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Brasileiros encurtam período de estadia, desistem de passeios turísticos ou mesmo adiam o sonho de estudar no exterior

A desvalorização do real encarece viagens internacionais; no detalhe, o estado da Califórnia (EUA)
Wikipedia
A desvalorização do real encarece viagens internacionais; no detalhe, o estado da Califórnia (EUA)

A disparada do dólar, que chegou a ultrapassar R$ 4,20 na última semana, tem dificultado a realização do sonho de estudar no exterior, e forçado os candidatos a encurtar a estadia, desistir de passeios turísticos ou mesmo adiar o a realização do sonho.

“Quando estava com o contrato na mão, para assinar tudo, acabei olhando o valor do dólar e desisti na hora”, conta o estudante Marcos Sato, que planejava fazer faculdade em Chicago com apoio dos pais. Até a quarta-feira (30), o dólar estava rondando os R$ 4, fechando os dias pouco acima ou abaixo. Em um ano, a alta supera os 60%.

“A faculdade lá fora é muita cara. Em média US$ 35 mil [ R$ 146 mil ] a US$ 40 mil [R$ 167 mil ]. Mesmo com o dólar reduzido já era caro e, com o dólar como está, não dava mais realmente não dava mais para ir agora. Não acho justo com meus pais, sendo que não poderia trabalhar no exterior por só ter o visto de estudante”. A frustração de Sato acabou sendo grande: “Não acreditei que não ia poder fazer”, diz.

Hoje, produtos que já foram mais baratos nos EUA, ficaram mais viáveis no Brasil. Essa lógica se entende aos gastos com outras necessidades que precisam ser atendidas em uma viagem, como alimentação e transporte. O preço do metrô em Nova York, por exemplo, é de US$ 2,75, que custaria aproximadamente R$ 11, mais que o triplo do valor na cidade de São Paulo, onde um bilhete unitário custo de R$ 3,50.

O estudante de administração Raphael Caniello, de 23 anos, planejava um intercâmbio para um país cujo idioma principal fosse o inglês, para poder estudar melhor a língua. Mas a alta do dólar também atrapalhou. “Para contornar o problema, eu aumentei as minhas buscas em outras agências, novos cursos, e penso em encurtar o período do intercâmbio”, ele explica. “A frustração não foi muito grande. Só tive de reprogramar meus planos com relação ao período do intercâmbio, roteiro ou talvez até mesmo adiar o sonho.”

Jovens procurando intercâmbio encontram dificuldades por conta de moedas caras
SXC
Jovens procurando intercâmbio encontram dificuldades por conta de moedas caras














Já para quem tem um trabalho para ganhar em dólar, o momento é propício, desde que o investimento necessário seja baixo. Mariana Stocco, 21, foi aprovada no Disney International Program – programa que seleciona jovens para trabalhar nos parques da Disney durante as férias – e diz que está bastante animada com o trabalho. “Além de ter o atrativo de trabalhar em uma das maiores empresas de entretenimento do mundo, você recebe pelo trabalho sendo necessário pagar apenas pela estadia em um dormitório e passagem”, ela explica. O que receberei por semana [ em dólar ] é suficiente para me manter em Orlando.”

Mariana Stocco vai trabalhar na Disney no fim do ano
Reprodução/Facebook
Mariana Stocco vai trabalhar na Disney no fim do ano

Mas, mesmo com a animação, a jovem está preocupada com taxas obrigatórias, como seguro e gastos com saúde. “Em circunstâncias normais, onde o dólar estava a R$ 2,40 ou R$ 2,70, não ficaria tão caro, mas é uma diferença brutal pensar em fazer a conta multiplicando por R$ 4. Eu acho que se não fosse um intercâmbio remunerado, não teria condições de ir”, afirma a estudante.

Mariana diz que agora ela e a família vão esperar para ver se cai o preço da moeda para decidir melhor como vão lidar com a situação. “Não esperamos a moeda voltar para os R$ 2, mas já seria um grande alívio ir para baixo dos R$ 3.”



Dólar alto não reduz número de viagens de brasileiros ao exterior

Mesmo com o ritmo nervoso de alta da moeda norte-americana, que baliza o mercado de turismo mundial, o número de brasileiros viajando para o exterior continua elevado. Segundo dados da Agência Nacional de Aviação Civil, o crescimento de pessoas que viajaram para o exterior foi de 14% em maio deste ano, o 15º mês de alta consecutiva. No primeiro semestre do ano, aeroportos registraram 107,7 milhões de embarques e desembarques, o melhor resultado da história para o período também segundo a ANAC. 

Porém, o gasto dos brasileiros no exterior caiu significativamente. Dados do Banco Central (BC) mostram que os gastos em viagens ao exterior caíram 46,26% em agosto, com a soma total de US$ 1,263 bilhão ante US$ 2,350 bilhões em agosto de 2014.

Fábio Martin foi viajar com a família em julho, quando o dólar estava cotado próximo aos R$ 3,20. Ele explica que já tinham planejado a viagem há um ano e que conseguiram aproveitar “intensamente” o passeio, pois já haviam se blindado em relação à alta.

“O que fizemos para tentar contornar um pouco a situação, a fim de evitar a compra da moeda americana em casas de câmbio sempre muito acima de seu valor comercial, foi de aproveitar os dólares guardados de outros momentos, tanto nossos como de alguns familiares que não estavam usando”, conta Martin.

Moedas europeias

O dólar não foi a única moeda a se valorizar em relação ao real. Na quinta-feira (24), o euro chegou a ser cotado em mais de R$ 4,70. A libra esterlina ficou ainda mais elevada, cotada em mais de R$ 6,35.  

A filha de Marcelo Santana, Jéssica, foi fazer um programa de intercâmbio de seis meses em Paris via um programa de bolsas oferecido pela Universidade de São Paulo (USP). O programa não paga a estadia, mas fornece um valor fixo em reais para ser administrado pelo bolsista. Com a alta do euro, o dinheiro de Jéssica perdeu muito do seu valor. “A alta do euro complica porque a gente tinha feito uma programação do quanto a gente gastaria e eu ia fazer essas remessas mensalmente. Cada vez que faço a remessa o valor tá maior”, afirma Marcelo Santana.

Jéssica trabalhou alguns meses antes de viajar para poder cobrir algumas despesas enquanto estivesse fora. Agora seu pai acredita que ela terá de fazer alguns passeios a menos, pois o valor guardado vai acabar comprando menos euros do que o previsto. Apesar disso, Marcelo afirma que ainda não tiveram nenhum problema sério e que os estudos de Jéssica seguem normalmente.

“O valor para estadia dela lá e o básico do intercâmbio já estavam provisionados, então vai gastar um pouco mais, mas a gente tem como bancar”. Ele fala que a situação fará com que a filha viaje menos e gaste um pouco menos até mesmo com comida, mas acredita que ela está encontrando boas opções para gastar menos na França.

“Eu acho que o que vai atrapalhar um pouco mais é que a gente tinha programado, pra depois do intercambio dela, uma viagem da família inteira. A gente queria passar 17 dias viajando por toda Europa, mas estamos revendo esse passeio, focando em uma quantidade menor de países, para gastar um pouco menos no transporte”, conclui Santana.

Confira lista de 6 lugares para viajar sem se preocupar com a alta do dólar:



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