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BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o governo não vai adotar nenhuma medida que provoque restrições ao consumo no país. Se tem uma coisa que o povo pobre passou a vida inteira esperando era o direito de comer três vezes ao dia, ou o direito de entrar no shopping e comprar uma roupinha. Isso nós vamos garantir, custe o que custar , alegou o presidente, após recepção no Itamaraty ao primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Patrick Manning.

Apesar de alguns integrantes da equipe econômica terem mencionado nos últimos dias que a inflação não era mais a preocupação central do governo, Lula deixou claro ontem que o combate ao aumento dos preços é uma questão de honra para ele. Estive do outro lado durante toda a minha vida, vivendo como trabalhador. E sei que a inflação prejudica exatamente as pessoas que ganham menos, exatamente aqueles que vivem de salário é que terão maiores prejuízos , disse o presidente.

Lula frisou que o governo continuará tomando todas as medidas necessárias para manter a inflação controlada. Ontem, o Banco Central aumentou, de forma unânime, em 0,75 ponto percentual a taxa Selic, um dos instrumentos adotados pela equipe econômica para tentar conter a escalada dos preços. Lamentavelmente, alguns setores aproveitam o momento em que o povo está consumindo para aumentar preços e nós precisamos cuidar disso com muito carinho , criticou o presidente.

Lula destacou o bom momento vivido pelo país. A economia está crescendo, os investimentos são muitos e há perspectiva de novos investimentos, maiores ainda. São investimentos extraordinários que mostram que o crescimento será sustentável realmente, definitivo no Brasil . Lula não acredita que os aumentos na taxa Selic - a entrevista foi dada antes do término da reunião do Copom - possa alterar o ritmo de contratação das obras do PAC. Esses investimentos não terão problema com os juros porque já estão contratados, a taxa de juros é outra, é só colocar as máquinas para trabalhar .

O presidente também foi duro ao ser questionado sobre as dificuldades em relação às negociações da Rodada Doha. Acho que tanto os americanos quanto os europeus estão habituados a um tempo que não tinha negociação. Eles impunham aquilo que eles queriam e os outros eram obrigados a aceitar.

O presidente voltou a elencar os impasses nas negociações. Segundo Lula, um bom acordo na Rodada Doha passa pela flexibilização dos europeus no mercado de agricultura, uma redução dos subsídios praticados pelos Estados Unidos e uma flexibilização do G-20 na questão dos produtos industriais. Nós já demos demonstrações a eles de que estamos dispostos a fazer isso, mas eu acho que eles sempre acham que os países emergentes têm de se subordinar à lógica deles, à teoria deles .

Se essa mentalidade não se alterar, na opinião do presidente, será pior para todos os lados, mas especialmente para os mais pobres, que têm de aumentar a produção de alimentos sem garantia de mercados para revendê-los. Cada um arque com suas responsabilidades. O mundo passa por uma crise de alimentos e nós precisaríamos incentivar que o mundo todo produzisse mais , defendeu o presidente.

(Paulo de Tarso Lyra | Valor Econômico)

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