar uma inflação mais alta, entre 4% e 6%, acima dos 2% tolerados atualmente pelas economias desenvolvidas”, tem afirmado Rogoff em artigos recentes.

No ano passado, a inflação registrada nos países da zona do euro foi de 2,21% e nos Estados Unidos a taxa ficou em 1,37%, bem abaixo da inflação mundial de 4,1% segundo dados do FMI. No mesmo período, o Brasil registrou variação de 5,91% no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e encerrou 2010 com um crescimento da economia de 7,5%.

Ciclo inflacionário

Comportamento dos indicadores em uma década

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Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI)

Para o economista Luis Eduardo Assis, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e da FGV-SP, a busca de uma solução passa por uma maior taxa de inflação. “Poucas coisas podem ser feitas no momento. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma nova rodada de incentivos”, diz Assis.

“Como o grande tema nos EUA será a eleição presidencial em 2012, o Fed (Banco Central americano) terá que intervir em breve, mas isso não soluciona o problema. É necessário, junto com as medidas de estímulo, tempo para que as famílias recomponham seus orçamentos e voltem a ter capacidade de consumir para reativar a economia com mais força”, acrescenta Assis.

Homero Azevedo Guizzo, economista da consultoria LCA afirma que uma inflação mais alta pode facilitar um ajuste no endividamento tantos das famílias, como de empresas e governos. “É fato que com mais inflação os juros reais pagos pelos que têm dívidas diminuem. Isso ajuda a sair do buraco”, diz.

Ontem Banco Central dos EUA anunciou que manterá a taxa de juros entre 0% e 0,25% por pelo menos mais dois anos, apesar de divergências internas, num esforço para dar suporte à economia. Não estava claro se a decisão, que não envolveu nenhuma promessa de compras de títulos, será suficiente para colocar um piso no mercado de ações dos Estados Unidos, que já caiu mais de 15% nas últimas duas semanas.

"O comitê atualmente prevê que as condições econômicas - incluindo os baixos níveis de utilização dos recursos e a perspectiva contida da inflação no médio prazo - deve garantir níveis excepcionalmente baixos para os juros básicos pelo menos até meados de 2013", informou a autoridade monetária em comunicado.

Excesso de otimismo

Para os analistas, o pânico visto nos mercados na segunda-feira foi motivado pelo excesso de otimismo antes da hora, verificado no primeiro semestre. “Os bancos estão subcapitalizados e os governos endividados. Não é uma nova crise. É o segundo ato de uma mesma peça”, avalia Assis.

A revisão dos números do PIB americano do primeiro trimestre ajudaram a elevar o pânico dos investidores. No fim do mês passado, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos revisou o crescimento da economia no primeiro trimestre de 1,9% para uma alta de 0,4%. No segundo trimestre o crescimento foi de 1,3%. Esse resultado ficou abaixo da expectativa de analistas, que esperavam expansão de 1,8% no período.

“Na verdade, o otimismo se deu sobre uma suposta recuperação no primeiro trimestre que de fato acabou se comprovando que não estava ocorrendo após a divulgação dos dados revisados”, afirma o ex-diretor do BC.

Mas apesar das fortes turbulências na maior economia do mundo, é a Europa que preocupa mais os especialistas. A Europa vive um dilema, na opinião dos economistas, e precisa decidir se vai manter o euro. Mas para isso é preciso uma convergência de políticas fiscais e uma coordenação de estímulos à produtividade. “Os países centrais como Alemanha e França não poderão sustentar para sempre os enormes rombos nas contas das outras nações. Além do limite dessas medidas, existe um grande ônus político”, analisa Assis.