Tamanho do texto

BRASÍLIA - Os presidentes da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, reúnem-se hoje para discutir a crise entre os poderes a partir da denúncia de que o serviço secreto do governo espionou sistematicamente dirigentes do Judiciário e do Legislativo. Segundo o Palácio do Planalto, Lula só vai se posicionar após ouvir as exigências de Mendes com relação a providências imediatas.

Acusada de espionar, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) decidiu abrir sindicância e pediu que o Ministério da Justiça e a Procuradoria Geral da República também sejam acionados para tomar providência com vistas à adoção das medidas investigatórias cabíveis para o esclarecimento dos fatos em toda sua extensão .

Os onze ministros do Supremo também farão uma reunião fechada às 16h, em conselho . O presidente do PSDB, Sérgio Guerra, convocou uma reunião da Executiva Nacional para discutir o assunto, na quarta-feira. esse tipo de atentado, além de ilegal, é uma grave ameaça contra os direitos e os valores democráticos duramente conquistados pela sociedade brasileira , disse o presidente tucano.

Além do líder Arthur Virgílio, outros senadores do PSDB tiveram supostamente os telefones grampeados: Tasso Jereissati (CE) e Álvaro Dias (PR). Há um petista na lista: Tião Viana (AC), que é virtual candidato à presidência do Senado.

A denúncia segundo a qual a Abin espionara o presidente do Supremo, o presidente do Congresso e líderes da oposição, como o senador Artur Virgílio (PSDB-AM), foi publicada na última edição da revista Veja . De acordo com a revista, também o chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, fora objeto da espionagem oficial.

A revista transcreve uma conversa ocorrida entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), relator da CPI da pedofilia, na qual o senador pede ajuda ao ministro em relação a um juiz de Roraima que estaria criando dificuldades para a tomada de depoimento de uma testemunha na comissão de inquérito.

Em nota, a Abin afirmou que reiterava sua confiança no corpo funcional da instituição e espera que os fatos apresentados na reportagem sejam definitivamente esclarecidos .

Além de Gilmar Mendes, que chegou a referir-se à existência de um estado policialesco e classificou as interceptações telefônicas de crime extremamente grave , as reações mais duras partiram do Congresso. O presidente do Senado, Garibaldi Alves, que só irá a Brasília amanhã, conversou com Gilmar Mendes sobre as providências a serem adotadas no âmbito do Congresso. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse que um representante da Abin pode ser chamado para prestar esclarecimentos.

O presidente da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), cobrou do presidente Lula o afastamento dos dirigentes da Abin como prova de que o governo não é conivente com esses métodos. Fortes também acusa o diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, de ter faltado com a verdade quando, em depoimento na CPI dos Grampos, negou, recentemente, o envolvimento de subordinados em atividades ilegais.

O senador prometeu apurar todos os fatos e afirmou, por meio de nota distribuída ontem à imprensa, que, se os grampos ilegais forem confirmados, esse será um dos fatos mais grave ocorridos nos dois mandatos do presidente Lula. De acordo com a nota, há sinais de que existe um poder paralelo de espionagem funcionando dentro dos dois principais sistemas de informação do Estado: a Abin e a Polícia Federal.

No sábado, por meio de nota divulgada na página da Abin na internet, o diretor-geral Paulo Lacerda determinou à Corregedoria-Geral a abertura de sindicância para apurar se funcionários da agência envolveram-se nas interceptações telefônicas ilegais. Também informou que mandará ofício ao ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, general Jorge Félix, para que sejam acionados a Procuradoria-Geral da República e o Ministério da Justiça.

Ontem, o líder da bancada do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal, também divulgou nota lamentando a instauração de um poder paralelo, criminoso e antidemocrático, semelhante em ação às milícias e ao tráfico de drogas, que se escondem sob o manto nebuloso da clandestinidade . Os tucanos exigem que o presidente Lula dê satisfação imediata à sociedade sob pena de permitir a dedução de que é conivente com a realidade policialesca que teima em tentar se instalar no Brasil, fato que parece ser verdade já que assinou medida provisória criando cerca de 400 cargos para a Abin .

(Raymundo Costa e Arnaldo Galvão | Valor Econômico)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.