Tamanho do texto

Paulo Sandroni, autor do mais renomado dicionário de Economia do País, cria jogo que ajuda entender as oscilações monetárias

Os desequilíbrios das taxas de câmbio no mundo, provocados pela guerra cambial ou tensão cambial, teve seus efeitos mitigados nas últimas semanas devido a uma maior percepção de risco gerada pelos problemas econômicos que persistem na Europa, e levou muitos investidores a comprar dólares elevando um pouco a cotação da moeda.

Mas as turbulências geradas por um movimento de intervenção no câmbio em alguns países, ou via políticas de estímulo ao consumo, como no caso dos Estados Unidos, não devem desaparecer do horizonte no curto prazo.

Na avaliação do professor Paulo Sandroni, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV), autor do mais respeitado dicionário de termos econômicos do País, essa flutuação mais intensa de moedas não é uma novidade e existe desde que os Estados Unidos abandonaram o padrão câmbio-ouro no início dos anos 70.

Para explicar as flutuações do câmbio de forma mais prática e didática, Sandroni criou alguns jogos sobre o tema, entre eles um que foi batizado de “Ataque Especulativo – O Jogo da moeda forte contra a moeda fraca” utilizado em suas aulas e palestras. Clique aqui para jogar .

Jogo simula operações no mercado de câmbio
Divulgação
Jogo simula operações no mercado de câmbio

Na versão mais recente do jogo, que acaba de ser lançada, o sistema define a moeda com a qual o jogador vai atuar. Entre as opções estão o dólar, o real, o yuan o euro ou o peso argentino.

O candidato a operador do mercado de câmbio recebe o equivalente a US$ 1 mil na moeda definida e tem como objetivo chegar ao fim do jogo, após 50 rodadas, com um valor maior do que possuía no início da simulação.

Para atingir esse objetivo será necessário realizar operações, especulativas ou não, no mercado monetário.

Com o jogo, fica mais fácil entender os efeitos da guerra cambial que se tornaram mais evidentes este ano com a rápida valorização das moedas de países emergentes. Segundo Sandroni, o movimento foi causado por conta de enormes desequilíbrios provocados pela crise na economia americana, iniciada em 2008, dos problemas fiscais e do alto endividamento de diversos países europeus e da forte intervenção feita pela China na cotação da moeda do país, o yuan.

“Muitos países, até mesmo os que adotam o câmbio flutuante, têm feito intervenções no sentido de desvalorizar suas moedas, a chamada flutuação suja”, diz Sandroni. “Essa é uma tentativa para tornar mais competitivas as exportações e buscar algum crescimento em um cenário de economias estagnadas ou com baixo crescimento”, acrescenta.

De acordo com Sandroni, o caso da China evidencia bem o problema cambial no mundo. “A China entrou com maior força e violência no mercado internacional em 1994, mas já era uma grande exportadora”, explica. “E depois disso houve uma desvalorização de cerca de 40% no yuan. A partir desse momento a história da China é de acumulação de reservas e crescimento com base em moeda desvalorizada, mão de obra barata e degradação ambiental”, diz.

Paulo Sandroni, professor da FGV: flutuação intensa na cotação das moedas existe desde que os EUA abandonaram o padrão câmbio-ouro nos anos 70
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Paulo Sandroni, professor da FGV: flutuação intensa na cotação das moedas existe desde que os EUA abandonaram o padrão câmbio-ouro nos anos 70

Comportamento do câmbio no Brasil

Este ano o dólar tem operado com grande volatilidade e registra queda de 2,26% no acumulado até 7 de dezembro.

No ano passado, a moeda americana apresentou queda de mais de 25% em relação ao real devido aos reflexos da crise financeira nos Estados Unidos e da entrada de capital externo em busca de uma melhor remuneração para investimentos.

O capital externo foi atraído para o Brasil devido à taxa de juros elevada, atualmente a Selic está em 10,75% ao ano, e pelos bons fundamentos da economia local que atravessou o período mais turbulento da crise sem maiores problemas.

Para evitar uma maior valorização do real em 2010, o Banco Central tem feito leilões cambiais na tentativa de manter a taxa de câmbio com poucas oscilações e aproveitando para elevar as reservas do País, atualmente em US$ 286,6 bilhões.

Outra medida implantada pelo ministério da Fazenda em outubro foi a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos estrangeiros em renda fixa de 2% para 6%.

Segundo alguns especialistas, apesar de as projeções preliminares indicarem uma continuidade das pressões sobre o câmbio com a valorização do real, ainda não é possível prever com exatidão os efeitos desse cenário para o Brasil em 2011.

Fatores internos, como a evolução da taxa de juros, e externos, como um desfecho favorável para a crise fiscal na Europa e a recuperação da economia americana, podem influenciar o cenário cambial.