Publicidade
Publicidade - Super banner
Finanças Pessoais
enhanced by Google
 

O bê-a-bá financeiro

Ensino de conceitos de economia para crianças deve começar desde o nascimento e pode ser ensinada nas escolas, dizem psicólogas

Olívia Alonso, iG São Paulo |

Luan tem seis anos e é uma criança inquieta. Mas não se distraiu por um segundo no último domingo, quando aprendia conceitos de economia em um desenho animado. Na televisão, o personagem Porco, graduado em Economia em Harvard, dizia ao Magro, um rapaz formado pela fictícia Escola Técnica de Magrópolis, que ele poderia comprar apenas uma bugiganga ao mês, pois teria que guardar um pouco de seu dinheiro para planos futuros. O Porco e o Magro são os personagens do Turma da Bolsa, projeto da BM&FBovespa, em parceria com a Fundação Roberto Marinho.

Assim como a Bolsa de Valores, diversas outras instituições, tanto privadas como públicas, vêm pensando em maneiras de criar uma cultura de educação financeira para os pequenos. Depois de se esforçarem na “popularização do mercado” para os adultos, agora é a vez das crianças. Peças de teatro, jogos virtuais, sites com quadrinho e o ensino interdisciplinar estão entre as estratégias mais recentes. nullO objetivo é criar uma cultura de educação financeira em todas as idades, dizem os idealizadores, não só entre públicos adultos e que já têm noções dos mercados. Por trás das iniciativas, além de trazer mais clientes para o sistema financeiro, está a crescente preocupação de que o crescimento econômico do País não seja acompanhado pela educação, o que poderia elevar índices de inadimplência e trazer riscos aos próprios mercados.

“É preciso que a população tenha o hábito do orçamento, de consolidar todas os ganhos e a despesas e de criar reservas”, diz Fabio Moraes, gerente de educação financeira da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Na opinião dele, é primordial levar conceitos de planejamento para o público infantil e juvenil. “Logo eles serão parte do sistema financeiro”, afirma.

Angela, mãe de Luan, diz não se preocupar ao ver o filho, ainda tão pequeno, em contato com termos como juros, poupança, crédito e endividamento. Realmente, ela não deve se preocupar, segundo a psicóloga Marisa Gabbardo, especialista em finanças comportamentais. “A educação financeira tem que começar em casa, desde quando a criança nasce.” Os pequenos absorvem os padrões de comportamento impostos desde o nascimento, segundo Marisa. “Conforme o posicionamento de seus pais em relação às finanças, as crianças observarão e vivenciarão junto com eles a forma de lidar com a questão financeira”. Assim, a sugestão da especialista para os pais é que se instruam sobre educação financeira por meio de livros, palestras, sites e revistas e organizem melhor suas vidas para passar lições “mais maduras” aos filhos.

Divulgação
Gabriel e Dudu, personagens do Teatro Finanças Práticas, ensinam plateia a poupar
Caso a educação financeira não comece em casa, “será excelente se a escola ensinar”, segundo a psicóloga. “A partir dos dois anos de idade, o ensino deve começar de forma lúdica, por meio de desenhos, fábulas e jogos”, afirma Marisa. Há o risco de que os pais não saibam lidar com a ideia de os filhos trazerem informações tão novas e diferentes para casa, ressalta a especialista em finanças comportamentais, mas a situação deve ser enfrentada. “Pode haver o mesmo conflito que existe quando, por exemplo, o aluno aprende sobre sexualidade na escola. Ele leva informações com as quais o pai e a mãe não sabem como lidar”, diz. No entanto, a maioria dos pais aproveitam para crescer, buscando ainda mais informações sobre o assunto, diz Patrícia Quadros, gerente de programas de popularização da BM&FBovespa. “Essa distribuição de informações contribui para a criação de uma cultura de educação financeira no País”, acrescenta.

O papel das crianças como educadores dos pais também é defendido por Jennifer McGowan, diretora regional de relações corporativas da Visa América Latina e Caribe. “As crianças levam o conhecimento para casa, em um efeito multiplicador”, afirma. Jennifer coordena a adaptação brasileira do “Teatro Finanças Práticas”, trazido ao Brasil este mês pela Visa, com o apoio do Banco do Brasil. A peça original foi criada nos Estados Unidos para levar educação financeira à plateia. A peça foi adaptada e, aqui no Brasil, é destinada a crianças e jovens de 10 a 17 anos. Conceitos de finanças são transmitidos pelos personagens Gabriel, um talentoso jogador de futebol que não sabe lidar com dinheiro, e Dudu, um amigo que consegue ajudá-lo a planejar suas finanças e salvar sua carreira.

Psicologia econômica

Divulgação
Orçamento, dívidas, juros e cartões são temas das perguntas
Após a apresentação de estreia do Teatro Finanças Práticas, em São Paulo, as crianças e jovens presentes participaram de um jogo com questões de finanças pessoais idealizado pela Visa. Para a surpresa do público adulto, eles acertaram perguntas como: o que é consolidação de débitos, qual a diferença entre cheques e cartões de crédito e o que são juros bancários. “Vimos que eles assimilaram o conteúdo. Tudo foi muito bem transmitido de forma lúdica”, disse Rubén Osta, diretor-geral da Visa do Brasil. Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em psicologia econômica, explica que o ensino de conceitos econômicos para crianças e jovens é muito eficaz quando há a inclusão de conceitos em representações de situações do dia-a-dia.

A psicóloga atuou como consultora na elaboração do material didático da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef). Para cada lição dos livros, criou uma dica, como por exemplo: “se usar o cartão ou o cheque, a tendência é de gastar mais do que com dinheiro vivo”, conta. O projeto de educação financeira da Enef é coordenado pelo Coremec, comitê que une Banco Central, Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e a Secretaria de Previdência Complementar (SPC), e está na fase de projeto piloto. Hoje, há 500 escolas brasileiras cadastradas para inserir a educação financeira em seus conteúdos. O objetivo é de chegar a 800 ainda este ano. “A princípio, o projeto está sendo testado nos estados de São Paulo, Tocantins, Ceará e Distrito Federal, e deverá se tornar uma política pública federal”, explica José Alexandre Vasco, superintendente de proteção e orientação aos investidores da CVM.

Vera Rita conta que também incluiu nos livros conceitos de psicologia, que são outra forma de ensinar o público infantil e juvenil. Um exemplo é o “focalismo”, explicado da seguinte forma: antes de comprar, a pessoa imagina que a aquisição será o máximo. Assim que ela adquire o produto, raramente vive a experiência que imaginava e logo passa a ter outros focos.

Definindo prioridades

Outra iniciativa recente de quem incentiva a educação em finanças é o programa norte-americano “The Money Camp”, trazido ao Brasil pela educadora financeira Silvia Alambert. O projeto ensinará finanças pessoais a 250 alunos entre seis e 17 anos do bairro do Jaguari, de São Paulo. Silvia destaca a importância de ensinar as crianças e adolescentes a definirem prioridades. “A partir do momento em que eles começam a refletir sobre suas prioridades, percebem que estavam se deixando levar pelos apelos da sociedade e chegam à conclusão de que a maior parte do que consomem é desnecessário”, explica Silvia.

Silvia diz que o projeto também trabalha com a autoconfiança, para que crianças e jovens consigam enxergar melhor quem são e poupar mais. “Com a autoestima elevada, cada pessoa passa a valorizar-se mais e deixa de lado a ideia de que somente será aceita pela sociedade se possuir todos os equipamentos e produtos dos últimos lançamentos”, diz.

Divulgação
Em jogo do projeto Turma da Bolsa, crianças têm que achar palavras como ações, orçamento e juros

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG