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Para ministro Moreira Franco, da SAE, ambiente institucional brasileiro não favorece trabalho, competitividade e inovação

Se Mark Zuckerberg fosse brasileiro, o Facebook não teria saído do âmbito das universidades, avalia o ministro Wellington Moreira Franco, da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Segundo ele, o principal desafio para o Brasil atingir o grau de economia plenamente desenvolvida é a melhora do ambiente em que se encontram os jovens profissionais. “O ambiente institucional do Brasil é muito desfavorável ao trabalho, à competitividade e à inovação.”

A SAE promoveu na semana que passou um seminário que debateu os desafios para a nova classe média brasileira. Como resultado do evento, ficaram propostas para melhorar a educação e capacitação dos profissionais brasileiros e uma ideia de criar uma bolsa para trabalhadores com renda de até dois salários mínimos.

Veja, a seguir, os principais trechos de entrevista concedida por Moreira Franco ao iG:

Moreira Franco: política social sem crescimento é assistencialismo
Agência Brasil
Moreira Franco: política social sem crescimento é assistencialismo
iG: Quais foram os principais resultados do seminário “Origens e desafios da nova classe média brasileira”?
Moreira Franco:
Procuramos juntar pela primeira vez as pessoas que estão tratando nesse assunto para entendermos quem são os membros da nova classe média. Sabemos que eles se colocam hoje em um nível de consciência maior, são atores capazes de realizar seus sonhos de consumo e de emprego. Daí a procura por ensino ser relevando. É uma visão diferente do que se tinha até então. Para o jovem de classe média, o diploma não é para ficar na parede ou para massagear ego, mas para conquistar de maneira mais competitiva o melhor posto de trabalho. Muitos deles pagam o próprio curso.

iG: O que se pode fazer por esses jovens?
Moreira Franco:
Eles ainda não têm compromissos com alguns valores que estamos introduzindo nessa segunda geração de políticas públicas que fazemos aqui na SAE. Valores como meritocracia e igualdade de oportunidades. Eles não têm padrinho, não tem pai médico, advogado ou diplomata. Eles só têm a eles e a sua capacidade de trabalho. Daí a necessidade de trazermos para a prática do dia-a-dia deles valores como a meritocracia. Essa é a única maneira de garantir a esse contingente de jovens a possibilidade de realizar-se como cidadão.

iG: Como as políticas públicas podem estimular isso?
Moreira Franco:
Um exemplo já foi adotado pela presidenta Dilma Rousseff, que no programa Ciência sem Fronteiras introduziu critérios que estão calcados no mérito. Ela definiu um teto de 600 pontos e aí as universidades e os alunos escolhidos são aqueles que têm nota acima isso. Você está priorizando aquele que se empenhou mais, que ralou. São esses valores que temos de colocar em todas as políticas sociais. Como também temos de trabalhar com a hipótese da segunda chance. Quem tem grana tem segunda chance.

Temos muita oferta de
cursos para quem não trabalha, mas falta para quem tem emprego. Isso poderia
tornar a mobilidade profissional menor

iG: A educação, portanto, é o elemento mais relevante para garantir a perpetuação da nova classe média?
Moreira Franco:
O principal vetor é a educação, pela qualificação do profissional. Mas isso só não é suficiente. Uma política social é como se déssemos garras às pessoas para que aproveitem as oportunidades que surgem do processo de crescimento econômico. Então não há política social sem um ambiente de crescimento. Portanto, se não houver crescimento, é assistencialismo. A questão é nos perguntarmos por que alguns subiram e outros, não. Vamos iniciar no Brasil um hábito de avaliar seu próprio trabalho. Queremos dar um redimensionamento às políticas atuais e formular novas políticas.

iG: Uma das políticas para isso seria a criação da bolsa para a classe média ?
Moreira Franco:
Essa é uma das ideias, mas existem várias outras. Por exemplo, abrir a possibilidade de oferecer mais qualificação a quem está trabalhando. Temos muita oferta de cursos para quem não trabalha, mas falta para quem tem emprego. Isso poderia tornar a mobilidade profissional menor do que a atual. As pessoas entram e saem das empresas com rapidez enorme atualmente. Tem que gerar um ambiente de trabalho em que experiência seja um patrimônio. Isso permitirá melhorar a produtividade. Queremos propor às empresas estimular os funcionários, dando a eles um sentimento de identificação com aquele ambiente.

iG: O ambiente é o principal entrave para o desenvolvimento maior desses jovens?
Moreira Franco:
O ambiente institucional do Brasil é muito desfavorável ao trabalho, à competitividade e à inovação. Temos que começar a fazer mudanças pontuais. Os jovens, sobretudo, já estão quase que sendo empurrados a ter esse sentimento. O problema é que o ambiente institucional é hostil. Se esse rapaz que criou o Facebook morasse no Brasil, estaria lascado. Ele até poderia estar nas nossas melhores universidades, mas ele criaria aquela rede e ficaria naquilo, dentro da escola. Não há quem invista em inovação assim aqui. O governo não dá garantias melhores para o risco de alguém que está investindo em quem está inovando. Aqui só se apoia o investimento para as empresas. Ao pequeno resta ir ao banco privado, que exige uma quantidade de garantias que, se ele tivesse, não os procuraria.

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