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Após a crise de 2008, as coisas ficaram tão complicadas na Flórida que isso abriu a porta para caçadores de barganhas que pegaram carona no novo parque do personagem bruxo

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Em 2008, quando praticamente todas as empresas americanas estavam guardando dinheiro em uma luta para sobreviver à crise financeira, Harris Rosen fez uma aposta diferente.

O dono de hotéis Harri­s Rosen, em Orlan­do: aposta no crescimento do turismo em plena crise
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O dono de hotéis Harri­s Rosen, em Orlan­do: aposta no crescimento do turismo em plena crise

Ao invés de guardar dinheiro, Rosen, o maior dono de hotéis independentes dessa cidade que gira em torno do turismo, começou a construir. Ele decidiu gastar 130 milhões de dólares para reformar seus sete hotéis e, em seguida, aumentou o número de funcionários no setor de marketing internacional para oferecer os quartos a grupos de turistas de lugares distantes, como o Brasil e a Coreia do Sul.

Atualmente, a economia da Flórida voltou a ganhar força, afastando o peso morto da bolha imobiliária, que estourou com mais força por lá do que em qualquer outro estado do país. Esse ano, a Flórida foi o estado que mais aumentou o número de vagas de emprego no país, batendo o terceiro recorde em apenas 12 meses.

As raízes dessa recuperação podem ser encontradas em decisões como a de Rosen.

Ao contrário das empresas americanas como um todo, que cortaram os gastos após o colapso do Lehman Brothers, as empresas ligadas ao turismo em toda a Flórida Central investiram pesado durante a crise, dando às agências de viagem novidades para serem vendidas assim que os consumidores voltassem a gastar.

A Universal abriu o parque temático de Harry Potter, a maior das novas atrações do setor, em junho de 2010, incluindo uma montanha-russa dos Transformers que custou 100 milhões de dólares, além de um resort com 1.800 quartos que foi inaugurado este ano.

A Merlin Entertainments, da Inglaterra, abriu uma Legolândia no lugar do antigo Cypress Gardens, fechado no fim de 2011, e está construindo uma imitação da roda gigante londrina, a London Eye, com 122 metros de altura e que poderá ser vista de qualquer lugar em Orlando.

"Fizemos isso porque sabíamos que as coisas iriam melhorar, e sabíamos que naquele momento seria muito mais barato já que a construção civil não estava indo muito bem", afirmou Rosen, de 74 anos, executivo-chefe da Rosen Hotels and Resorts. "Se esperássemos até a construção civil recuperar sua força, as mesmas obras teriam custado entre US$ 175 e US$ 200 milhões".

Na Flórida, o estado acompanha o vai e vem do turismo, em parte porque o setor é responsável por um sexto dos empregos na iniciativa privada. E quando o turismo recuperou sua força – Orlando registrou 59 milhões de visitantes em 2013, 27% mais que os 46,6 milhões de 2009; em todo o estado, o número de turistas chegou a 94,7 milhões de pessoas – outros setores também acompanharam a tendência.

20 mil novos consumidores por trimestre

E a história não se resume ao crescimento do turismo, que também acendeu as chamas da economia com as brasas deixadas pela recessão, aquecendo uma recuperação que já se espalha pelo setor da construção civil e por outras áreas.

A migração de outros estados, que apresentou resultados negativos durante a crise financeira, mas voltou ao normal em 2010, acrescentando quase 20 mil novos consumidores por trimestre.

Novo parque temático da série inglesa Harry Potter: empreendimento ajudou economia de Orlando
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Novo parque temático da série inglesa Harry Potter: empreendimento ajudou economia de Orlando

E, o mais importante de tudo, é que os mercados financeiros salvaram os habitantes da Flórida. À medida que o valor dos títulos voltou a subir e o bolsa de valores deslanchou, a renda dos habitantes da estado obtida por meio de juros, dividendos e aluguéis aumentou 25% entre 2010 e o ano passado, com o maior crescimento ocorrido em 2011, de acordo com o Bureau de Análises Econômicas.

"Quem resolveu tudo foi Harry Potter"

Essa é a versão mais longa da história da recuperação da Flórida. A versão resumida, repetida por todo o mundo, de multimilionários como Rosen aos guardas noturnos da Universal: quem resolveu tudo foi Harry Potter.

"O grande acontecimento foi o Harry Potter – não há dúvidas quanto a isso", afirmou Anthony Crocco, diretor regional da Metrostudy, uma empresa de consultoria, na Flórida Central.

Em todo o estado, as vagas de emprego em lazer e hospitalidade aumentaram 16%, gerando 149.300 novas vagas desde que o parque "O Mundo Mágico de Harry Potter" foi inaugurado, quase o dobro do crescimento no restante do país.

As empresas do setor abriram 54.500 vagas só no ano passado, incluindo 14.800 em Orlando. A Universal planeja abrir 3.500 vagas na cidade esse ano, de acordo com John Sprouls, CAO da Universal Parks and Resorts Orlando.

Além disso, o índice de desemprego na Flórida, que chegou a 11,4% no início de 2010 – muito acima da média nacional, que era de 10% – caiu para 6,2% em abril deste ano, abaixo da média nacional de 6,3%.

"É preciso dar crédito à iniciativa privada", afirmou o governador Rick Scott, que enfrenta uma difícil campanha de reeleição no estado, durante a qual a economia é o assunto mais importante. "Nós no governo podemos fazer todas as coisas do jeito certo, mas o setor privado também tem que dar as caras".

Sob certos aspectos, as coisas ficaram tão complicadas na Flórida que isso abriu a porta para caçadores de barganhas que queriam ganhar dinheiro com a desgraça alheia.

Empresas e consumidores fazem o possível para tirar proveito de diferentes ativos, especialmente os imóveis, que ficaram muito mais baratos por conta do colapso do setor em 2006.

A Merlin construiu a Legolândia por um preço baixíssimo, em especial porque o Cypress Gardens "caiu no nosso colo em 2008", afirmou o gerente geral do parque, Adrian Jones.

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Apesar das melhorias, ainda há nuvens escuras pairando no céu do "Estado do Sol", afirmam economistas.

A dependência de setores com mão de obra barata torna a renda familiar do estado mais baixa do que no restante do país, e a Flórida depende muito de empregos de meio período.

A desaceleração na construção de casas nos últimos meses, causada em parte por conta do aumento no valor das hipotecas desde a primavera do ano passado, também pode oferecer um desafio à recuperação da Flórida.

Entretanto, os imóveis continuam desvalorizados na maior parte do estado, em parte porque as execuções hipotecárias continuam a ocorrer de tempos em tempos no mercado, afirmou Jed Kolko, economista-chefe do Trulia.com, "o que deixa a casa mediana ao alcance das famílias de classe média do estado".

A pressão sobre os preços causada pelas antigas execuções hipotecárias poupou a maior parte da Flórida da escalada no preço dos imóveis, que atrapalha tanto os construtores da Califórina, por exemplo.

E o turismo continua a receber novidades; a Walt Disney World abrirá uma série de atrações que tem quase o dobro da Fantasyland. A Disney afirma que as adições à Fantasyland, algumas das quais já estão abertas, e outras em fase de planejamento, representam a maior expansão do parque Magic Kingdom, na Walt Disney World.

A Universal, tirando proveito de seu bem mais precioso, abrirá outra atração com o tema Harry Potter no verão deste ano.

"Viemos por causa do Harry Potter – somos grandes fãs", afirmou Jennifer Murphy, de Watertown, em Connecticut, que estava levando a filha Mackenzie, de 7, para conhecer uma atração que não estava aberta da última vez que visitaram a Flórida. "Já não era sem tempo!".

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