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Com mais de mil empreendimentos incubados, Afrobrasileira prioriza negócios de negros, pardos e indígenas

Empresária carioca investe em moda
Celso Pupo / Fotoarena
Empresária carioca investe em moda "alternativa" e busca expandir negócio
No ateliê da empresária Marah Silva não tem pretinho básico. Lá, as roupas levam muitos bordados, fitas e cores, num estilo “alternativo”, como ela mesma define. Apesar de hoje ter uma empresa formalizada, clientes fiéis e demanda crescente, nem sempre foi assim. Marah saiu do trabalho por problemas de saúde, em 2004, e teve de ir para a rua, vender camisetas que customizava. Fez sucesso de público, mas a falta de conhecimento empresarial tornou-se um empecilho para abrir seu negócio. Foi então que conheceu a Incubadora Afrobrasileira , que a ensinou a crescer.

Criada em 2004, por Giovanni Harvey, a incubadora fica no Rio de Janeiro e tem como objetivo ajudar empresários com dificuldades sócio-econômicas. Hoje, são mais de mil negócios do ramo de comércio e serviços incubados e um grande número de pequenos empresários saindo da informalidade. No início, a Incubadora Afrobrasileira contou com o patrocínio de R$ 900 mil da Petrobras e R$ 25 mil da Fundação Interamericana (órgão independente do governo dos Estados Unidos que oferece ajuda financeira a organizações não-governamentais e de base comunitária da América Latina e do Caribe). Entretanto, o aumento do número de interessados fez com que no ano passado a Petrobras destinasse novo patrocínio, de R$ 1,5 milhão para a entidade. “Uma das principais dificuldades dos empreendedores iniciantes é a falta de um plano de negócios. Muitas vezes só há ideia, mas faltam estrutura e análise de sua viabilidade”, afirma Tarcísio Ribeiro de Abreu, professor do Ibmec. “As incubadoras são fundamentais na orientação desses empresários já que simulam realidades, oferecem suporte e consultorias, além de avaliar seu potencial de mercado.”

Na Incubadora Afrobrasileira não há financiamento de projetos, mas a organização fornece apoio aos participantes por meio de palestras, consultorias e apoio logístico. Durante o processo seletivo dos empresários, a Incubadora dá prioridade a negros, pardos ou indígenas, mulheres, aqueles com menor grau de escolaridade e que tenham elevado número de dependentes. Além disso, outras etapas do processo investigarão possíveis fatores de vulnerabilidade social (como já terem sido vítimas de preconceito) e avaliarão também o potencial do negócio. “Nossa principal diferença é que temos como prioridade reduzir a falta de oportunidade para os negros”, diz Harvey, diretor executivo da Incubadora.

Apesar da Afrobrasileira não restringir a participação de empresários brancos, cerca de 70% dos participantes são negros ou pardos, e 80% mulheres. Também é predominante na incubadora a presença de micro e pequenos empreendedores informais, sendo um desafio retirá-los dessa condição. Por isso, a Afrobrasileira fornece cursos e informações sobre planejamento de negócios. “Percebi que apenas qualificação profissional não reduzia a desigualdade”, diz Harvey. “Por isso, os ajudamos com consultorias, desenvolvimento de marcas, apoio logístico e acompanhamento posterior ao período de incubação.”

Foi por meio desse aprendizado que Marah conseguiu abrir o Ateliê Cretismo, que hoje fatura quase R$ 100 mil ao ano. A empresária desenha e fabrica as roupas de sua marca com a ajuda de costureiras, além de terceirizar alguns serviços. “O meu negócio era muito pequeno, mas consegui formalizá-lo”, diz.

Após um curso de ourivesaria, Lúcia decidiu investir na fabricação de jóias
Divulgação
Após um curso de ourivesaria, Lúcia decidiu investir na fabricação de jóias
Uma boa oportunidade

Como Marah, a empresária Lúcia Beatriz Perrone também descobriu na Incubadora uma oportunidade para desenvolver seu negócio. Formada em Direito e Artes Plásticas, Lúcia decidiu fabricar jóias em prata após fazer, em 2003, um curso de ourivesaria. Percebeu, no entanto, que a falta de conhecimento em gestão era um empecilho para deslanchar seu empreendimento. “Na incubadora, frequentei cursos, descobri os pontos francos de meu negócio e consegui ajuda para desenvolver uma marca e embalagem”, afirma Lúcia. “Em 2007, durante a incubação, criei minha loja virtual e está dando certo.”

Abdias Chagas Leite é outro empresário que espera conseguir se formalizar por meio do auxílio da Afrobrasileira. Com uma marcenaria no Rio de Janeiro, Leite entrou na Incubadora desde setembro de 2010 e já vê resultados positivos para seu negócio. “Está sendo muito bom porque não tinha conhecimentos sobre a área financeira, propaganda e marketing”, diz. Com as novas perspectivas, o marceneiro já pensa em investir em equipamentos, informações técnicas e se formalizar como microempreendedor. “Procurei a Afrobrasileira para conseguir mais preparação no mercado e me regularizar.”