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Como um site de crowdfunding, Beacon arrecada dinheiro para profissionais que atuam como autônomos

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Com jornais cobrando cada vez mais pelo uso de sites e aplicativos que já foram gratuitos, eles encaram uma questão fundamental: Os leitores pagarão por conteúdos digitais? Agora, uma iniciante da internet acrescentou mais uma pergunta à equação: os leitores pagarão pelo trabalho dos jornalistas?

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A startup Beacon iniciou uma campanha de arrecadação de fundos em março para ajudar Shane Bauer, viajante e jornalista que passou 26 meses preso no Irã. Se tudo der certo, os leitores irão pagar o salário anual todo de Bauer, de US$ 75 mil, para que ele faça uma reportagem sobre o sistema prisional dos EUA.

"Nosso plano é identificar leitores e jornalistas dispostos a usarem o Beacon para serem completamente independentes", afirmou Adrian Sanders, um dos fundadores do Beacon, em sua casa em Sunnyvale, na Califórnia (EUA), usada como escritório pelos quatro funcionários da empresa.

Fundadores da Beacon: Dan Fletc­her (à esquerda), Dmitr­i Chern­iak and Adria­n Sande­rs (à direita)
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Fundadores da Beacon: Dan Fletc­her (à esquerda), Dmitr­i Chern­iak and Adria­n Sande­rs (à direita)

Há quem possa questionar a viabilidade do crowdfunding no jornalismo de interesse público. Além disso, sempre é possível dizer que repórteres como Bauer, que recebeu inúmeros prêmios por seu trabalho e publicou recentemente um livro chamado "A Sliver of Light" (Um fio de luz, em tradução livre), sobre o período que passou preso no Irã, teria um público mais amplo em publicações mais bem estabelecidas.

Porém, Bauer tem uma opinião diferente. Com o projeto Beacon, afirmou, ele não estará preso aos pontos de vista de um editor, nem terá que se preocupar com o pagamento de seu salário por parte de alguma publicação à beira da falência.

"Eu adoro a liberdade de ser freelancer e acredito que meus melhores trabalhos são resultado do tempo em que trabalho por conta própria".

O Beacon, que recebe apoio da incubadora de iniciantes Y Combinator e de investidores individuais, abriu as portas em setembro com a ideia de que os leitores pudessem financiar pessoalmente os jornalistas.

Nosso plano é identificar leitores e jornalistas dispostos a usarem o Beacon para serem completamente independentes

Dois dos três fundadores da empresa — Sanders e Dmitri Cherniak — já haviam trabalhado no Backspaces, uma plataforma de criação de narrativas online. Alguns dos usuários do Backspaces estavam começando a ter milhares de seguidores, mas não havia forma concreta para que eles viessem a ganhar dinheiro com isso.

"Eu comecei a pensar sobre um novo modelo por meio do qual as pessoas pagam pelos trabalhos de que mais gostam", afirma Sanders.

Para ajudar com o aspecto do jornalismo, eles chamaram Dan Fletcher, ex-editor do Facebook.

O Beacon possui um modelo de negócios bastante simples. O leitor paga US$ 5 ao mês ao jornalista e, em troca, recebe acesso a todo o conteúdo do site.

Desde que entrou no ar há cinco meses, o site já conta com mais de 100 jornalistas e "muitos milhares de assinantes", de acordo com Sanders. Os jornalistas recebem 70% do dinheiro pago pelos leitores a cada mês e uma parte do dinheiro restante vai para um banco de bônus que é pago aos que escrevem as matérias mais compartilhadas. A empresa fica com o restante.

Entre os jornalistas presentes no Beacon está um grupo de jornalistas freelancer focados em questões ambientais que escrevem para o site Climate Confidential. Outro é Sion Fullana, escritor e jornalista que conta as vidas cotidianas dos nova-iorquinos.

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Os fundadores do Beacon são um pouco incongruentes quando falam sobre a empresa. Fletcher e Sanders compararam o site a uma mídia social como o Twitter (cada autor possui um pequeno perfil) e o Facebook (os leitores seguem seus jornalistas prediletos).

Em seguida, eles disseram que o Beacon também é similar ao site de crowdfunding, Kickstarter. Além disso, na mesma conversa, ambos compararam a empresa a serviços de streaming nos quais os usuários pagam uma taxa mensal.

Para atrair os leitores, destaca Sanders, "Tivemos que criar uma experiência que era similar à que poderíamos encontrar no Netflix ou no Spotify".

Ele disse que o empreendimento com Bauer era o próximo passo, pois permitia que ambos testassem sua crença na ideia de que os leitores pagariam pelo tipo de cobertura e projeto investigativo que muitas empresas deixaram de financiar por conta do declínio nas propagandas e no número de assinaturas.

Embora organizações sem fins lucrativos como a ProPublica e o recém-formado Marshall Project se dediquem a esse tipo de jornalismo, muitas mídias tradicionais estão deixando de publicar artigos mais longos e aprofundados.

Bauer (31) vive em Oakland, na Califórnia (EUA), e afirmou que se for capaz de conseguir dinheiro suficiente através do Beacon, ele iria se concentrar em escrever as reportagens que quer, ao invés daquelas que recebem mais cliques.

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Bauer saiu da prisão em 2011, mas disse que ainda se sente ligado à experiência. Ele deseja publicar ao menos três ou quatro relatos longos por ano para tratar dos diversos aspectos do sistema prisional dos EUA.

Alguns dos assuntos sobre os quais ele deseja escrever incluem o crescimento das cadeias privadas e as razões que levam os EUA a encarcerarem tantas pessoas. Ele também deseja viajar para outros países com o objetivo de averiguar como o modelo prisional americano está sendo exportado.

"Eu entendo a gravidade do encarceramento. Quando me aproximo de uma história, a observo através dos olhos de um prisioneiro", recorda.

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