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Segundo Anne Mansouret, membros do partido socialista sabiam da tentativa de estupro, mas optaram por ignorá-la

Nove anos atrás, Anne Mansouret dissuadiu sua filha de fazer uma queixa legal de tentativa de estupro contra Dominique Strauss-Kahn, um membro proeminente do Partido Socialista na França e ex-marido de uma de suas melhores amigas.

A jornalista Tristane Banon, que teria sofrido agressão sexual em 2002
AFP
A jornalista Tristane Banon, que teria sofrido agressão sexual em 2002
Mas agora ela está falando sobre o que aconteceu e quais outros líderes socialistas sabiam disso. E alguns socialistas – constrangidos com as acusações contra o homem rico que provavelmente seria o seu candidato à presidência no próximo ano – pediram a sua expulsão do partido.

Em uma série de entrevistas, Mansouret – por vezes defensiva, emocional, argumentativa e inflexível – disse que fez isso para proteger sua filha, Tristane Banon, agora com 31 anos, e o próprio partido.

Banon, jornalista e escritora, afirma que Strauss-Kahn, que está enfrentando acusações criminais em Nova York pela tentativa de estupro de uma empregada de hotel, tentou estuprá-la durante uma entrevista em um apartamento vazio em 2002 – agarrando-lhe o braço, tirando o seu sutiã, tentando abrir o seu jeans, lutando com ela no chão e ignorando seus gritos de "não". Ela o descreveu como "um chimpanzé no cio".

Os líderes do partido sabiam da experiência de sua filha com Strauss-Kahn, disse Mansouret, mas optaram por ignorá-la. E ela se sentia frustrada, em parte, porque a segunda esposa de Strauss-Kahn, Brigitte Guillemette, era uma de suas melhores amigas e madrinha de Banon.

"Muitas pessoas sabiam da história, mas não queriam falar sobre isso", disse Mansouret.

Com a intercessão de Guillemette, após o incidente, Mansouret chegou a tomar um drinque com Strauss-Kahn, que admitiu que "não conseguiu se controlar" durante a entrevista que ele tinha arranjado com a sua filha em um apartamento vazio.

Strauss-Kahn parecia relaxado, ela disse, "mas talvez mais do que realmente estava”. Ela o descreveu como um homem que nunca resistiu a qualquer tipo de tentação e que "nunca foi capaz de fazer uma dieta por mais de 15 dias".

Desde a prisão de Strauss-Kahn, em Nova York, Mansouret, membro do Conselho Regional da Haute-Normandie do Partido Socialista, se viu em meio a um teatro político. Ela é amplamente vista como uma mãe traidora que silenciou o trauma da filha durante quase uma década e que agora está manchando a imagem do partido que originalmente tentou proteger.

Michele Sabban, vice-presidente do Conselho Regional da Ile-de-France, pediu a sua expulsão do Partido Socialista.

"Ela não tem espírito de responsabilidade", Sabban disse à rádio francesa RMC. "Ela não analisou a medida da catástrofe" para o partido, ela disse, após o indiciamento de Strauss-Kahn, o principal candidato do partido à presidência e chefe do Fundo Monetário Internacional.

Banon falou sobre a suposta agressão em uma entrevista televisiva em 2007, mas o nome de Strauss-Kahn foi censurado. Ela o revelou um ano depois.

Após o incidente, François Hollande, então líder do Partido Socialista, chegou a ligar para sua filha, disse Mansouret. Mas não há nenhuma indicação de que tenha realizado qualquer investigação.

Hollande, ele próprio um dos principais candidatos presidenciais após a queda de Strauss-Kahn, disse que sabia de "rumores", mas que eles não eram "tão graves como os que foram relatados", disse o jornal Le Figaro.

Ele disse que seu trabalho não era se intrometer na vida privada das pessoas.

Mansouret, 65, disse que a história causou constrangimento interno, mas, dada uma cultura de privacidade em relação ao sexo, os políticos não queriam atirar a primeira pedra.

"Eu sabia que os socialistas iriam negar", disse Mansouret. "Entre o que é verdade, o que você sabe ser verdade e o que as pessoas apresentam como sendo a verdade, muitas vezes há uma diferença na política". A própria Banon disse em 2008 ter sido atingida por uma "hipocrisia geral sobre essa história", que a mídia não quis investigar.

A equipe de Strauss-Kahn também pressionou Banon a remover um capítulo sobre ele do livro no qual ela relata o momento do suposto ataque. Ela se recusou, mas sua editora suprimiu o capítulo de qualquer jeito. No livro, publicado em 2003, ela entrevistou vários homens bem conhecidos sobre os erros que fizeram em suas carreiras. Strauss-Kahn falou de seu envolvimento em um grande escândalo político e financeiro em 1998, embora ele tenha sido inocentado das acusações.

Ramzi Khiroun, assessor de comunicação de Strauss-Kahn na época, explicou então que ele estava com medo que o livro "poderia atrair muita atenção" para Strauss-Kahn, disse Mansouret. Khiroun não respondeu a pedidos para comentar o assunto.

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