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Evitar usar a intuição é uma das cinco dicas da avaliadora Hilco para que o microempresário não se perca na hora de atribuir valor

A sua empresa pode ter um valor inestimável para você e sua família. Mas na hora de pedir um financiamento no banco ou de fazer um seguro, o sentimentalismo não vai contar a seu favor. Por isso, vale a pena deixar o coração e a intuição de lado e adotar certo distanciamento para atribuir valor ao seu negócio.

Sabendo da dificuldade dos empresários para avaliar diferentes aspectos de suas empresas, Antônio Lopez, diretor da avaliadora de companhias Hilco Appraisal Brasil, elaborou um pequeno guia com cinco pontos relevantes que podem ajudar na avaliação. Veja abaixo:

1) Lucro: A avaliação da empresa começa pelo conhecimento do lucro do negócio, diz Lopez. Mas a maior dificuldade dos empresários, segundo o especialista, é de ter uma contabilidade organizada. Muitos não têm balanços dos últimos anos, não sabem o que é Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e não têm perspectivas para lucros futuros condizentes com a realidade. Segundo ele, é imprescindível ter contabilizados os ganhos anteriores e as estimativas para o futuro, sendo que os lucros futuros devem ser trazidos a valor presente.

Muitas vezes os empresários afirmam que o contador é honesto, como se isso fosse justificativa para não ter todos os números de anos anteriores e projeções contabilizados, diz Lopez. "Mas não se trata apenas disso. Hoje já é necessário ter mais rigor com as demonstrações contábeis." Ele comenta que mesmo os negócios menores já estão sendo mais controlados pelo fisco. "Logo as leis para grandes empresas serão aplicadas a todas, então é bom já seguir padrões,” diz Lopez.

Ainda neste aspecto, os empresários devem avaliar a longevidade do negócio, que pode estar entre 5 e 30 anos, dependendo de sua dependência tecnológica, por exemplo. “Negócios mais tradicionais e menos dependentes de atualização tendem a ter maior longevidade, o que significa mais valor,” diz.

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2) Ativos:

Quanto mais independente dos ativos, mais valor tem o negócio
Getty Images
Quanto mais independente dos ativos, mais valor tem o negócio
Quanto mais independente dos ativos, mais valor tem o negócio. Essa avaliação costuma não receber a devida atenção dos empresários, segundo Lopez, uma vez que eles tendem apenas a considerar os valores dos ativos, principalmente aqueles cujas compras foram registradas.

A dica do especialista é que o empresário para acertar neste quesito é verificar o quão prejudicado seria com a falta de um dos ativos. “Por exemplo, uma fábrica de parafusos exige máquinas operatrizes que podem ser facilmente repostas no mercado. Neste caso, o empresário terá maior valor do negócio independente do ativo imobilizado,” diz.

O oposto acontece quando o valor do negócio é constituído basicamente pelo processo industrial e pelas marcas que constituem os produtos, algo comum na indústria alimentícia, por exemplo, onde as marcas são conhecidas pelo consumidor, que deposita confiança nas mesmas.

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3) Passivo: Na hora de avaliar o valor de seu negócio, os empresários não podem esquecer das dívidas trabalhistas, fiscais e tributárias. “A correta apropriação dos passivos é fundamental na determinação do valor do seu negócio, pois os cálculos contábeis desses itens vão ajudar a determinar a saúde financeira da empresa,” diz o especialista da Hilco.

Segundo ele, é comum identificar um certo amadorismo em algumas das pequenas e médias empresas com relação à falta de rigor dos controles contábeis relacionados aos passivos. "Mas quanto mais fácil for para rastrear os acontecimentos da empresa, mais atrativo e confiável será o negócio," afirma.

4) Clientes: Uma maior base de clientes determina uma maior capilaridade e, por sua vez, uma maior atratividade do negócio, diz Lopez. Além disso, quanto maior influência e abrangência regional, mais valor terá uma empresa. Ele explica que a relação é assim pois, ao ter mais clientes, e em regiões diversas, a empresa reduz seus riscos. Se perde um cliente - ou se tem um problema em uma região -, poderá contar com os demais para manter a atividade.

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5) Marca: O valor que se pode atribuir a uma marca depende de sua notoriedade. “Quando a marca não é notória, muitas vezes seu valor se confunde com outros valores do negócio, como o valor do fundo do comércio, que, em outras palavras, é o lucro futuro trazido a valor presente,” diz Lopez.

A complexidade para se obter o valor da marca é grande pois esse quesito envolve a análise de mercado, o fundo de comércio, a capacidade de alavancagem (de lançamento de novos produtos) e a amplitude geográfica da ação da marca. Em geral, quanto mais ligada ao consumidor, mais vale a marca.

Quanto menos notória pelos clientes, menos ela vale. “Por mais paixão que o dono tenha por sua marca, ele tem que saber que pode ser que ela não valha nada. Muitas vezes é o ponto que vale mais. Ou seja, se ele for substituído por outra empresa, o novo empreendimento vai dar certo. Mas o dono do negócio não percebe,” diz Lopez.

Para um cálculo preciso, o empresário deverá procurar um profissional experiente com conhecimentos específicos sobre o mercado de atuação da empresa.

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Nada de intuição

Em todos os aspectos, o especialista sugere que o empresário evite ser intuitivo na hora da atribuição de valor. “A intuição pode levar a diversos erros. Um deles é a supervalorização de alguns bens, feita por uma leitura mais emocional do que técnica. ,” afirma.

Outro erro é a avaliação equivocada de aspectos econômicos. Para ilustrar esta situação, ele diz que um empresário pode ter pagado um valor X por uma máquina importada da Alemanha, por exemplo, a um dólar mais alto. Passados seis meses, a cotação do dólar pode ter baixado e, ao mesmo tempo, fornecedores chineses podem ter passado a vender a mesma máquina a um preço menor. O empresário não percebe que a máquina dele agora vale bem menos do que o X que ele pagou.

Além disso, Lopez lembra que o empresário deve estar sempre preparado para o valor que o banco atribuirá a seus bens quando for pedir um financiamento. Em geral, a instituição bancária aplica um fator de deságio de cerca de 30% sobre o valor de mercado. Se a máquina valia R$ 100 mil, eles podem avaliar como R$ 70 mil.

Por isso, um balanço mais completo e tranparente, um conhecimento técnico mais avançado de seus ativos e passivos e de sua marca podem ajudar bastante na hora das negociações.

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