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China segue liderando expansão; aperto monetário nos Brics deve reduzir crescimento de 4,8% projetado para 2010 para 4,2% em 2011

O avanço da inflação nas principais economias emergentes, como China, Brasil e Índia, e as medidas que estão sendo adotadas por esses países para tentar conter a aceleração nos preços vão reduzir o crescimento dessas economias em 2011, com reflexos na economia mundial.

Nesse cenário, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê crescimento global este ano de 4,2% em comparação com a expectativa de uma expansão mundial de 4,8% em 2010. O crescimento nas nações emergentes, segundo o FMI, deve desacelerar para 6,4% em 2011, ante uma previsão de expansão de 7,1% para 2010.

Desde o início da crise financeira internacional, em setembro de 2008, o crescimento global está sendo sustentado pelo avanço das economias de países em desenvolvimento. Mas as autoridades econômicas nessas regiões estão usando mecanismos como a elevação da taxa de juros, entre outras medidas, para tentar conter a pressão inflacionária, especialmente nos alimentos.

Daniel Tenengauzer, chefe do departamento de economia e estratégia de investimentos para mercados emergentes do Bank of America Merrill Lynch, acredita que o mundo crescerá menos com a inflação em alta, principalmente na China e no Brasil, os dois maiores países emergentes.

Tenengauzer projeta que a inflação na China deve ficar em 4,5% em 2011, contra 3,3% em 2010. “Acredito que a política monetária provavelmente vai sofrer um aperto na China e no Brasil no início do ano”, avalia. Até novembro, o índice de preços ao consumidor na China acumula alta de 5,1% em 2010.

“Este movimento de política monetária, somado às medidas já tomadas no ano passado, devem provocar uma redução do crescimento no Brasil de 7,3% em 2010 para 4,1% em 2011. Para a China, estamos prevendo um declínio no crescimento de 10,3% em 2010 para 9,1% em 2011”, diz o economista.

Os Brics e a inflação

(*) Projeções FMI

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Fonte: FMI e IBGE/ O número de 2010 para a inflação no Brasil considera o resultado final do IPCA

A China adotou uma série de medidas econômicas para conter os preços, como duas altas dos juros, uma ligeira valorização da moeda, menor disponibilidade de crédito, controles de preço e iniciativas para erradicar a especulação ilegal em alimentos.

Na sexta-feira o governo chinês elevou a taxa do compulsóriodos bancos em 0,50 ponto porcentual. A decisão segue-se a seis elevações implementadas no ano passado. O compulsório representa a parcela dos depósitos que os bancos são obrigados a deixar no banco central. Quanto maior o compulsório, menor a liquidez na economia. O aumento do compulsório é uma estratégia usada para reduzir o dinheiro em circulação e combater a alta de preços.

Para o executivo-chefe do departamento de Asset Management do banco norte-americano Goldman Sachs, Jim O’Neill, que criou em 2001 o termo Bric para definir o grupo de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China, não se pode generalizar quando se fala sobre a volta da inflação no mundo emergente, mas muitos deles enfrentam uma ameaça comum que é a alta dos preços dos alimentos e do petróleo.

“Dos países do Bric, eu acho que a Índia e a Rússia são mais preocupantes, pois têm âncoras da política interna menos claras”, analisa O’Neill. “A ameaça comum é a alta dos alimentos e de outras commodities. No entanto, continuo muito otimista sobre 2011. O crescimento mundial deverá atingir perto de 5%”, diz.

Para os especialistas, apesar das projeções que apontam contração econômica, a China continuará sendo o motor do crescimento para muitas economias este ano, especialmente para os países exportadores de commodities, como o Brasil.

Pressão inflacionária

O Brasil registrou inflação pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 5,9% em 2010, a mais alta em seis anos e acima do centro da meta de 4,5% estipulada pelo governo.

“A formação de preços em 2011 segue pressionada. Com alguns reajustes de contratos indexados pelo desempenho da inflação passada, como a medida pelo IGP-M, por exemplo, esse comportamento acaba contaminando a inflação presente”, diz Tatiana Pinheiro, economista do Banco Santander.

Esse movimento, segundo os analistas, aumenta as chances de que a taxa de juros Selic, atualmente em 10,75%, suba para 11,25% na reunião desta semana do Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central, seguida de mais duas altas, até atingir 12,25% ao ano, com efeito sobre o crescimento.

A taxa Selic mais elevada deve encarecer o custo do crédito e reduzir o interesse por um dos principais instrumentos financeiros utilizados pela população para o consumo. Mas essas medidas acabam estimulando a entrada de recursos externos em busca da remuneração oferecida pelo Brasil. Desde 2009, o real se valorizou cerca de 40% em relação ao dólar o que torna as exportações do País menos competitivas.

Para evitar novos aumentos dos juros, o governo federal estuda fazer cortes no orçamento e reduzir os gastos públicos.

Na avaliação de Tenengauzer, do Bank of America Merrill Lynch, uma recuperação mais vigorosa da economia dos Estados Unidos e da Alemanha nos próximos meses pode compensar o crescimento mais lento nos mercados emergentes em 2011. “Mas também pode significar um aperto monetário mais agressivo nas economias emergentes.”