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Paulistano de 19 anos planeja ter uma oficina de bicicletas 100% móvel

Ganhar dinheiro com um negócio sobre rodas exige disposição para suar a camisa em busca dos clientes, claro. Principalmente quando eles estão em movimento. É o que faz o mecânico Lucas Barbosa, 19 anos, de São Paulo. Com uma bicicleta de R$ 1,5 mil, o jovem criou uma forma de juntar dinheiro para se tornar um microempresário de um mercado bilionário e em ascensão.

Às quintas-feiras, depois que a bicicletaria onde trabalha baixa as portas, Barbosa coloca parte da oficina na mochila, com ferramentas herdadas do avô, monta a própria magrela e segue para uma academia de ginástica da Penha de França, zona leste de São Paulo. No ponto de encontro, seus 20 a 30 fregueses o aguardam. Começa o horário de expediente de Mosquito, como é conhecido o mecânico ambulante.

Pelos próximos 30 quilômetros, aproximadamente – o tempo do percurso depende da quantidade de pneus furados, correntes quebradas, cabos de freios enguiçados –, Barbosa acompanhará de bike um dos muitos grupos de ciclistas que povoam a noite de São Paulo. 

“Eu comecei em janeiro deste ano, quando montei minha bicicleta e fui conhecendo uma galera que pedalava à noite, vários deles [grupos]”, diz o mecânico, enquanto troca um pneu. “Esse é o que oficialmente me contratou para trabalhar.”

Antes de ser escolhido como prestador de serviço, Barbosa era apenas mais um integrante do grupo. Mas, ao perceber que para muitos o conhecimento sobre bicicleta se restringe a saber equilibrar-se sobre ela, a oportunidade de monetizar as habilidades fez um estalo sob o capacete.

“Às vezes furava o pneu na rua e o cara não sabia como trocar. Como eu já trabalhava na bicicletaria, eu acabava oferecendo esse serviço”, diz ele.

Por cerca de R$ 30 por noite – o valor varia de acordo com os números de consertos e de participantes –, os ciclistas da pedalada passaram a ter um mecânico à disposição onde quer que um pneu fure, um cabo de aço arrebente ou uma porca se desprenda. O ganho mensal serve apenas como um complemento de renda. Barbosa está juntando dinheiro para comprar ferramentas mais modernas e melhorar o atendimento.

“Poucos sabem mexer na bicicleta, não é? A gente sentiu a necessidade de alguém para ajudar. O Lucas começou a pedalar com a gente e disse: 'se vocês quiserem, eu posso acompanhá-los. Qualquer problema na bicicleta, eu arrumo e vendo meus serviços’”, lembra João Alencar, corretor de seguros de 52 anos e organizador da pedalada. “Ele já está aqui com a gente há uns meses e funciona direitinho.”

Barbosa já vislumbra alguns investimentos para profissionalizar o serviço com o dinheiro que arrecada nas noites de quinta-feira: um baú para bicicleta, a fim de não ter de levar a oficina nas costas, e algumas outras ferramentas. O bico, espera o mecânico, será o primeiro passo para que ele possa abrir sua própria oficina de bicicletas – talvez 100% móvel.

“Não pretendo sair da loja, mas futuramente quero montar um negócio à parte, apenas para as horas vagas”, diz Barbosa. “Quero começar assim, sendo um mecânico urbano, rodando por aí em parques e oferecendo o serviço de mecânica de bike”, diz ele.

Cartaz usado por Felipe Centrone para vender luzes e refletores para bicicletas na noite de SP
Arquivo pessoal/Felipe Centrone
Cartaz usado por Felipe Centrone para vender luzes e refletores para bicicletas na noite de SP

Luzes e refletores

Formado em educação física, o personal trainer Felipe Centrone, de 22 anos,  também namora a possibilidade de seguir carreira no no ramo do ciclismo – um mercado que fatura cerca de R$ 1,5 bilhão por ano e que deve seguir em franca expansão ao menos nos próximos cinco anos, segundo um estudo da Associação Brasileira da Indústria, Comércio, Importação e Exportação de Bicicletas, Peças e Acessórios (Abradibi).

“Abrir uma bicicletaria é uma coisa muito lucrativa e divertida. A gente precisa trabalhar com algo que gosta, mas talvez seja algo mais para fazer mais no futuro”, diz ele. “[É preciso] guardar um capital para investir.”

Por enquanto, Centrone oferece o serviço in loco. Há cerca de três anos, ele aproveita as Bicicletadas – eventos que ocorrem toda última sexta-feira do mês na capital paulista e reúnem alguns milhares de ciclistas – para, montado numa bicicleta, vender acessórios como luzes e coletes refletores.

“Eu sempre gostei e busquei novidades [em acessórios] para mim. A pessoas passam e vão dando uma olhada. Como tem gente interessada, eu faço disso uma forma de ganhar dinheiro”, diz ele.

O iG publica amanhã (17) a quarta reportagem da série "Negócios sobre Rodas" – como usar uma van para ganhar dinheiro com banho e tosa de cães.