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Gigante do leste da Europa vive efervescência no varejo; empresas brasileiras se unem para conseguir espaço

Nem o delicado momento vivido pela Rússia desde a decisão pela anexação da Crimeia está desencorajando empresários interessados no mercado do gigante do Leste Europeu. Nesta semana, a Rússia recebe uma comitiva de cinco empresas brasileiras de vestuário e calçados – Puket, Carmen Steffens, Democrata, Grupo Paquetá e Colcci. Todas pretendem espalhar suas franquias em território russo com apoio da Associação Brasileira de Franchising (ABF) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). 

A Rússia vive um momento especial para o consumo. Em um cenário muito parecido com o que o Brasil viveu pouco menos de dez anos atrás, a demanda de consumo reprimida e o enriquecimento da população estão mostrando efeito no varejo. Somente em Moscou, são cerca de 80 shopping centers. Somam 3,15 milhões de metros quadrados em áreas comercias – mais que outras cidades europeias. A população passou dos 143 milhões segundo as últimas estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2013. O desemprego é cadente – em torno dos 5%, após chegar a 8,5% em 2007. 

Com esses números, não há dúvidas de que o potencial é grande, segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF).

“Fizemos uma pesquisa junto aos associados e a Rússia aparece como um dos países em que eles tinham interesse”, comenta André Friedheim, diretor internacional da ABF. Junto com a Apex, a ABF levou os brasileiros para lá para conversar e encarar rodadas de negócios com investidores que se mostraram bastante aptos a tocar um negócio internacional. “Eles são muito mais profissionalizados do que éramos na época do nosso boom de consumo.”

Embora sejam os anfitriões da Copa do Mundo de 2018, esse não é o principal motivo da aproximação dos empresários brasileiros. Segundo Friedheim, não vale o esforço. “Um evento como esse traz avanços, mas não justifica um investimento tão grande em um país tão complexo”, explica.

Com idioma difícil, clima gelado, posição geográfica distante do Brasil, hábitos de consumo diferentes e questões geopolíticas em curso, a Copa não traria apelo suficiente para a Rússia. “Uma expansão internacional é baseada em potenciais de longo prazo.”

A Puket, rede de franquias de moda praia, lingerie e pijamas, é uma das que abraçou essa missão com vontade de encontrar um bom partido para essa nova fase de internacionalização da marca. A ideia de Cláudio Bobrow, sócio-fundador da empresa, é sair de lá com algumas empresas candidatas a serem a franqueadora de toda a rede Puket na Rússia. “Estamos lá para para conhecer, namorar e, quem sabe, casar com alguém”, diz o executivo, que acredita que leve entre seis meses e um ano para a primeira loja começar a operação.

O mercado potencial é considerado “gigantesco”, ainda que Bobrow não tenha se debruçado com profundidade sobre os números. “São dezenas de shopping centers e não temos concorrência”, explica. Mais que isso, a aceitação dos produtos no mercado externo já é garantida.

A empresa marcou presença na NRF Big Show, maior feira de varejo do mundo, visitada por 30 mil pessoas. “Fomos convidados a apresentar nosso case justamente por causa da aceitação e inovação dos produtos”, conta Bobrow, que comemora a expansão da rede na Ásia e no Oriente Médio. “O mercado está em busca de produtos com essa cara ocidentalizada.”

No entanto, o esquema de franquia não será o convencional. “Queremos abrir algumas dezenas de lojas com um único franqueador porque não teremos condições de administrar a relação direta com franqueados russos”, explica o executivo, que já espera visitas russas por aqui no segundo semestre. “Eles deverão vir, conhecer a sede, as lojas e só então vamos fechar contrato com algum deles.”

Exportadores também querem mercado russo

Há empresas também interessadas me enviar produtos ao mercado russo. O volume menor de exportações brasileiras para a Rússia abre espaço para a inclusão de produtos de maior valor agregado na corrente de comércio – atualmente composta basicamente de produtos alimentícios como soja, café, carnes desossadas e açúcar. 

O volume de exportações brasileiras para os russos caiu 6,8% entre janeiro e abril deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado – no entanto, o total enviado à Rússia apenas em produtos industrializados, cresceu 3% frente ao mesmo período, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).

A Plié, fabricante de lingeries sem costura, é uma das empresas de olho nas mulheres russas. No ano passado, a empresa enviou 60 mil peças ao Leste Europeu – um incremento de 10% no volume total exportado. Agora a meta é ampliar participação no mercado russo, onde as vendas devem chegar a 70 mil peças por ano, na projeção mais conservadora. Em 2013, exportaram 50 mil unidades ao país.

“Deveremos chegar a 10 mil peças por ano para a Rússia quando o mercado estiver mais estável”, comenta Elemar Souza Cruz, gerente de marketing da Plié. Por aqui, a empresa vende 100 mil peças por mês. Lá, fazem mais sucesso as calcinhas de cintura alta e os bodies.

A Lunex Glasses, fabricante de óculos de fibra de carbono, já colcou a Rússia antes dos Estados Unidos e da Europa no seu plano de negócios. O diretor comercial da marca Sérgio Luizetto, explica que a Rússia passa pelo mesmo momento que o Brasil viveu cerca de uma década atrás. 

“Os russos estão vorazes por novidades e mercados de luxo”, explica. O mercado latino-americano é o laboratório da marca, para chegar mais forte na Rússia dentro de um ano. “Eles estão muito atraídos por qualquer produto com perfil de inovação.”

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