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O grupo das cinco principais economias emergentes, o G-5, pretende cobrar do G-8, grupo dos sete países mais ricos do mundo mais a Rússia, a adoção de mecanismos de controle sobre o movimento de capitais especulativos nos mercados futuros de petróleo e de alimentos e de supervisão de políticas macroeconômicas. Durante um rápido encontro preparatório, na cidade de Sapporo, no Japão, os chefes de Estado da África do Sul, do Brasil, da China, da Índia e do México concordaram que, apesar da relevância da discussão sobre a mudança climática, a prioridade do mundo em desenvolvimento está no desafio de curto prazo de combate à alta dos preços internacionais das commodities agrícolas e do petróleo - gerada especialmente pela especulação proveniente de atores dos países mais ricos - e à conseqüente escalada mundial da inflação.

"Nossa preocupação está centrada no predominante aumento dos preços dos alimentos, que afeta nossas economias e a nossa agricultura familiar. Temos diante de nós o risco de aumento da pobreza nos nossos países e no mundo", afirmou o presidente do México, Felipe Calderón, que coordenou a reunião de Sapporo, cidade da ilha de Hokkaido que está a 200 quilômetros do hotel onde os líderes do G-8 realizam seu encontro anual. "Enfrentar esse desafio requer maior diálogo e colaboração Norte-Sul e também Sul-Sul, para o qual o G-5 é um instrumento valioso. Precisamos de uma ação coordenada (do G-8 com o G-5) para enfrentar a inflação mundial."

O encontro do G-5 durou cerca de 30 minutos e apenas formalizou a compreensão dos cinco países sobre sua participação mais efetiva e consertada, neste ano, na cúpula do G-8. Durante a discussão, partiu do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, a sugestão de impor maior vigor na mensagem do G-5 de que as economias em desenvolvimento não devem pagar a conta dos deslizes macroeconômicos e da ineficiente regulação dos países mais ricos sobre o sistema financeiro - referência clara aos efeitos da crise no sistema americano de financiamento imobiliário, o chamado subprime - e o mercado futuro de capitais - menção à nova onda de especulação.

Esse recado havia sido ensaiado por Lula na última reunião de cúpula do Mercosul, na Argentina, quando o presidente obteve o apoio de seus colegas sul-americanos. "Há exagero nessa especulação, que decorre da má gerência do sistema financeiro e que saiu do mercado de hipotecas para o das commodities agrícolas e do petróleo", insistiu o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. "Foi uma vitória do G-5, modéstia à parte, que esse assunto seja objeto de discussão (hoje). No longo prazo, todos estaremos mortos se não conseguirmos enfrentar o curto prazo. E o curto prazo é a segurança alimentar, o preço dos alimentos, a inflação, o desequilíbrio macroeconômico do mundo desenvolvido contaminando o mundo em desenvolvimento", completou.

FMI

Amorim disse que a decisão de hoje do G5 não trata de sugerir ao G8 a adoção de fórmulas de "dirigismo econômico", mas de propor a maior coordenação das políticas financeiras adotadas pelos países desenvolvidos e as economias em desenvolvimento e de pressionar para que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial planejem programas orientados a reduzir o impacto da elevação dos preços dessas commodities.

A sugestão técnica brasileira para contornar o atual cenário de escalada inflacionária mundial deverá ser apresentada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, na próxima reunião de primavera do FMI. Mas o chanceler acrescentou que o Banco Mundial, especialmente, pode contribuir com o financiamento de projetos de produção de fertilizantes e de infra-estrutura nos países em desenvolvimento - solução que contribuiria para ampliar as colheitas em vez de levar a uma indesejável redução do ritmo do crescimento econômico na China e na Índia. "Ninguém quer que a demanda da China e da Índia seja reduzida", afirmou.

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