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Capital da Inglaterra amadurece como centro tecnológico na Europa – dona do Candy Crush planeja consolidar relevância da região no mercado

NYT

Parte da cidade de Londres traz os sinais aparentes de uma cena emergente de alta tecnologia. Depósitos degradados foram reformados e se tornaram reluzentes escritórios. Botecos gordurosos foram transformados em restaurantes da moda. E muitos pubs de madeira viraram bares de vinho. Mesmo assim, ainda falta um importante sinal de legitimidade: uma novata londrina valendo milhões na bolsa.

A King.com, criadora da popular franquia de jogos Candy Crush, está tentando mudar isso. E se for bem-sucedida, a empresa pode ajudar a consolidar a reputação da cidade como uma das principais comunidades de novatas da Europa.

A empresa se cadastrou para abrir capital nos Estados Unidos , e analistas esperam uma avaliação multibilionária. A medida gera expectativas de que mais novatas londrinas, muitas delas agrupadas em East London, se tornem empresas públicas.

"Nos últimos 10 anos, Londres se tornou o mais maduro dos centros tecnológicos europeus", declarou Harry Nelis, sócio londrino da firma de capital de risco Accel Partners. "Esperamos que algumas das novatas da nova geração comecem a buscar a abertura de capital em Londres".

A crescente credibilidade da capital britânica na indústria da tecnologia é parcialmente o resultado de esforços do governo para reduzir a dependência da cidade dos serviços financeiros, que ainda dominam a economia local. Legisladores locais investiram mais de US$80 milhões para transformar edifícios em espaços para eventos e trabalho, atraindo empresas como Microsoft e IBM para East London – ou Tech City, como alguns políticos londrinos apelidaram a região. Autoridades também estão trabalhando com novatas locais para facilitar a contratação de profissionais internacionais e ajudá-las a ganhar acesso aos mercados financeiros de Londres.

Outras cidades da Europa, como Berlim, também possuem cenas de tecnologia em crescimento, mas Londres leva vantagem em função de suas raízes como centro financeiro global. Nos últimos quatro anos, o número de empresas de tecnologia em East London praticamente quadruplicou, atingindo cerca de 1.400, de acordo com estatísticas do governo britânico. A cidade também atrai mais capital de risco do que rivais europeias como Paris e Estocolmo.

Ainda assim, o setor de tecnologia londrino permanece em sua infância se comparado ao Vale do Silício. Na primeira metade deste ano, as novatas de Londres levantaram US$351 milhões – menos de 10% do investimento direcionado a empresas na Califórnia, segundo a Dow Jones Venture Source.

Localização privilegiada

Embora empresas desse tipo venham surgindo por toda a cidade, o centro da ação está no bairro de Shoreditch, em East London. Em meio a galerias de arte e restaurantes da moda, novatas como Lyst e Farfetch (moda) e TransferWise e GoCardless (tecnologia financeira) montaram operações em armazéns reformados e prédios comerciais antes em ruínas.

Uma das empresas mais bem-sucedidas até agora é a Mind Candy, novata britânica de games e entretenimento focada em crianças, que hoje possui mais de 80 milhões de usuários registrados no mundo todo. Na sede da empresa, logo ao sul de Shoreditch e ao lado de um escritório do Google, equipes de designers, engenheiros e ilustradores preenchem um espaço que parece ter vindo da Califórnia. Partes do colorido ambiente lembram uma floresta encantada, e um escorregador permite que funcionários desçam os andares.

A empresa batalha desde antes de 2008, quando lançou o Moshi Monsters, game online onde crianças cuidam de um monstro de estimação e interagem com outros pela internet. Desde então, a Mind Candy assinou contratos de franquia com empresas incluindo McDonald's e Nintendo. No ano passado, a Mind Candy reportou um aumento de 60% em receita, chegando a US$ 75 milhões. Hoje, a empresa pretende expandir seu alcance aos Estados Unidos, segundo o fundador Michael Smith.

Outras novatas de Londres já começaram a buscar os Estados Unidos, incluindo a Mimecast, empresa de gestão de e-mails.

Pedestres no bairro de Shore­ditch­, onde muitas startups estão alugando escritórios em Londres.
Andr­ew Testa­/The New York ­Times­
Pedestres no bairro de Shore­ditch­, onde muitas startups estão alugando escritórios em Londres.

Quatro anos antes de abrir a Mimecast, que permite que empresas arquivem e acessem seus e-mails de qualquer lugar no mundo, em 2003, Peter Bauer e Neil Murray precisaram decidir se expandiriam suas operações para os EUA ou através da Europa.

Mesmo com grandes economias como França e Alemanha em sua porta, os dois sul-africanos enviaram uma pequena equipe de engenheiros e representantes de vendas a Boston, preferindo apostar no mercado americano a competir em múltiplos países europeus – onde teriam de enfrentar diversos idiomas, culturas e leis.

Hoje, a Mimecast possui cerca de 170 pessoas nos EUA, e espera ter mais clientes americanos do que britânicos até o começo do próximo ano. Para ampliar o crescimento, a empresa também arrecadou US$ 62 milhões no ano passado – de empresas de capital de risco como a Insight Venture Partners, de Nova York.

"Aquilo foi o passo mais arriscado que nossa empresa já tomou", afirmou Bauer, de 39 anos, que vendeu sua primeira empresa aos 24 anos e se mudou para Boston em 2011. "Se tivéssemos fracassado nos EUA, não haveria nada para nós quando voltássemos à Inglaterra".


Imóveis caros e pouca mão-de-obra

Todavia, apesar do crescente número de histórias de sucesso com novatas em Londres, a cidade ainda enfrenta desafios enquanto busca competir com outros centros europeus e internacionais.

Empresários de tecnologia em Londres reclamam que os imóveis podem ser proibitivamente caros. Muitos donos de propriedades exigem contratos de aluguel longos para espaços comerciais, indo contra as necessidades de uma novata – que pode crescer ou fechar em um curto período de tempo.

Para Arnaud Bertrand, de 28 anos, cofundador do site de aluguel por temporadas HouseTrip, o maior problema tem sido contratar profissionais qualificados.

A empresa foi fundada em 2009. Hoje Bertrand possui 200 funcionários espalhados por Londres e Lisboa, em Portugal, mas ele sofreu para encontrar engenheiros britânicos com as habilidades técnicas certas. Em vez disso, ele usou agências de recrutamento que vasculharam o leste europeu por talentos, e nenhum de seus 35 desenvolvedores é nascido na Inglaterra.

"Nós quase desistimos de recrutar em Londres", disse ele. "Encontrar desenvolvedores é um dos piores desafios".

Networking

Para ajudar a atrair e manter desenvolvedores, pequenas novatas, grandes empresas como o Google e o governo britânico realizam rotineiramente eventos pela cidade.

Um desses eventos ocorreu em uma noite quente no final de setembro, quando uma fila de jovens na casa dos 20 anos entrou em um armazém convertido em East London.

Organizado por um grupo de fundadores de novatas, o evento reuniu programadores e engenheiros de toda a capital britânica para competir em um torneio de tênis de mesa que colocou 16 empresas, incluindo a equipe local do Facebook, uma contra a outra.

Em cinco horas de competição, alimentadas por cerveja grátis de uma cervejaria local e música de um DJ londrino, os 64 jogadores – vestindo camisetas estampadas com os logotipos de suas empresas – tinham a torcida de mais de 300 colegas e amigos.

Parte evento de networking, parte torneio esportivo, a noite ofereceu aos membros da crescente comunidade de novatas em Londres uma oportunidade de trocar histórias sobre trabalho, e ao mesmo tempo tentar vencer seus colegas de empresas rivais.

"Novatas são sempre competitivas", afirmou Alexander Will, cofundador da Listora, uma empresa editora de eventos, que ajudou a organizar o torneio. "Há muito a ganhar quando todos estão no mesmo local, se conhecendo pessoalmente".