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O risco de uma desaceleração mundial interromper o ciclo de ganhos vigorosos das empresas brasileiras tem estimulado o desenvolvimento de um mercado pouco explorado no País: o seguro de crédito doméstico. Trata-se de uma modalidade que garante à empresa o recebimento de suas vendas a prazo em casos de atraso, falência ou concordata do cliente.

De janeiro a maio, a busca pelo produto cresceu 83% em relação ao mesmo período de 2007, com prêmios que somam mais de R$ 50 milhões. Os valores segurados ultrapassam R$ 30 bilhões.

No mundo, a modalidade existe desde o pós-guerra, quando foi usada para reestabelecer as exportações interrompidas. Atualmente as apólices garantem mais de US$ 2,15 trilhões em faturamento das empresas, especialmente na Ásia e Europa.

Por aqui, as primeiras seguradoras chegaram na década de 90, mas ganharam atenção nos dois últimos anos, explica o presidente da Coface no Brasil, Fernando Blanco. O grupo francês detém 61% do mercado brasileiro e já garante receitas da ordem de R$ 20 bilhões. Até maio, o volume de receitas da companhia havia crescido 212%, de R$ 10 milhões para R$ 32 milhões.

Blanco explica que, com o crescimento da economia interna, as empresas passaram a vender volumes expressivos de mercadorias a prazo. "Isso despertou a cautela das multinacionais com o grau de alavancagem de suas filiais no País. Com a crise mundial, acendeu-se a luz vermelha", afirma.

Entre os setores que mais têm recorrido ao seguro de crédito estão eletroeletrônicos, automobilístico, químico, petroquímico, farmacêutico e alimentos. "Aos poucos as companhias estão se dando conta de que correr risco de crédito é coisa para banco", diz Blanco, cujo grupo administra uma carteira de 500 bilhões no mundo.

A multinacional japonesa Ajinomoto assegura seu faturamento. "Nossa carteira de clientes é muito diversificada, com grandes e pequenos produtores. Isso exige cuidado", diz o diretor da divisão de nutrição animal da empresa, Ferdinando Credidio. Segundo ele, esses clientes sofrem influências do mercado internacional, como barreiras fitossanitárias, que acabam impactando sua saúde financeira.

Nem todas as companhias, no entanto, gostam de contar que são protegidas por um seguro de crédito. Elas temem que os clientes passem a dificultar o pagamento à empresa por ter a receita garantida. O diretor de uma multinacional, que atua em setores como higiene e agronegócio, afirma que acabou de contratar uma apólice por causa das incertezas em relação ao futuro.

O executivo argumenta, no entanto, que não aderiu ao seguro antes por causa das condições oferecidas pelas seguradoras. "Agora, elas estão mais flexíveis e com um custo atraente", afirma o executivo, que no ano passado teve grandes prejuízos por causa da concordata de um cliente.

Para o diretor da Crédito y Caucion, Flávio Navaho, as seguradoras vieram para o Brasil para atender o mercado de filiais de grandes multinacionais, que já tinham seguro no exterior. Há pouco tempo, voltaram suas atenções para empresas de médio porte. A seguradora espanhola começou a operar no Brasil em 2007 e já atua em sete segmentos.

Navaho afirma que o Brasil tem um mercado potencial da ordem de R$ 350 bilhões, mas ressalta que será preciso esforço para atrair esses clientes. "Demanda tempo para disseminar a cultura do seguro de crédito no País", destaca o executivo. Ele acredita que em cinco anos a seguradora possa disputar a liderança do mercado com a Coface.

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