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Formaggio Mineiro, que produz o pão de queijo mais caro do País, vende pacote de dois quilos a R$ 52

Ao chegar na Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro, ou no Octavio Café, em São Paulo, para um café da manhã ou um lanche da tarde, em uma rápida olhada no cardápio, você perceberá que não está em uma lanchonete qualquer. Entre as delícias ofertadas no menu pouco acessível, você encontrará nada menos que o pão de queijo mais caro do Brasil.

Pão de Queijo Formaggio Mineiro custa R$ 6,80 na Padaria Colombo
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Pão de Queijo Formaggio Mineiro custa R$ 6,80 na Padaria Colombo

Antes das comidinhas gourmet tomarem conta de todas as esquinas do Brasil, houve quem pensasse em transformar uma das iguarias típicas da cultura nacional em um produto gourmet. É o caso da Formaggio Mineiro, empresa paulista que fabrica o produto oferecido por esses estabelecimentos.

Hoje, Marcello Lage e Mirany Soares, mineiros, casados e sócios da Formaggio Mineiro, só fornecem seu produto para estabelecimentos que atendem a uma fatia bastante seleta da população. É o chamado público AB, formado pelos mais endinheirados do Brasil. “Nós escolhemos em qual estabelecimento vamos distribuir nosso produto. Precisa estar adequado ao público, caso contrário ele não vai conseguir vender”, diz Lage. Atualmente, na Confeitaria Colombo, pãozinho de queijo de 50 gramas sai por R$ 6,80; no Octávio Café, R$ 6,38.

Na lista de compradores estão o Hotel Fasano, em São Paulo, o Empório São Patrício em Brasília, Café Cultura em Belo Horizonte. Foi no Empório Santa Luzia, em um bairro nobre de São Paulo, que a primeira caixa foi vendida, em maio de 2010. “A Mirany ficava monitorando. Quando ficamos sabendo que a primeira caixinha foi vendida, foi uma felicidade sem tamanho”, conta o empresário. O pacote de dois quilos sai da fábrica por R$ 52, duas vezes mais que o preço da líder do setor no supermercado.

Tanta exclusividade tem um motivo. Por incrível que pareça, foi na prerrogativa básica do pão de queijo em que Mirany encontrou a inovação. Segundo Lage, o Fornaggio Mineirro tem 40% de queijo na sua composição, cinco vezes mais que o líder de mercado, que contém 8% na sua composição mais simples.

“Nos não usamos fécula de mandioca na composição e utilizamos queijo meia cura da Serra da Canastra e o parmesão gran fromage. É a Mercedes dos pães de queijo, tem de ser um sonho”, comenta. “O que menos tem nos pães de queijo tradicionais é queijo.”

Lage cuida sozinho de todas as vendas da marca, escolhe clientes em potencial, faz a aproximação e, em alguns casos, até nega pedidos. “Não achamos que os outros pães de queijos são ruins, eles são adequados à circunstância deles. A preocupação é posicionar o produto de forma adequada”, diz. “Assim com tenho de convencer alguns estabelecimentos de que o meu produto é perfeito para eles, tenho de convencer outros que vender um pão de queijo neste preço lá não vai funcionar.”

Empresa transformou o produto em serviço

Levou um ano até que Mirany chegasse na receita – que hoje mantém sob segredo. “Nós fazemos a fórmula no nosso laboratório e mandamos para a fábrica. Lá eles adicionam outros ingredientes convencionais e produzem“, conta Lage. Mas não é só ela que faz o negócio dar certo.

“Nosso modelo de negócio é um misto de Apple com Coca-Cola: temos nossa fórmula mágica como o refrigerante e agregamos valor e serviços ao produto como a Apple”, diz o executivo, que hoje vende 10 toneladas por mês.

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Entre os serviços está o atendimento direto com o sócio: Marcelo, pessoalmente, vai a cada um dos estabelecimentos entregar e entra, “de touquinha e tudo”, na cozinha para ensinar os funcionários a assar o pão de queijo da forma mais adequada. “Metade do nosso produto é serviço e por mais que a gente cresça, não podemos perder isso de vista.”

Mulher tomou a iniciativa primeiro e cuida das finanças do casal

O empresário era triatleta, jogador de vôlei e diretor comercial de uma multinacional americana; ela, executiva de uma rede de supermercados. Se conheceram em um forró em Itaúna. Ambos tinham uma carreira sólida e promissora, mas a vontade de traçar a própria trajetória falou mais alto. Mirany, hoje com 39 anos, deu o primeiro passo e, como conta Lage, de 46 anos, “chutou o balde”. “Ela decidiu que montaria um negócio. No começo, a ideia era uma lanchonete, mas fiquei com medo. Lanchonete é quase um caixa eletrônico de assaltante”, conta.

"Essa foto é a foto da vida que a gente quer levar. Sendo executivo a gente não conseguiria aproveitar nossa rotina e nosso filho", diz Lage
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"Essa foto é a foto da vida que a gente quer levar. Sendo executivo a gente não conseguiria aproveitar nossa rotina e nosso filho", diz Lage

Depois de abandonar o emprego, foram 12 meses elaborando o produto, fazendo testes de sabor e crocância que criaram cenas cômicas para o casal. "Tinha dia que eu chegava em casa, via o pão de queijo em cima da mesa, comia tudo e vinha a Mirany brigando comigo que estava testando a crocância da casca", lembra. Nesse período também estava em gestação o pequeno Marco, que hoje tem três anos. “Quando eu larguei tudo é claro que fiquei inseguro, era época de renovar o meu contrato de alguns bons dígitos, minha esposa estava grávida e eu simplesmente disse não”, conta. “É como voar de asa delta, você se cerca do máximo de segurança, mas nunca tem certeza de que tudo vai correr bem.”

Por sinal, no lar do casal, quem apita sobre as finanças é Mirany. “Minha mulher que controla tudo e diz quanto eu posso gastar”, diz Lage. “Ela é muito melhor nisso que eu. As mulheres estão brilhando cada vez mais no mundo dos negócios. Meu trabalho é ir para rua e vender, ela que cuida do financeiro. Eu acho isso o máximo.”

Se o trabalho junto atrapalha a vida do casal? Lage garante que não. “A gente acorda junto, vai junto para a empresa, eu saio para vender mas estamos sempre falando, o dia inteiro”, comenta. “Nós temos um imenso respeito pelo outro e pelo trabalho que fazemos, isso mantém tudo sob controle.”

O resultado dessa gestão culmina na fábrica própria, que já começa a ser montada pelos empresários. A demanda por uma unidade fabril particular veio do desenvolvimento de novos produtos: o waffle de pão de queijo, que entrará no Octávio Café já na semana que vem, e o pão de hambúrguer que chegará ao mercado em junho.

Tirando o pró-labore dos sócios, todo o resultado da empresa acaba reinvestido. “A gente faz como a Apple, ninguém pega dividendo. Não tiramos do lucro da empresa por enquanto”, conta. O investimento inicial foi pago já no segundo ano da operação. Os executivos não revelam o faturamento da empresa.

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