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Primeira unidade da Água Doce era um boteco na garagem de Delfino Golfeto; hoje a marca tem 100 unidades

Arquivo pessoal/Divulgação
"Não queria trabalhar com coisa séria ou ser empregado", diz Golfeto, da Água Doce

O empresário Delfino Golfeto foi desde criança atraído pela atmosfera dos bares e restaurantes. Costumava observar, do lado de fora, as mesas iluminadas por pequenas velas, a animação dos frequentadores e o vai e vem dos garçons dos três únicos estabelecimentos da cidade onde nasceu: Tupã, no interior de São Paulo.

Com receio, os seguranças dos estabelecimentos não deixavam Golfeto e outros meninos que viviam na periferia da cidade se aproximarem muito dos restaurantes. Mas costumavam oferecer ao futuro empresário e a seus amiggos restos de comida. Pensavam que Golfeto, que gostava de observar os locais, estava é com fome.

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Mas o empresário acalentava, na verdade, um sonho: o de criar seu próprio restaurante. Golfeto foi boia-fria dos oito aos 17 anos e trabalhou em usinas de cana de açúcar até montar, em 1990, o primeiro boteco de sua rede de franquias, a Água Doce Cachaçaria, na garagem de sua casa. O espaço tinha 30 metros quadrados e 13 mesas.

Hoje, um de seus dois restaurantes próprios, localizado na cidade na qual nasceu, passou por uma reforma de R$ 1,5 milhão em 2013 soma 900 metros quadrados. Além dos dois restaurantes próprios, a rede já tem mais de 100 franquias, distribuídas por dez Estados e no Distrito Federal, e faturou R$ 130 milhões no ano passado. 

Filho de um funcionário público cujo salário tinha de sustentar os cinco filhos e esposa, após seis meses de estudos Golfeto passou em uma "universidade de rico" de uma cidade vizinha com o objetivo de se tornar tecnólogo em açúcar e alcool.

Para sustentar os estudos, o empresário passou a trabalhar em dois estágios e conseguiu renda para, enfim, frequentar os restaurantes que tanto o atraíam. Mas, por outro lado, tinha de ajudar financeiramente seus pais. 

Primeiro jantar custou R$ 2 mil

Foi somente aos 21 anos que Golfeto pôde se sentar em um dos restaurantes que admirava, na cidade de Araçatuba, sem se preocupar com gastos, pois já ganhava um bom salário como técnico de uma usina de cana de açúcar. 

O empresário contou aos garçons, nesta noite, a sua história, e disse que gostaria de aprender como usar os talheres e taças que via sobre a mesa. Exigiu até mesmo uma pequena vela para iluminar o jantar, como aquelas que costumava observar nos estabelecimentos quando criança, devidamente trazida do cemitério mais próximo pelos diligentes funcionários do local.

Um sonho não tem preço. Guardo a conta da primeira vez que fui em um restaurante até hoje" (Delfino Golfeto, presidente da Água Doce)

A conversa com os funcionários se estendeu até às três horas da manhã. Golfeto pagou vinho aos garçons que o ajudaram. Ele guarda a conta do jantar até hoje, com o valor equivalente a R$ 2 mil, que incluiu dez garrafas da bebida, rótulos "nem baratos, nem caros".

"Um sonho não tem preço. Depois os garçons me contaram que estavam com medo que eu não pagasse a conta", conta o empresário.

Falta de qualidade observada impulsionou negócio

Golfeto passou a levar amigos aos restaurantes.

"Era o que eu mais gostava de fazer: dirigir até o restaurante, que não era perto de casa, batendo papo com amigos."

Mas, após algum tempo, Golfeto percebeu que muitos estabelecimentos mudavam de mãos, sofriam com a grande rotatividade de funcionários e, como consequência, a qualidade dos serviços oferecidos caia.

"Comecei a ver cabelo no macarrão e que a camisa branca do garçom estava suja. Diziam que eu estava ficando 'fresco'".

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Casado e ganhando um bom salário nas usinas, o empresário decidiu largar o emprego e montar seu próprio restaurante.

"Decidi mostrar que dava para manter a qualidade. E também não queria trabalhar com coisa séria ou ser empregado. Meu objetivo era viver mais depois de tanto sofrimento para chegar até ali", conta. 

A vontade se juntou ao conhecimento adquirido sobre a cachaça no seu dia a dia no trabalho.

"Apaixonei-me pela bebida quando montei uma fábrica de aguardente. Consegui fazer com que a produção do negócio aumentasse de dois milhões de litros para oito milhões de litros em quatro anos. O meu contrato de trabalho inicial era de dois anos. Acabei ficando dez", conta.  

Primeiro boteco foi aberto na garagem de casa

O primeiro boteco montado na garagem de casa rapidamente passou de 13, para 40 mesas e,  70 mesas. Foram três anos até Golfeto lançar o modelo de franquias.

Trato o negócio como uma criança, que precisa de atenção constante" (Delfino Golfeto, presidente da Água Doce Cachaçaria)

Hoje, o empresário pode ver as dependências da sede, que serve de modelo para a rede, por câmeras que exibem imagens em tempo real no celular. Para ele, acompanhar o negócio é importante.

"Não abro a mão de participar de treinamentos, inaugurações e reuniões."

O empresário dá uma dica para empreendedores: acredita que o sucesso depende de esforço, foco e paciência.

"Trato o negócio como uma criança. A atenção é necessária principalmente no início, mas nunca devemos nos descuidar". E adiciona uma pitada de ousadia. "Sempre gostei de me lançar a coisas consideradas impossíveis."

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