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Com redução nos financiamentos, empréstimos ficaram mais caros e impulsionaram os calotes

Seis meses após o governo abrir o arsenal para moderar a economia, dados recentes apontam que um dos objetivos, o de frear a expansão do crédito, tende a ser atingido. Mas não pelo caminho desejado.

Com menor acesso a linhas como crédito consignado, um dos alvos das medidas macroprudenciais adotadas em dezembro, tomadores do varejo recorreram a empréstimos com custos muito mais salgados para continuar comprando ou para saldar as dívidas do início do ano. Resultado: os calotes vêm crescendo .

"O aumento das linhas de financiamento mais caras --cheque especial e cartão de crédito-- é um sinal das dificuldades de obtenção de crédito em outras linhas de financiamentos pelos consumidores", afirma o economista Wermeson França, da LCA Consultores.

Dados da Serasa Experian mostram que em maio os calotes de pessoas físicas deram um salto de 8,2% sobre abril, movimento puxado pelas dívidas bancárias.

Os números mais recentes do Banco Central, referentes a abril, já apontavam nessa direção, com o índice de atrasos do sistema chegando a 4,9%, o maior desde julho do ano passado. O índice para pessoas físicas foi a 6,1%.

Isso num momento em que o spread atingiu o pico desde maio de 2009.

A taxa do cheque especial alcançou em abril o maior nível desde abril de 2003, beirando 175% ao ano. E o crédito segue crescendo numa velocidade de mais de 20% ao ano, bem acima da faixa de 11% a 15% esperada pelo governo para este ano.

Ou seja, diferentemente dos últimos dois anos, quando o governo derrubou os juros e abriu as torneiras do crédito para debelar os efeitos da crise global, agora o crescimento do crédito se dá de forma menos benigna, com destaque para linhas mais caras.

Em 2011 até abril, os empréstimos que mais cresceram foram os do cheque especial (21%), seguidos pelos do cartão de crédito (11,5%). Nas modalidades mais baratas, a de veículos avançou 8,2%, seguida por crédito pessoal (6,6%) e consignado (6,7%).

Com parcelas mais caras, muitas pessoas não estão conseguindo honrar seus compromissos e a inadimplência vai continuar aumentando, até chegar a casa dos 8% no final do ano, avalia o assessor econômico da Serasa Experian Carlos Henrique de Almeida.

"Nesse cenário de desaceleração da economia, inadimplência subindo é um sinal amarelo", diz Almeida.

Representantes do governo e dos bancos veem o cenário com bem menos preocupação. Avaliam que novas quedas nas taxas de desemprego, combinadas com aumentos na massa salarial do trabalhador, devem amortecer a inadimplência, que deve ter expansão apenas residual nos próximos meses.

"É difícil ter um aumento muito grande da inadimplência de um mês para o outro numa conjuntura como a atual", afirma o economista-chefe da Febraban, Rubens Sardenberg. "Está longe de ser algo preocupante", emenda.

Uma fonte do governo com trânsito no BC reconheceu, contudo, que a junção de aumento simultâneo dos juros e da inflação nos últimos meses têm pressionado a renda do trabalhador.

Saques em fundo

Numa possível indicação de que as famílias estão consumindo suas fontes de recursos para pagar dívidas, dados recentes mostraram a saída simultânea de recursos da poupança e dos fundos de investimentos em maio, algo incomum.

Os resgates da caderneta de poupança tiveram o maior resgate líquido para meses de maio desde 2006, segundo o BC.

Já a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) informou que a indústria de fundos teve resgates de R$ 7,16 bilhões no mês, o maior desde dezembro.

Para a fonte do governo, o cenário atual concorre para novos "aumentos marginais" da inadimplência, mas nada que sugira um alerta.

"Não temos perspectiva de algo mais grave", disse a fonte à Reuters, sob condição de anonimato. Tanto que o BC descarta, por ora, a possibilidade de mais medidas macroprudenciais.

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