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Enquanto prefeito não sanciona lei, caminhonetas vendem comida em estacionamentos de lojas, eventos e locais privados na capital e no interior. Alguns até conseguem autorização

A lei que irá regulamentar a comida de rua na cidade de São Paulo – e que pode se tornar exemplo para outros municípios e estados – está nas mãos do prefeito Fernando Haddad (PT). Enquanto isso, ao menos dez empreendedores já tomam as ruas de cidades paulistas para testar os food trucks, pequenos caminhões que vendem comida em locais públicos e são famosos nos Estados Unidos e em países da Europa.

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Na cidade de São Paulo, hoje são permitidos apenas ambulantes que vendem hot dog e pastéis em feiras, e apenas 223 dogueiros motorizados têm licença para operar. O número de empreendedores ilegais, estima-se, é muito maior. A lei tem como objetivo diminuir a ilegalidade e oferecer opções de refeições diversas para atender consumidores na rua.

Buzina Food Truck, criado pelos publicitários e chefs Márcio Silva e Jorge Gonzalez: lanches e frango com molho curry
Divulgação
Buzina Food Truck, criado pelos publicitários e chefs Márcio Silva e Jorge Gonzalez: lanches e frango com molho curry

Para driblar a falta de legislação, os food trucks optam, por enquanto, por ficar em locais privados, como estacionamentos de lojas e prédios comerciais, e também participar de eventos. Alguns conseguem se aproximar da Prefeitura em cidades do interior, como Itu, e acabam até mesmo obtendo autorização para estacionar em locais públicos.

São pequenos empreendedores, franquias e até chefs e redes de restaurante, já de olho na abertura de um novo mercado. Em comum, todos confirmam o sucesso com o público.

Um exemplo é o Buzina Food Truck, criado pelos publicitários e chefs Márcio Silva e Jorge Gonzalez. É uma caminhonete com tanque para detritos, duas geladeiras, chapa, fogão, geladeira industrial, coifa e certificado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O valor do investimento atingiu R$ 250 mil.

Além do famoso x-salada com toque artesanal, eles também vendem frango com molho curry na caminhonete. "O público se surpreende. Não espera que uma refeição saia de um caminhão na rua", conta Gonzalez.

Por enquanto, os empreendedores negociam com empresas para vender as refeições em vagas privadas de estacionamento, geralmente na hora do almoço e onde acabam atendendo também o público da rua, ou eventos. "Já fizemos até festa de fim de ano de empresa", diz o empreendedor.

Com uma equipe de quatro funcionários, são servidas cerca de 150 a 200 refeições por dia. Os empreendedores aguardam a lei para ter mais um caminhão. "Precisamos de mais um para manter a operação. Fizemos por necessidade. Não temos muito dinheiro para montar um restaurante na cidade".

Lei mais permissiva

Prefeituras do interior de São Paulo, como Itu, já veem com bons olhos iniciativas de empreendedores como Sandra Regina Polidio, 47 anos, e seu marido, Carlos Alberto de Camargo, 65 anos.

Eles inauguraram seu food truck de massa, o Makkarrão, no dia 5 de dezembro, em uma praça da cidade. Para isso, abriram uma microempresa e aguardam o alvará de ambulantes. "Começamos com uma kombi, e resolvemos investir R$ 200 mil em uma caminhonete", conta Camargo.

São mais de 50 refeições por noite vendidas para moradores do bairro, funcionários do comércio local e quem faz compras no supermercado próximo à praça. "Muitos ficam curiosos com o furgão, que é chamativo, pois tem pisca colorido", conta Sandra.

De acordo com ela, ainda não há concorrência. "A cantina mais próxima fica dentro do shopping novo da cidade". Eles ficam no local das 18h às 22h, de segunda a sexta e, aos finais de semana, participam de eventos na região, assim como a caminhonete de café Barisly.

Ricardo Cury, um dos sócios da Barisly, conta que ela nasceu como franquia há oito meses em Itu, e já atraiu um franqueado na cidade de Sorocaba. O investimento total no trailer personalizado é de R$ 85 mil. "Já recebemos 150 consultas para o negócio, e queremos entrar na capital".

Questionado sobre como a caminonete irá funcionar em cada cidade onde não há regulamentação da atividade, Cury aponta que o foco principal são eventos privados. "Nossa franqueada faz apenas eventos, como feiras em condomínios e festas fechadas, porque a lei da cidade não permite que ela estacione na rua".

Cury conta que tem autorização para estacionar em dois locais públicos e um privado, o estacionamento de uma casa noturna em Itu. "Ficamos das 4h às 8h da manhã atendendo a garotada que sai da balada e vendemos 70% do faturamento da semana neste período, no sábado à noite", conta.

Democratização

Para o chef André Mifano, do restaurante Vito, não adianta querer regulamentar a comida de rua na cidade para criar food trucks como os americanos, cujo investimento é de R$ 200 mil, e esquecer do que considera essencial: a popularização da boa alimentação.

Mifano participou do projeto de food truck da marca de whisky Jameson, lançado em outubro e que foi encerrado no começo deste mês. A caminhonete vendeu comida irlandesa em locais privados da cidade e anunciava pelo seu perfil no Facebook onde estaria e em quais horários.

"A lei precisa incluir, e não excluir. As condições devem ser iguais para todos, e deve haver limite para a quantidade de caminhões. Tem gente que cobra muito caro por comida em São Paulo e morre de medo de quem possa cobrar mais barato".

Para o chef, o Brasil é carente de comida de rua. "No projeto, nunca voltei com lanche para casa. Onde encostarem o carro, tem gente querendo comer, implorando por comida boa, barata e diversidade".


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