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Coreanos perdem espaço na indústria multibilionária de produtos de beleza para negras

NYT

Não há nada de incomum na fachada da loja de Judian e Kadeian Brown, próxima à Church Avenue em Flatbush, no Brooklyn, bairro em Nova York (Estados Unidos) onde cada quarteirão parece ter seu próprio salão de penteado afro.

Cartazes de afro-americanas com belos cabelos longos preenchem a janela; frascos de manteiga de karité ficam ao lado de caixas de tintura de cabelo nas prateleiras; as perucas, empoleiradas nas cabeças de manequins.

Kadeian Brown (à esq.) e Judian Brown: empresárias administram a loja Blck Girls Divine Beaty, no Brooklin
Kirsten Luce / The New York Times
Kadeian Brown (à esq.) e Judian Brown: empresárias administram a loja Blck Girls Divine Beaty, no Brooklin

O que faz os visitantes do Black Girls Divine Beauty Supply & Salon olharem duas vezes é a cor da pele das proprietárias. "Eu digo: 'Olhe para todas as mulheres das embalagens; quem deve ter um negócio desses?'", diz Judian Brown, recordando-se da surpresa dos comerciantes e clientes ao perceberem que ela não é funcionária, mas a proprietária.

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A loja das irmãs Brown é apenas uma de uma indústria multibilionária, centrada em algo que é motivo de orgulho e um ponto politicamente delicado para as negras: o cabelo. Mas as duas estão entre os poucos proprietários negros das cerca de 10 mil lojas que vendem produtos para cabelos como relaxantes, cremes para cachear e perucas para mulheres negras, não só em Nova York, mas em todos os Estados Unidos.

A grande maioria é de proprietários coreanos, fenômeno que remonta à década de 1970 e que tem gerado tensão entre os consumidores afro-descendentes e os empresários, pois alguns negros veem a situação como um grupo étnico lucrando com outro – e tentando aliená-lo.

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A consciência desse desequilíbrio tem estimulado mais negros a abrirem seus próprios negócios. Os fabricantes mudaram também: como o visual "natural" tornou-se mais popular – cachos naturalmente texturizados e tranças em vez do cabelo alisado artificialmente – e a internet expandiu, empresários negros, na maioria mulheres, reivindicam uma fatia maior das prateleiras de cosméticos femininos.

"Sabemos aonde vai nosso dinheiro, estamos cientes do poder de nossos dólares, estamos cientes da importância cultural da maneira que escolhemos usar nosso cabelo. Há uma retomada de poder, e muito disso se deve à internet", explica Patrice Grell Yursik, fundadora do Afrobella, blog popular de cabelo natural.

Dezenas de blogueiros frequentam as feiras do ramo para testar novos produtos, avaliá-los para os leitores e divulgar os resultados em redes sociais. Milhares de mulheres assistem a tutoriais sobre penteado natural no YouTube. A linha de Rochelle Graham-Campbell, a Alikay Naturals, divulgada em seus vídeos do YouTube, está entre as mais bem sucedidas marcas locais, incluindo a Curls e a Oyin Handmade, que ganharam força online e conquistaram um lugar no varejo.

Mesmo assim, nada é mais poderoso do que uma loja física, tanto pela conveniência quanto a oportunidade de tocar e cheirar os cremes, o que levou grupos como o Beauty Supply Institute, em Atlanta, a iniciar treinamentos para os negros que querem abrir suas próprias lojas.

Preconceito de empresários coreanos

Há anos, a propriedade é uma questão que preocupa. Clientes negros se queixam de que gerentes coreanos os vigiam pelas lojas como se suspeitassem de que fossem roubar algo; já alguns lojistas negros acusam atacadistas e fabricantes de peruca, coreanos em sua maioria, de se recusar a fazer negócios com qualquer um que não seja coreano.

Os imigrantes coreanos começaram a entrar no ramo de cosméticos nos EUA nos anos 60, época em que as perucas estavam no topo da lista de exportações da Coreia do Sul. Entrar no mundo do varejo de produtos para cabelo nunca foi fácil.

A Hair Shop é uma das muitas lojas de beleza voltada a consumidora negra na Rua Fulton, no Brooklin
Kirsten Luce / The New York Times
A Hair Shop é uma das muitas lojas de beleza voltada a consumidora negra na Rua Fulton, no Brooklin

E a competição era escassa: até meados do século passado, muitas mulheres negras compravam produtos de vendedoras que iam de porta em porta. Poucas lojas eram dedicadas a produtos para o cabelo. A evasão da população branca acabou fechando muitas lojas e abrindo caminho para os coreanos.

"Muita gente acha que eles estavam acabando com proprietários negros, mas não é o caso", comenta Lori Tharps, co-autora do livro "Hair Story: Untangling the Roots of Black Hair in America" (A História do Cabelo: analisando as origens do cabelo dos negros nos EUA).

"Criavam empresas novas em lugares onde ninguém queria abrir uma loja", explica.

Um ditado entre os imigrantes coreanos diz: "Quem for buscá-lo no aeroporto, lhe dará um emprego", quer com os fornecedores de produtos de beleza, quer com outras empresas dominadas por coreanos, como quitandas, lavagem a seco ou manicures.

Isso foi verdade para Tony Park, de 45 anos, dono do Sugar Beauty Supply na Flatbush Avenue, no Brooklyn. Como muitos outros comerciantes coreanos, ele começou sua carreira na indústria trabalhando em uma loja de um amigo depois de se mudar para os Estados Unidos. Economizou e abriu sua própria loja há quatro anos, batizando-a de American Dream.

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Park explica a conexão coreana com essa indústria: "A maioria dos atacadistas é coreana. Eles falam coreano; eu falo coreano".

Fora de Detroit, Princess Hill está abrindo a segunda loja de produtos de beleza dirigida às mulheres negras em uma área onde empresas de proprietários negros são escassas, parte do que ela chama de um movimento para "tomar o poder das pessoas que me fizeram impotente".

Takeya Daniels escolhe produtos na Neoh Beaty Supplies, no Brooklin
Kirsten Luce / The New York Times
Takeya Daniels escolhe produtos na Neoh Beaty Supplies, no Brooklin

Princess descobriu que teria de encomendar 10 mil boinas para se qualificar para um desconto de 50% e frete gratuito – um negócio impossível, pois só conseguiria vender 100 boinas em um ano.

"O resultado é que os clientes reclamam que nossos produtos podem custar um pouco mais do que o das lojas coreanas e nem mesmo sabem por quê". Outros proprietários negros recebem reclamações, pois não possuem um grande estoque de produtos.

Mas os consumidores mais jovens, com seus cabelos naturais – ou "naturalistas", como alguns os chamam – estão mais conscientes do que nunca e sabem aonde vão seus dólares e que tipo de produto usar.

A cara da nova consumidora

São mulheres como Corinthia Alvarez, de 25 anos, estudante de enfermagem no Brooklyn que passa algumas horas por dia vasculhando o Instagram, assistindo a vídeos no YouTube e lendo comentários para conhecer novos produtos e estilos, para então experimentá-los em si mesma. Ele chega a gastar até US$ 80 por mês com o cabelo.

"Você tem a conta de telefone, a conta da TV a cabo e tem de comprar produtos para o cabelo", afirma Corinthia, na frente da loja na Fulton Street, no Brooklyn, onde os manequins exibem perucas em uma dúzia de estilos e cores.

"Tenho muito orgulho do meu cabelo; se ele não está legal, não me sinto bonita", diz Corinthia.

Há pouco tempo, no sul da Flórida, Rochelle Graham-Campbell, da Alikay Naturals, fez o maior anúncio de sua carreira aos seus quase 100 mil assinantes do YouTube: a linha de cremes orgânicos para cabelo, óleos e condicionadores para mulheres negras, produtos que havia preparado em sua cozinha, estava chegando às prateleiras das lojas Target.

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Hoje com 27 anos, ela começou seu negócio com US$ 100 quando era universitária, anunciando os produtos no YouTube e vendendo pelo site Etsy. Agora seus vídeos atraem até 200 mil visitas dos fãs.

"Querem saber quem está por trás da marca? Você é capaz de entender meu cabelo, você é capaz de entender minha luta e meu trabalho para ser natural?", ela pergunta.

E acima de tudo, acrescentou, ela adora que as mulheres a reconheçam na foto de seus produtos. Dizem que falam para as filhas: "Alguém que se parece com você fez esse produto".

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