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Diante da dificuldade de escritores em publicar em editoras tradicionais, empreendedores criam novo modelo de comercialização de títulos através de plataformas virtuais

Publicar um livro parece tarefa difícil e trabalhosa para alguns. Para descomplicar este processo e criar um novo modelo de negócio, empresas criaram plataformas para escritores que desejam publicar seus próprios livros sem necessitar de uma editora, nem gastar dinheiro com isso. O site Clube de Autores, criado em 2009 pelos empreendedores Índio Brasileiro Guerra Neto, Ricardo Almeida e Anderson de Andrade, é um bom exemplo deste tipo de serviço sob demanda.

Idealizadores do Clube de Autores (da esquerda para a direita): Ricardo Almeida e Índio Brasileiro Guerra Neto
Marcela Lima
Idealizadores do Clube de Autores (da esquerda para a direita): Ricardo Almeida e Índio Brasileiro Guerra Neto

A partir de uma experiência dos próprios idealizadores enquanto autores, juntamente com o conhecimento em internet, a ferramenta não oferece barreiras às publicações. Com cerca de 28 mil autores e 30 mil obras já publicadas – a maior parte de títulos técnicos e de poesia –, o Clube de Autores já representa 10% da produção anual de livros no mercado brasileiro, segundo os empresários. 

Quem quiser divulgar qualquer tipo de livro, a qualquer hora, pode fazê-lo sem qualquer custo. O escritor precisa disponibilizar na plataforma o livro diagramado e escolher qual tipo de papel e capa deseja para uma possível impressão de um comprador. Apenas isso. A edição pode ser feita a qualquer momento, sem necessidade de criar outro volume ou esperar esgotar as versões impressas. Outra opção é a produção de e-books, sem gasto de papel.

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Para ambas as versões, o autor escolhe o quanto deseja ganhar de direitos autorais, A partir daí, o sistema calcula o preço do livro e o disponibiliza na página do empreendimento. Quando o cliente faz a solicitação de compra, são listadas as gráficas conveniadas mais próximas dele, com a adição do frete.

Segundo Índio Brasileiro, a empresa já iniciou os serviços com saldo positivo, ao contrário de outros investimentos do gênero, graças à ajuda de parceiros. Os empresários não revelam o lucro anual do negócio, mas asseguram que o retorno é bom e que o site está em constante crescimento.

Algumas reclamações ao serviço, no entanto, podem ser encontradas pela web. As queixas mais frequentes são relacionadas a falhas de impressão, altos preços dos títulos vendidos e dificuldade na hora de pagar pelo produto. O Clube de Autores afirma responder aos clientes na maior parte dos casos, prometendo sanar os possíveis problemas.

Tendência de mercado

Outras empresas também nasceram para prestar este tipo de serviço. Em maio de 2011, depois de trabalhar durante 22 anos nas áreas gráficas, financeira, comercial, circulação e marketing de um grande jornal, Antônio Hércules resolveu empreender na área editorial. Criou o PerSe, uma plataforma digital de auto-publicação. “Quis juntar a expertise anterior com o mercado editorial e meus relacionamentos, então surgiu a possibilidade de montar o negócio”, conta o empresário. Durante o desenvolvimento do projeto, Hércules conversou com várias pessoas do segmento editorial e de marketing, a fim de entender o mercado.

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Criador da plataforma de auto-publicação PerSe, no mercado desde o ano de 2011
Divulgação
Criador da plataforma de auto-publicação PerSe, no mercado desde o ano de 2011

Com uma média de 1800 livros publicados, dentre os quais, aproximadamente 1500 comercializados, o site recebe com maior frequência obras técnicas e de poesia. As características da empresa são parecidas com as do Clube de Autores, porém as impressões saem todas de São Paulo. O título é publicado de forma gratuita e, no preço final, a PerSe adiciona 25% da quantia escolhida pelo escritor pelos direitos autorais. Já no caso do e-book, o autor fica com aproximadamente 70% do preço de venda, já que não há custo de impressão do livro, conta Hércules. Para divulgar o empreendimento, tudo foi feito via redes sociais, links patrocinados e assessoria de imprensa.

O empresário tem expectativas positivas quanto ao investimento e à empresa, que mantém escritório em São Paulo. “Na nossa visão, a lucratividade é razoável. O negócio ainda não está em ponto de equilíbrio, mas nossa previsão é de estabilização até o final do ano”, conta.

Outros negócios

Seguindo o exemplo da Amazon e de novos serviços do mercado editorial independente, a Saraiva lançou, em maio de 2013, o Publique-se!, uma plataforma de auto-publicação e autoedição de e-books. Segundo Frederico Indiani, diretor comercial da unidade de negócios de varejo do Grupo Saraiva, cerca de 9 mil autores se cadastraram na plataforma em seus três meses de existência e aproximadamente 650 títulos estão à venda no site.

Para disponibilizar seus livros, os escritores têm de assinar um termo de adesão e enviá-lo à empresa. Assim, é garantida uma remuneração média de 35% para o usuário. "O tráfego de comercialização dos livros é protegido pelo sistema. O autor também tem a opção de proteger seu trabalho com o DRM, evitando distribuição ilegal, empréstimo de obras ou cópias não autorizadas”, conta Indiani.

O executivo diz ainda que um dos cinco livros digitais mais vendidos em quantidade na Saraiva na categoria CTP (científicos, técnicos e profissionais) no mês é um título autoeditado no Publique-se. “O livro 'Excel 2010 Avançado' entrou na lista ao lado de obras tradicionais do segmento”, observa ele. O lucro, porém, não foi divulgado. "Como empresa de capital aberto, a Saraiva não abre dados de faturamento", justifica.

Autores independentes

O escritor Augusto Branco, pseudônimo de Nazareno Vieira de Souza, viu no Clube de Autores uma forma de começar sua carreira. Por uma busca pela internet, Branco encontrou o site. “Procurei sem pretensão alguma. Só queria dar um livro de presente para minha mãe”, conta. O livro de poesia “Vida”, despretensiosamente publicado, teve grande repercussão na plataforma digital e, então, uma editora portuguesa foi atrás do escritor para colocá-lo em seu time.

Capa do livro Vida, lançado pelo escritor brasileiro Augusto Branco
Divulgação
Capa do livro Vida, lançado pelo escritor brasileiro Augusto Branco

A obra ficou 26 semanas entre os 10 livros mais vendidos em Portugal em 2010. Uma repercussão significativa para a primeira publicação do autor. De Porto Velho, no estado de Rondônia, ele viu seu poema “Vida” ser declamado por Rodrigo Lombardi no especial de Ano Novo do programa Domingão do Faustão, da rede Globo. Contratado também por uma editora argentina que publica obras no Brasil, Branco está agora para fechar contrato com uma editora inglesa.

Ele diz que o Clube de Autores é uma boa vitrine para quem está começando e surpreende-se, no entanto, com o fato de o livro impresso comercializado no site não ter preço baixo e que, mesmo assim, venda bem. “A versão impressa fica muito cara. O frete é alto”, afirma.

O estudante de jornalismo Antonio Felipe Purcino, assim como Augusto, encontrou o Clube de Autores depois de buscas pela internet. “Estava procurando informações sobre como publicar um livro, já que era totalmente leigo. Encontrei o site e decidi experimentar”. Fã da série mexicana Chaves desde criança, em 2007 começou a escrever “O Diário do Seu Madruga”, um livro que conta de maneira ficcional a história do personagem criado por Roberto Gómez Bolaños. No entanto, ao procurar uma editora, não obteve sucesso.

Em 2013, disponibilizou o livro no site e vendeu 20 unidades. “Para quem não possui conhecimento de editoração e publicação de livros, o serviço é muito bom. Há instruções práticas de como formatar,  além de dicas de como vender mais”, conta o estudante. Mesmo considerando o retorno financeiro adequado, ele faz uma ressalva. “Se você deseja receber direitos autorais todo mês, é preciso elevar o preço do livro para atingir o valor mínimo de pagamento rapidamente – R$ 70,00 ou R$ 100,00, dependendo da forma de pagamento”, diz.

Avaliação do negócio

Para o consultor do Sebrae Wlamir Bello, os riscos são normais a qualquer tipo de investimento, porém "estes empresários estão trabalhando com uma tendência de mercado e de mídia que tem como conceito a desintermediação (sem uma editora)". Com muitas pessoas querendo produzir livros, este serviço diminui os custos, mas precisa sofrer adequações para o saldo ser positivo.

O conselho de Wlamir é que os empreendedores façam escalas na distribuição, a fim de lucrar sobre o preço final do livro. "É necessário o cálculo de um número mínimo de obras vendidas para gerar receita. Além dos aspectos legais de direitos autorais, é imprescindível o cuidado na formação de preço, para que haja lucros para autor e empresa", afirma.

Ele completa, ainda, que o número de leitores de e-books tem crescido muito acima da expectativa. "O empreendimento tem grandes chances de dar certo, mas deve-se lembrar que todo negócio é uma aposta", alerta.

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