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Comunidade do país cresce mais rápido que a inglesa, a americana e a alemã na região, abre restaurantes, lojas e galerias de arte

Os franceses Gregory Joinau-Baronnet e Guillaume Fortin agora vendem vinhos de alta qualidade e água mineral de sua terra natal em Hong Kong.
Bettina Wassener, NYT
Os franceses Gregory Joinau-Baronnet e Guillaume Fortin agora vendem vinhos de alta qualidade e água mineral de sua terra natal em Hong Kong.
Gregory Joinau-Baronnet chegou a Hong Kong há cerca de um ano, com pouco mais do que algumas malas. Na França, Joinau-Baronnet era um corretor imobiliário especializado em vender vinícolas e outras propriedades relacionadas à produção de vinho. Mas seus negócios ficaram estagnados quando a crise financeira de 2008 começou. "Eu precisei me mudar" afirmou Joinau-Baronnet, 31 anos.

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Em janeiro do ano passado, ele pegou um avião para um lugar que ele sabia que estava crescendo: Hong Kong, que atualmente atrai mais imigrantes da França que dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha. Ele fundou a Jetson Trading, um pequeno negócio que vende vinhos de alta qualidade e água mineral de sua terra natal, Bordeaux. Guillaume Fortin, outro francês que chegou no ano passado, se juntou a ele como gerente de vendas.

À medida que empresas de luxo invadem a Ásia, empresários franceses chegam junto com elas, atendendo aos novos ricos asiáticos com um savoir faire que está mudando a face das comunidades tradicionalmente anglo-saxãs de Hong Kong e de Cingapura. (As duas cidades são os principais destinos em razão da funcionalidade de seu sistema legal e do acesso ao mercado da China continental e do sudeste asiático.)

O fluxo de ocidentais que vão para a Ásia em busca de trabalho, oportunidades de negócios e experiência internacional para o currículo aumentou nos últimos anos e os franceses lideram o crescimento, afirma James Carss, executivo sênior da Hudson, uma empresa de recrutamento em Hong Kong.

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A comunidade francesa em Hong Kong aumentou mais de 60% desde 2006 e agora já conta com mais de 10 mil pessoas, de acordo com o consulado francês da cidade. Em Cingapura os números quase dobraram, passando a 9,2 mil durante o mesmo período.

Os franceses também estão se mudando para a China continental, para Bangkok e para o sul da Índia, à medida que marcas francesas associadas ao luxo, a alimentos e vinhos de primeira qualidade, ao sistema bancário e a outros setores desejam que cidadãos franceses as ajudem a se estabelecer no mercado internacional.

"A Ásia, de um modo geral, está crescendo muito - particularmente a China", afirmou Arnaud Barthelemy, o cônsul geral da França em Hong Kong. "As empresas francesas devem o seu crescimento a essa região", afirmou, destacando que muitas delas têm subsidiárias ou sedes regionais na cidade.

Ainda há cerca de 10 vezes mais americanos e muito mais britânicos do que franceses na cidade, que é uma região administrativa especial da China. Mas o número de moradores americanos e britânicos cresce lentamente: ele aumentou menos de 10% desde o fim de 2006. A comunidade alemã se manteve mais ou menos a mesma.

Um dos contrapontos de se montar negócios na Ásia é o preço dos aluguéis em cidades como Hong Kong.
Wikimedia Commons
Um dos contrapontos de se montar negócios na Ásia é o preço dos aluguéis em cidades como Hong Kong.
O influxo de franceses pode ser ouvido, visto e sentido em toda a cidade. Caminhe pelos bairros mais agitados ou pelos shoppings de luxo de Hong Kong e é provável que você encontre pessoas falando francês - a chance é muito maior que há dois ou três anos. A escola internacional francesa está crescendo rapidamente. Restaurantes dirigidos por franceses se multiplicaram.

O Pastis, um pequeno restaurante no Distrito Central de Hong Kong, é o principal ponto de encontro dos franceses desde que foi aberto, no final de 2009. Ao menos dois outros restaurantes franceses foram abertos nos últimos meses. Existe até mesmo um café com três quadras de boules, um jogo popular na França, escondido em um porão na ilha de Hong Kong.

Hong Kong é o paraíso para os compradores vindos da China, que se beneficiam dos baixos impostos sobre muitos produtos, transformando a cidade em um importante local para qualquer um que queira atender aos consumidores chineses. Isso também ajudou a assegurar que a comunidade francesa em Hong Kong se tornasse a maior na Ásia.

Fanny Duguet é um bom exemplo. Ela se mudou para cá com o marido e os dois filhos pequenos em agosto, enviada por sua empresa, a gigante dos artigos de luxo Richemont, para ajudar com a expansão da empresa na região.

De forma mais independente, Edouard Malingue, um marchand de 38 anos vindo de Paris, concluiu que Hong Kong oferecia melhores perspectivas para uma nova galeria de arte do que a Europa ou os Estados Unidos.

Malingue se mudou para Hong Kong em setembro de 2009 e abriu sua galeria no distrito financeiro um ano mais tarde. Como outros empresários, ele foi atraído pela falta de burocracia e pela relativa facilidade para se abrir um negócio.

Contratempos

Contudo, Hong Kong também tem os seus desafios. Os comerciantes precisam trabalhar mais que na Europa ou nos Estados Unidos para cultivar gostos e hábitos entre seus clientes, que talvez não conheçam seus produtos nem o estilo de vida que eles representam.

Em Hong Kong, Malingue destacou, "não existe o costume de visitar galerias como na Europa. É preciso se esforçar mais para chamar a atenção das pessoas". Apesar dos desafios, Malingue afirmou que a galeria está indo bem.

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Enquanto isso, a concorrência em muitos setores é ferrenha, à medida que as empresas correm para entrar em ação. Os salários, quando não são aumentados pelos benefícios cada vez mais raros dados aos estrangeiros, ficam aquém das expectativas dos ocidentais. Empregadores locais e estrangeiros geralmente preferem pessoas que já possuem experiência na Ásia e as competências linguísticas correspondentes, afirmou Carss, o executivo de recrutamento.

Além disso, os aluguéis comerciais e residenciais são astronômicos. Joinau-Baronnet, por exemplo, está prestes a abrir uma loja em Tsim Sha Tsui, um bairro menos popular entre os ricos de Hong Kong do que o bem frequentado Distrito Central, com suas lojas luxuosas. Mesmo assim, o aluguel do pequeno espaço onde ele se instalou é quatro vezes mais alto do que um local equivalente em Bordeaux e duas vezes mais caro que em Paris, segundo ele.

Mas ele segue inabalado. Além de sua nova loja em Hong Kong, ele planeja abrir uma segunda loja na vizinha Shenzhen ou em Guanzhou no ano que vem.

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