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Saiba como empreendedores precoces apostaram em seus negócios durante o período universitário e conseguiram conciliar as duas atividades

O curso de ciências da computação na Universidade de São Paulo (USP) nunca foi tão longo e cansativo como é para Alberto Bueno Junior, estudante e fundador da Profes, startup que conecta professores particulares.

Alberto Bueno Jr., do Profes
Divulgação
Alberto Bueno Jr., do Profes

Desde 2014, quando fundou a empresa, a jornada dele é pelo menos dupla – chegou a ser tripla no começo. “Eu tinha aulas de manhã, à tarde fazia estágio do escritório da Harvard University no Brasil e a noite trabalhava no projeto do Profes”, conta. “Tomava muito tempo e era bem cansativo.”

Por um lado, encontrou colegas interessados no seu projeto e gente mais experiente disposta a ajudar. Também encontrou na universidade a matéria-prima para muitos avanços da empresa. “Tinha dias em que eu aprendia um algoritmo novo de manhã e já aplicava no Profes à noite”, conta.

Por outro, sua formação, que era de quatro anos, vai acabar durando seis, se ele de fato se formar em 2014, conforme previsto. Bueno Junior pensou em deixar o curso para cuidar da empresa, mas preferiu insistir.

“Tem de ser otimista, acreditar que vai dar conta. Um empreendedor que não pensa positivo nem começa”, explica. Hoje ele não se arrepende de ter sido cabeça dura durante a formação. “Se você tem uma ideia, tem de implementá-la logo, porque o quanto antes você descobrir se é viável ou não, melhor para você”, aconselha.

Foi-se o tempo em que o maior sonho de um jovem universitário era conquistar um posto de trabalho em uma grande empresa multinacional. Bueno Junior, assim como uma privilegiada parcela dos universitários do País, já teve sua grande ideia e aposta no empreendedorismo.

Os últimos levantamentos do instituto Endeavor sinalizam que pelo menos 60% dos universitários pretendem montar o próprio negócio. No entanto, sair da faculdade com a empresa pronta requer esforço, dedicação e uma boa dose de planejamento – tanto pessoal como financeiro.

"O que falta é tomar a iniciativa", diz Bruno Yoshimura, sócio-fundador do Kekanto

Os sócios do Kekanto, Bruno Yoshimura, Fernando Okumura e Allan Panossian, acompanharam de perto a trajetória de Bueno Junior. Ex-alunos do Instituto de Matemática e Estatística da USP, onde ele estuda, já sentiram na pele o excesso de atividades. “Eu não estava com pressa para me formar, sempre trabalhei enquanto fazia faculdade, então sabia lidar com a rotina cansativa”, diz Panossian.

Yoshimura, por sua vez, conta que já “passou muita noite acordado”, se preparando para as avaliações da faculdade. “Em Programação Linear, não teve jeito, tive de pagar um amigo para me ensinar, senão não passava”, conta.

Da turma de Yoshimura e Panossian, saíram de quatro empresas com serviços inovadores. “O que falta é tomar a iniciativa e partir para prática”, diz Yoshimura. “Quando a faculdade acaba, é um peso que você tira das costas, mas você acaba mantendo networking, fazendo contato com investidores-anjo, outras tantas coisas.” O ambiente universitário extremamente fértil foi o que levou ambos a Fernando Okumura, o terceiro fundador e hoje presidente do Kekanto.

Nesta fase, ainda sem família ou filhos, fica muito mais fácil dar passos mais ousados e principalmente dedicar muito tempo aos estudos e ao emprendedorismo. “É o único momento da vida em que dá para pensar em ficar sem salário, enquanto a empresa não vinga.”

Fundadores do Kekanto, Allan Panossian, Fernando Okumura e Bruno Yoshimura
Divulgação
Fundadores do Kekanto, Allan Panossian, Fernando Okumura e Bruno Yoshimura

Aproveite o tempo livre para experimentar o empreendedorismo

Esse é um dos pontos principais do empreendedorismo nesta fase da vida, na avaliação de Luis Alt, co-fundador da Escola de Inovação em Serviços (Eise).

“O jovem que não tem de trabalhar durante o dia para sustentar a família ou a faculdade acaba não tendo dimensão da importância que tem aquele tempo disponível”, diz.

Para ele, essa é hora de começar a afiar seu faro empreendedor. Participar de iniciativas dentro da universidade oferece experiência nas rotinas do empreendedorismo. “Assim o jovem começa a criar um senso de comprometimento com o próximo, com os prazos e com a solução dos problemas.”

Aí, vale tudo – desde a fundação de um centro acadêmico até gestão da atlética. “É um ótimo caminho para começar a fazer algo quando não tem dinheiro para um negócio novo. A rede de segurança é maior.”

Alt, no entanto, destaca que por aqui, a academia não é levada a sério. “Tem muita gente que faz de qualquer jeito apenas para passar, e isso não é bom.” É ruim não só porque se aprende menos, mas principalmente porque no futuro seus colegas de faculdade serão seus pares e aí sua reputação já está construída. “É claro que tem de se divertir e construir laços no lazer, mas a pessoa tem de tentar ser na faculdade o cara que ele quer ver no futuro.”

Desistir da faculdade pode valer a pena

Em alguns casos, desistir da faculdade pode ser a melhor opção. Marco Gomes, presidente e fundador da Boo-Box, não teve outra alternativa. “Na época em que montei a Boo-Box, a empresa só seria viável em São Paulo e não havia transferência entre faculdades estaduais e federais”, conta o executivo, que foi eleito profissional de marketing do ano em 2013.

O ambiente da Universidade de Brasília (UnB), onde ele cursava Ciências da Computação, não era dos mais favoráveis ao seu espírito empreendedor. “Não é da natureza da UnB. Os colegas com quem ainda tenho contato são, em maior parte, funcionários públicos. Isso é uma característica da vida acadêmica de lá”, diz Gomes.

Mesmo assim, ele diz ter aproveitado muito do ambiente universitário para elaborar sua empresa – principalmente nas disciplinas fora do curso. “Frequentei aulas de arquivologia, por exemplo, que ajudaram muito a aprender a organizar informação, o que é fundamental para o meu negócio. As aulas de psicologia me ajudam no lado humano da construção de interfaces”, lembra.

Embora não se arrependa da decisão, Gomes não nega a insegurança de quem “não está com a vida ganha”. Ao contrário da estabilidade dos concursados, ele desfruta de uma rotina dinâmica, mas cheia de riscos. “Meu conselho? Faça a faculdade sim, porque o risco de largar a faculdade é alto. Mas não se prenda por isso, em alguns casos a mudança pode ser interessante.”

Separe as contas pessoais das contas da empresa

Não adianta só ter uma grande ideia. Se você deseja empreender, vai ter de aprender a lidar com toda a burocracia que envolve a coisa, desde o tipo de sociedade e pessoa jurídica escolhida até a administração das finanças da empresa – que, por sinal, não são suas.

Esse é o principal alerta do educador financeiro Reinaldo Domingos, que lança no dia 13 deste mês o livro Papo Empreendedor, que traz um debate sobre a sustentabilidade nos negócios. "A maior dificuldade desses jovens é separar as contas e entender que o dinheiro da empresa não é o da família, e vice versa", diz.

O processo de aprendizado é longo e os cursos de orientação financeira estão aí para dar apoio a quem precisa de suporte externo. 

E por falar em suporte externo, Domingos não tem dúvidas que conseguir um investidor é sempre melhor que pegar um empréstimo. "Você não só não paga juros como racha o risco. É bem melhor."

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